Nat King Cole Foto: AP/Reprodução

Há 70 anos, Nat King Cole sofria emboscada da Ku Klux Klan no meio de show

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


O 10 de abril de 1956 representou um dos episódios de racismo mais emblemáticos da história dos EUA

Há 70 anos, dia 10 de abril de 1956, um dos episódios de racismo mais chocantes e emblemáticos da história da música mudou a vida dos agressores, do país e, principalmente, da vítima. A agressão sofrida por Nat King Cole, no auge, durante um show, foi muito além de uma mera ocorrência policial. Expôs aos estadunidenses um paradoxo estranho no mundo da música negra. E uma de suas maiores vozes aprendeu que não se pode ficar em cima do muro, como um artista “que não gosta de levantar bandeiras”.

Nascido no Alabama, Cole havia se mudado para Chicago ainda criança. Foi na grande e musical cidade que desenvolveu toda a sua carreira. Ao saber que voltaria para seu estado natal para tocar na cidade de Birmingham (a maior do Alabama), no seu principal auditório, se sentiu feliz: voltaria vitorioso ao lugar onde nasceu, como um astro da música, já famoso em todo o país por sucessos como Unforgettable e Mona Lisa.

A vontade de se apresentar em seu estado de origem fez com que Nat King não se importasse com um dos maiores traumas locais: a segregação racial regulada pela hedionda lei “Jim Crow”. Negro, o artista foi contratado para fazer dois shows no mesmo dia. Um somente para uma plateia branca e outro para os seus.

Começam aqui os citados paradoxos: os racistas estadunidenses adoravam música negra. Foram vários os casos em que músicos famosos lotavam teatros cheios de brancos e, ainda assim, eram destratados nos hotéis e até nos camarins dos shows. Tocar só para os negros era jogar um fósforo num paiol de pólvora. Ou faziam dois shows (segregados), ou nenhum.

Apesar de estar ciente de tudo isso, Nat King Cole não queria se envolver na questão. Jamais havia participado de protestos ou se posicionado sobre o assunto. Enquanto se considerava um artista chapa-branca, foi atacado no começo do primeiro espetáculo em Birmingham. Em cima do palco. Na frente de quatro mil expectadores. Sim, é isso mesmo: quatro mil pessoas brancas pagaram ingresso para ver um artista negro sem enxergar que a segregação era algo horrível.

Quatro homens ligados à Ku Klux Klan e liderados por um certo Asa Carter subiram ao palco no meio da performance da terceira música, Little Girl, para espancar o astro. Um deles conseguiu derrubá-lo do banco do piano, machucando suas costas. Investigadores já haviam detectado algo estranho no ar e colocaram policiais à paisana, que rapidamente subiram ao palco e evitaram algo pior.

Bem pior. A ideia do grupo de malucos chamado North Alabama Citizens Council, vinculado à KKK, era sequestrar o músico. Em um automóvel no estacionamento do local, a polícia encontrou rifles, cacetetes e socos ingleses. Após a agressão, o artista desabafou no microfone: “Eu só vim aqui para entretê-los. Achei que era isso o que vocês queriam. Preciso ir a um hospital agora”. O restante da apresentação foi cancelada, mas Cole retornou ao local para a segunda, voltada à plateia negra.

A agressão causou comoção nacional. Os quatro criminosos foram presos em flagrante, julgados e sentenciados a 180 dias de prisão. Elevou a temperatura da revolta do país em relação à segregação racial no Alabama, mas para Nat King Cole, a ficha demorou um pouco a cair. Nos primeiros dias, se mostrou indignado, já que não participava do ativismo antissegregação.

Tomou uma lição sobre racismo, da pior maneira. Roy Wilkins, ativista e fundador da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), enviou um telegrama ao cantor, afirmando que o ataque deixava claro que a “intolerância organizada não faz distinção entre aqueles que não desafiam ativamente a discriminação racial e aqueles que o fazem”.

Cole ficou magoadíssimo com as críticas, mas após noites de reflexão, passou a compreender melhor tudo o que havia acontecido. Se ele, um artista famoso, passou por isso, imagine um cidadão desconhecido? Se filiou à NAACP de forma vitalícia, doou dinheiro para a causa e passou a participar presencialmente dos protestos organizados pela associação. A luta antirracismo precisava de uma grande figura, adorada pelos brancos, como Nat King Cole. E Nat King Cole percebeu que também precisava lutar.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.