The Infinite Now The Long Now serviu de inspiração para o novo The Infinite Now. Foto: Camille Blake/Divulgação

Com direito a camas, festival The Infinite Now estreia em Berlim

Lalai Persson
Por Lalai Persson

Edição: Flávio Lerner


Evento de música avançada propõe 30 horas de imersão — incluindo uma noite de sono; confira os destaques da programação!

O Kraftwerk Berlin, uma das locações mais bonitas da capital alemã, vai funcionar como moradia por um fim de semana em maio. E não é metaforicamente. Camas estarão espalhadas pelo espaço, o som tocando enquanto a gente dorme com a programação atravessando a madrugada, o amanhecer e o entardecer de domingo inteiro, até a meia-noite.

Vai ser uma experiência de habitar um espaço por tempo suficiente para que algo mude dentro da gente sem que a gente perceba. Afinal, o lazer virou agenda, o descanso virou otimização, e o show que a gente foi ver já está editado nos stories antes de acabar.

É nesse desconforto que surge The Infinite Now.

O que é, afinal, The Infinite Now?

Em 16 e 17 de maio de 2026, o Kraftwerk Berlin, a antiga usina elétrica onde fica o club Tresor e a casa do festival experimental Berlin Atonal desde 2013, vai abrigar esse programa musical contínuo de 30 horas sem headliners, sem intervalos, sem palco convencional.

The Infinite Now é a primeira colaboração formal entre Berlin Atonal e Unsound, dois dos festivais mais influentes da cena experimental global. O primeiro surgiu pré-queda do Muro em 1982, rolou até 1990 e foi relançado em 2013. Desde então, mantém uma consistência curatorial invejável na interseção entre arte sonora, performance e composição contemporânea.

The Infinite Now

Kraftwerk Berlin. Foto: Cecilia Zawadzki/Reprodução

O segundo, nascido em Cracóvia, na Polônia, construiu ao longo de mais de 20 anos uma rede internacional que leva música experimental para contextos institucionais de peso, de Nova Iorque a Adelaide, na Austrália.

Juntos pela primeira vez, eles (re)criaram uma estrutura duracional. Mais de 30 artistas ao longo de 30 horas, programados para que o momento do dia — o cansaço, a luz, o estado físico do corpo — seja parte do que a gente ouve.

O modelo foi resgatado do antigo The Long Now, que de 2015 a 2019 funcionou como encerramento do Maerzmusik, festival de música contemporânea do teatro Berliner Festspiele. The Long Now terminou, e The Infinite Now surge com uma versão expandida dessa lógica em escala maior, com curadoria mais densa, e com a noite de sono incluída no programa. A proposta é dormir dentro do Kraftwerk, enquanto a música acontece ao redor. O descanso não interrompe a experiência. Ele é parte dela.

O que faz do Infinite Now um evento tão contemporâneo

Aqui, eu vou viajar um pouco porque não resisto. O filósofo Byung-Chul Han escreveu que o belo precisa de tempo e silêncio para se revelar, e que vivemos uma época que combate ativamente as duas coisas. O problema não é falta de acesso à arte, mas o excesso de estímulo raso que a gente recebe, o fato da gente consumir sem estar presente, porque, na maioria das vezes, nossa experiência está sendo mediada por uma tela.

The Infinite Now é, entre outras coisas, uma resposta a isso. A lógica do evento torna inútil qualquer tentativa de transformar a experiência vivida em conteúdo. Serão 30 horas ininterruptas que não cabem em poucos frames. Uma performance de três horas de improvisação coletiva japonesa não tem o “momento” para capturar. Kali Malone tocando obras de instalação às 04h da manhã para uma plateia deitada no chão provavelmente não produz um Reel que fará sentido fora do contexto. Ou você está lá vivendo, ou não está.

