CTM Festival 2026. Foto: Camille Blake/DivulgaçãoEnquanto Berlim congelou, o CTM Festival 2026 ferveu
De Sote a CLEMENTAUM no Berghain: dez dias que provaram que a música experimental ainda inventa o futuro
Dez dias, temperatura negativa, gelo traiçoeiro nas calçadas de Berlim. Cada noite do CTM Festival exigiu dupla navegação: a física, para não escorregar entre a estação de metrô e a venue do show, e a sensorial, que foi deixar-se escorregar completamente para dentro do som.

O evento provou que, mesmo aos 27 anos, continua entendendo o zeitgeist como poucos. Enquanto Berlim congelava lá fora, o clima do festival era de ebulição. Foi uma edição marcada por opostos: o silêncio profundo, o drone que faz o corpo vibrar, instrumentos ancestrais e uma ocupação brasileira que deu uma aula de frescor. A programação juntou artistas do Irã, Brasil, Tunísia, Coreia, Japão e tantos outros cantos, numa mistura que só Berlim, com estrutura para bancar o risco e um público que topa o estranhamento, consegue fazer.
O tema dissonate <> resonate não foi decorativo. A dissonância apareceu no ruído político de diversos artistas, como o Sote e na fúria punk do Pain Magazine; a ressonância veio nos graves que massagearam nossos corpos numa instalação sonora da brasileira Stefanie Egedy, na forma como a pista do Säule/Berghain vibrou com o funk da CLEMENTAUM e o tecnomelody da Miss Tacacá. Os artistas não evitaram o atrito; ao contrário, eles mergulhavam nele até encontrar frequências escondidas.
Reúno aqui os artistas que me viraram do avesso e ajustaram a minha percepção de futuro. Porque, para mim, a música reflete muito a maneira como vemos e vivemos o mundo.

Sarah Davachi: O tempo em suspenso

Sarah Davachi film by Dicky Bahto @ Radialsystem – CTM Festival 2026. Foto: Udo Siegfriedt/Divulgação
Sarah Davachi transformou o radialsystem numa caixa de ressonância. Com o filme de Dicky Bahto sendo exibido aos fundos da sala, a canadense tratou o órgão como um portal, desdobrando acordes densos em que você começa a ouvir frequências escondidas que surgem devagar. Quem pôde — eu pude — deitou no chão para sentir os graves atravessarem o corpo. Cada nota vibrava no peito.
Com bom fone ou caixa potente, dá pra sentir a beleza do som da Davachi aqui.
Stefanie Egedy: Mergulho no escuro

Stefanie Egedy. Foto: Markus Sascha/Divulgação
Antes do caos, veio a escuridão total. A instalação sonora da brasileira Stefanie Egedy aconteceu numa sala escura, preenchida com puffs e almofadas. Meia hora de live set em que a única coisa que existia eram os graves gordos massageando o corpo. Não dava pra ver a artista, não dava pra ver nada. Era só sentir. As três sessões tiveram ingressos esgotados com sua proposta simples e radical: desligar os olhos e ligar o corpo. Ali, no escuro, em grupo, viramos apenas receptores das frequências numa espécie de sessão de meditação.
Sara Persico & Tohal Kyna: O colapso sob controle

Sara Persico & Tohal Kyna – CTM Festival 2026. Foto: Eunice Maurice/Divulgação
O duo formado pela italiana Sara Persico e o sul-coreano Tohal Kyna fez uma performance que parecia ensaiar o fim do mundo em tempo real. Kyna construiu a base com drones massivos, distorções profundas e texturas industriais. A luz cortava o espaço em fragmentos, sem tela, sem narrativa. Era apenas uma tensão crua de sons se dissolvendo numa das luzes mais bonitas de todo o festival.
Já para o final, Persico soltou gritos teatrais que rasgaram o ar e cantou. As luzes piscavam nervosas, a fumaça subia, e tudo parecia à beira do colapso, mas era um colapso controlado, coreografado, intencional.
Foi prenúncio de fim do mundo, mas não apocalíptico no sentido catastrófico. Era o tipo de fim que acontece quando algo se esgota e precisa ser destruído para que algo novo possa emergir. Persico e Kyna deixaram uma pergunta incômoda: o que sobra quando tudo desmorona?
Sote: Ruído e resiliência