Os meus destaques da primeira edição

Se você estiver pela Europa ou cogitando ir a Berlim, estes são os sete shows que quero muito assistir, mesmo que meio dormindo:

Kali Malone. Foto: Victoria Loeb/Divulgação

Kali Malone (domingo, 04h): Quatro horas de obras de instalação, quase todas inéditas ao vivo, compostas originalmente para museus e galerias. A compositora americana radicada em Estocolmo é uma das vozes mais originais trabalhando com órgão, sistemas de afinação específicos e estruturas minimalistas de longa duração. Esse material raramente, talvez nunca, tenha sido apresentado nesse formato ao vivo. Para ser ouvido deitado, nas horas mais silenciosas da noite, enquanto parte da plateia dorme ao redor. É o tipo de experiência que muda levemente o jeito como você ouve música depois.

Joanne Robertson (sábado, 21h): Robertson usa pouquíssimas notas do violão, deixando o silêncio entre os acordes se estender até ficar desconfortável. Antes da noite pesar, é só ela e o instrumento.

Caterina Barbieri (sábado, 22h): Barbieri trabalha com síntese modular, construindo padrões que se repetem tempo suficiente para mudar a forma como você os ouve. Esse novo trabalho expande isso para um formato maior: eletrônica, vozes, metais e um palco desenhado em torno do som.

Adam Wiltzie. Foto: Divulgação

Adam Wiltzie (domingo, 08h): Wiltzie é metade do Stars of the Lid, o projeto ambient que ele cofundou com Brian McBride em Austin nos anos 90 e que produziu alguns dos discos mais bonitos da história da música eletrônica orquestral. McBride morreu em 2023.

Wiltzie montou um set de três horas revisitando o catálogo do duo especialmente para o contexto duracional do Infinite Now, para uma plateia que está acordando do segundo dia, desorientada pelo cansaço. A Tired Reworking of Stars of the Lid For the Sleep Deprived é um título que já diz tudo. Alta chance de ser devastador.

Marginal Consort. Foto: Divulgação

Marginal Consort (domingo, 16h): O grupo japonês de improvisação coletiva fundado por Kazuo Imai em 1997 raramente sai do Japão. Imai foi membro do Taj Mahal Travellers e estudante de Takehisa Kosugi, e o Marginal Consort convoca seus integrantes apenas para ocasiões especiais.

Nada é combinado previamente. Cada músico se distribui pelo espaço e toca independentemente, usando instrumentos acústicos, eletrônica, bambu, mármore, água. A audiência não assiste, ela circula, se aproxima, se afasta, escolhe o que ouvir. Três horas assim é uma das experiências mais radicais da programação, e provavelmente um dos shows mais raros do ano em qualquer lugar do mundo.

Romeo Castellucci. Foto: Talos Buccellati/Divulgação

Romeo Castellucci & Scott Gibbons (domingo, 00h): To Carthage then I came é uma obra nova, apresentada na virada da meia-noite. Castellucci é um dos diretores de teatro mais importantes do mundo. Sua prática destrói a primazia do texto em favor de uma dramaturgia integral de imagem, som, escultura e arquitetura.

Gibbons extrai som do interior da matéria, entre o molecular e o cósmico. Juntos desde 1998, produziram alguns dos momentos mais intensos do circuito europeu de performance. Estreia mundial. Meia-noite. Kraftwerk. Eu estarei lá.

Terrence Dixon. Foto: Paul Clement/Divulgação

Terrence Dixon (domingo, 23h): Fechamento com a estreia mundial de A Cosmic Display of Beauty. Dixon é um dos músicos eletrônicos mais filosóficos de Detroit. Ele usa as máquinas para pensar e traçar arquiteturas invisíveis. Encerrar uma maratona de 30 horas com techno especulativo de alguém que trabalha com rigor quase monástico é uma escolha que diz muito sobre o que o festival entende por experiência musical. Aqui, sei que vou chegar ao limite do cansaço e encontrar algo que parece construção de sentido.

Prelúdios

Nos dias que antecedem o programa principal, The Infinite Now apresenta três shows independentes no Kraftwerk Berlin: Oneohtrix Point Never (10 de maio), Hania Rani como Chilling Bambino (12 de maio) e a Sinfonietta Cracovia tocando Gavin Bryars (14 de maio).

Se você puder ir a apenas um, considere o segundo, de 12 de maio.

Hania Rani. Foto: Zippo Zimmermann/Divulgação

Hania Rani é conhecida como pianista e compositora neoclássica com apelo crossover, o tipo de artista que enche o Barbican em Londres e aparece em playlists de meditação no Spotify. Chilling Bambino é seu alter ego, com o qual destrói completamente essa imagem.

Trabalhando ao vivo com um banco de sintetizadores Sequential Circuits Prophet, ela constrói estruturas ambient que derivam para trance dark, eletrônica de tom pesado, ritmos hipnóticos. É a narrativa mais interessante dos prelúdios, uma artista desconstruindo sua própria persona ao vivo, num único set.

Oneohtrix Point Never. Foto: Joe Perri/Divulgação

Dito isso, uma menção honrosa inevitável ao Prelude I: Oneohtrix Point Never apresenta o Tranquilizer ao vivo, seu álbum mais recente. Daniel Lopatin em modo mais direto e emocionalmente exposto do que de costume. Vale muito.

Para quem conhece a linhagem histórica da música experimental britânica, o Prelude III (Sinfonietta Cracovia tocando The Sinking of the Titanic e Jesus’ Blood Never Failed Me Yet de Gavin Bryars) é o preâmbulo intelectual perfeito para o que o Infinite Now propõe. Bryars é o fio que liga Brian Eno e a Obscure Records ao minimalismo contemporâneo. Assistir a esse show antes do programa principal é como ler o prefácio de um livro muito bom. Então, a real é: se puder, vá nos três.

O que mais merece atenção

Brìghde Chaimbeul toca gaita de fole escocesa amplificada à meia-noite. O que parece improvável dentro do Kraftwerk é, na prática, exatamente o tipo de confluência que torna o festival diferente de qualquer outro: uma tradição instrumental específica sendo puxada em direção ao drone e à experimentação eletracústica.

Eiko Ishibashi e Jim O’Rourke apresentam Kotoński Reworked no domingo às 11h — uma reelaboração das composições do pioneiro da música eletrônica polonesa Włodzimierz Kotoński, instalada como obra de playback. O’Rourke e Ishibashi, que lançaram juntos o álbum Pareidolia pelo Drag City em 2025, aplicam seus processos particulares a um material histórico raro.

Marta Salogni apresenta uma nova obra às 15h de domingo, usando gravadores de reel-to-reel como instrumentos de performance: Revox e Ferrograph gerando polirritmos e camadas harmônicas pela manipulação física da fita. Salogni é uma das engenheiras de som mais respeitadas da cena atual. Ela já trabalhou com Björk, Gorillaz, Depeche Mode, Sampha, Sharon Van EttenKim Deal, só para citar alguns, e sua prática ao vivo com máquinas de fita é um capítulo à parte.

Joy Guidry toca fagote e eletrônica às 19h do domingo. O seu trabalho trata a improvisação como exercício espiritual e o espaço performático como lugar de cuidado radical — palavras que poderiam soar como papo de curso online, mas que nos discos Radical Acceptance e AMEN se provam como prática sonora genuína.

Uma ressalva honesta

30 horas é uma promessa e um desafio físico real. Camas integradas ao espaço do Kraftwerk não equivalem a uma boa noite de sono num quarto escuro. Se você é sensível à privação de sono ou precisa de controle do ambiente para descansar, a experiência pode ser mais árdua do que reveladora. A proposta é que o cansaço faça parte da escuta, mas isso exige entrega e um estado mental específico.

O ingresso de 30 horas com direito a reentrada sai menos do que uma noite de hotel em Berlim e inclui uma cama. Os ingressos para os Prelúdios são vendidos separadamente, com desconto de €10 para quem tiver o passe do programa principal.

Pode ser que você saia de lá cansada, desorientada, com a noção de tempo completamente desmontada. Mas é quase certo que você vai sair diferente de como entrou. E sair diferente de alguma experiência hoje em dia já me parece bastante coisa.

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