Visionäre – CTM Festival 2026. Foto: Camille Blake/Divulgação
O momento mais avassalador foi o show do Sote (Ata Ebtekar). Radicado em Teerã, o produtor trabalha com música eletrônica experimental há décadas, e no CTM Festival 2026 apresentou o projeto Sound Design in Far Sea. A performance é uma investigação ao vivo que parte de ecos transformados de instrumentos persas e gravações de campo feitas no Irã, dissolvendo tudo em camadas de síntese e detalhes sonoros microscópicos.
Saber que ele compõe muitas vezes sob o som de protestos e conflitos dá ao ruído uma camada política impossível de ignorar. No palco, usando o sistema imersivo da d&b Soundscape — o que elevou consideravelmente a experiência —, criou uma paisagem sonora na qual a memória parecia líquida, submergindo o público em um estado de desorientação e deslumbramento.
É um som denso, e foi meu grande momento catártico de todo o evento. Sentei no chão gelado, fechei os olhos e me deixei levar pelas luzes intensas que banhavam o galpão e pelo som esmagador. Chorei por longos minutos. Foi o ponto em que o barulho transformou o desconforto em uma espécie de libertação.
Daniel Brandt: A arte da paciência
Daniel Brandt fechou um arco de introspecção cinemática. Longe das pistas convencionais, o trabalho dele é uma reflexão pessoal feita com percussão — a banda se apresenta com dois bateristas, um deles o próprio Brandt — e texturas eletrônicas sutis. Tem uma paciência ali que a lógica atual de “chamar atenção nos primeiros 15 segundos” desconhece. Daniel constrói devagar, confia que o público vai acompanhar o desenvolvimento. É música que respeita a inteligência de quem ouve. Além de produtor musical, ele é também cineasta.
O show intitulado »Without Us« é uma experiência multimídia com a exibição de um filme sobre as mudanças climáticas. O impacto visual somado às texturas eletrônicas me remeteu ao Massive Attack com o mesmo tom ativista, mesma forma de construir tensão até sufocar.
É o tipo de show que pede silêncio na saída. Mas Daniel Brandt tinha outros planos: ocupou os decks e promoveu uma rave de house ali mesmo, no teatro. Foi uma virada radical — da contemplação sufocante pro suor da pista. Como se dissesse: agora que você sentiu o peso, pode dançar.
A noite no Berghain: punk, techno e tecnomelody

CTM 2026 – fachada do Berghain. Foto: Lalai Persson/Music Non Stop
Foi numa noite de quinta-feira, no Berghain, que o festival atingiu seu ponto alto de tensão e celebração. Foi impossível não lembrar que, em 2013, o CTM trouxe o filósofo Mark Fisher (Realismo Capitalista) para uma discussão sobre o “fim da rave” e a ideia de que a música tinha parado de inventar o futuro, ficando presa em nostalgias.
13 anos depois, o futuro parece ter mudado de eixo para não ser cancelado. Na pista principal, a ABOPF e o Pain Magazine mostraram que a eletrônica ainda tem muito sangue correndo nas veias.
A coreana ABOPF tem uma disposição incrível para atravessar estilos sem fidelidade a nenhum. Seu live oscilou entre graves pesados e ritmos quebrados, com ambient e techno. Era como se ela estivesse nos enfeitiçando, fazendo o público se mexer devagar, indo em direção às caixas de som.
Se a ABOPF flutua, o Pain Magazine queima. O encontro da banda de pós-hardcore Birds in Row com a DJ Louisahhh resulta no que eles chamam de “techno para punks”. Guitarras ásperas e vocais escancarados. Foi impossível não bater cabelo. Todo mundo ficou hipnotizado pela fúria da Louisahhh e pelo confronto direto que a música deles propõe. E também não é sempre que temos a chance de ver uma banda inteira tocando esse tipo de som na pista do Berghain.
Na pista Säule, a invasão brasileira enterrou de vez a tese do fim da rave. O espaço virou uma zona tropical em pleno inverno berlinense. O set intenso quebratudo da CLEMENTAUM misturou baile funk, tribal house e o espírito ballroom incendiando a pista. Enquanto isso, a síncope futurista do tecnomelody da Miss Tacacá provou que o “experimental” não precisa ser acadêmico. Significa recusar as hierarquias. O futuro estava ali, suado e vibrante, batendo forte no concreto.
O fim do mundo com Sam Slater e Hildur Guðnadóttir

Sam Slater e Hildur Guðnadóttir – CTM Festival 2026. Foto: Camille Blake/Divulgação
Para encerrar os dez dias, o CTM Festival 2026 entregou uma última noite com ares de profecia. O show de Sam Slater (trilhas Chernobyl, Joker), com uma participação especial de Hildur Guðnadóttir, foi uma experiência de encerramento absoluta. Com ares de prenúncio do fim do mundo, o noise de Slater encontrou a delicadeza sonora do violoncelo da Hildur. Entre o design de som meticuloso, luz minimalista e muita fumaça, foi o fechamento perfeito: nos deixou num espaço frágil, entre o deslumbre e o assombro.
Ainda há futuro

Sarah Davachi film by Dicky Bahto @ Radialsystem – CTM Festival 2026. Foto: Udo Siegfriedt/Divulgação
O experimental não está no resultado final, e sim no processo. No ser humano decidindo quando colapsar um acorde ou abraçar uma aspereza política mesmo sabendo que pode afastar os ouvintes. A IA pode ser uma ferramenta, mas delegar tudo elimina justamente o risco, e é o risco o que define o que é criar.
Décadas de CTM provam isso: experimentar exige estar disposto a falhar, e falhar exige ter algo em jogo. Saí do festival convencida de que enquanto houver gente disposta a escorregar para dentro do som, a música segue inventando o futuro.



