De Beatles a Metallica: como as novas séries e filmes estão alavancando os artistas de ontem para as novas gerações

Por Claudio Dirani

Cada vez mais a influência das séries e filmes tem causado um efeito avassalador no modo de ouvir – e descobrir – a música pop

Metallica, Beatles, Nirvana, Elvis, Queen, Kate Bush, Elton John, Creedence Clearwater Revival… A lista de titãs que volta a saborear um grau de popularidade inimaginável entre os mais jovens (e após tanto tempo de estrada) não para de crescer.

Tudo por conta do apelo comercial gerado por atrações como Stranger Things, que numa cartada só, em sua 4ª temporada, fez disparar a febre por músicas de gêneros completamente distintos: “Running Up That Hill” (Kate Bush) e “Master of Puppets” (Metallica).

Ainda que o surfe por essa nova onda de revivals seja hoje um dos maiores hypes nas redes sociais, o ponto central do retorno de artistas não é um segredo que se guarda a sete chaves.

Com a decadência na venda global de álbuns físicos (principalmente de CDs), ausência de protagonistas do mesmo gabarito e queda na audiência em programas de TV e emissoras de rádio, as trilhas sonoras de filmes e séries que geram bilhões de visualizações deixaram canais como a MTV na saudade.

Por sua vez, o impacto gerado pelo resgate dos clássicos pop tem sido ainda mais evidente quando chegam aos ouvidos da garotada. A reação, ao ouvir hits de qualidade, parece semelhante de colocar às mãos em um baú lotado de moedas de ouro.

Um exemplo desse fenômeno típico do século XXI aconteceu em março deste ano, quando Kurt Cobain, Chris Novoselic e Dave Grohl (a mais bem-sucedida formação do Nirvana) ressurgiu em grande estilo, quando uma de suas antigas músicas roubou o show em The Batman, estrelado por Robert Pattinson.

Mesmo tendo ressurgido no trailer do longa da D.C meses antes de sua estreia mundial, “Something In The Way” – a mais acústica das faixas de Nevermind – provocou uma corrida frenética pela discografia do trio de Seattle, assim que apareceu em algumas cenas da aventura da D.C. Comics.

Nesse caso específico, a estrela da companhia foi “Something In The Way”, a balada mais acústica do pesado Nevermind (1991), disco que trouxe ao mundo obras-primas como “Smells Like Teen Spirit” e “Come As You Are” em 1991.

A atração pelo tema, que fala sobre a vida de sem-teto na Grande Seattle, impulsionou Nevermind para a 33ª colocação entre os álbuns mais ouvidos do Spotify – o app de streaming musical mais usado atualmente para medir a temperatura das paradas.

Pode parecer pouco para os fãs mais antigos do trio grunge, mas o boost causado pela aparição na trilha de The Batman levou a música do Nirvana para o convívio com as maiores forças do streaming atual, como Olivia Rodrigo, Taylor Swift, Justin Bieber, Post Malone, Doja Cat e The Weeknd.

Outro inesperado triunfo para o Nirvana, motivado por seu retorno ao universo competitivo da música, foi o desempenho de Nevermind na tradicional Billboard. No melhor estilo dos anos 1990, o disco que traz na capa o bebê Spencer Elden mergulhado em uma piscina fez disparar o interesse de novos fãs, levando o álbum diretamente ao topo da categoria Top Rock Albums nos EUA.

Beatles ou Rolling Stones? Disney + ou Netflix: quem é mais popular?

Para muitos fãs, o simples ato de mencionar nome dos Beatles é algo sagrado. Justamente por isso, para falar das inúmeras reviravoltas sobre o quarteto de Liverpool é preciso voltar quase trinta anos no tempo e revelar todo o contexto.

No final de 1995, quando a internet ainda era discada, a Apple Corps (empresa administradora dos negócios do grupo) promoveu a campanha multimídia Anthology, com direito a documentário com entrevistas inéditas de Paul, George e Ringo, lançamento de três álbuns duplos com gravações nunca ouvidas e um livro com fotos raras.

Além de tudo isso, ainda teve a cereja do bolo: os singles “Free As a Bird” e “Real Love”, responsáveis por reunir no estúdio os remanescentes dos Beatles depois de 25 anos, sob a supervisão do produtor Jeff Lynne. Foi o líder do Electric Light Orchestra, aliás, o grande responsável por repaginar os vocais de Lennon, registrados em uma fita cassete, e uni-los ao material produzido por seus parceiros de banda.

O projeto Anthology, na verdade, foi uma espécie de Netflix para os adolescentes do final da década de 90, que vieram a se apaixonar pelos Beatles de forma tardia.

Segundo a Soundscan, companhia que até hoje se destaca na contabilidade dos números da combalida indústria fonográfica, o álbum Anthology I vendeu mais de 856 mil unidades apenas em sua primeira semana nas prateleiras das veneradas e saudosas lojas de discos dos Estados Unidos.

De cara, o desempenho comercial do álbum duplo se aproximou do Pearl Jam, que contava com seus dois primeiros LPs (Ten e Vs) na lista dos mais vendidos na primeira semana. Quem ficaria para trás, mesmo, seria o Rei do Pop.

Com a chegada de Anthology I, os Beatles levavam a melhor sobre Michael Jackson no quesito vendas de discos duplos. No caso, superando de forma indiscutível HIStory, que havia atraído vendas de 391 mil unidades.

Com seu poder incalculável de formar novas gerações de admiradores, os Beatles não se contentariam, claro, com o furacão de popularidade gerado pelo projeto Anthology.

Mais de duas décadas depois do boom, os Fab Four tomaram conta do streaming, com a estreia do documentário musical Get Back, dirigido por Peter Jackson, famoso pelo universo não menos aplaudido de O Senhor dos Anéis.

Os planos originais dos Beatles, entretanto, apontavam para uma direção diferente. A ideia dos remanescentes e herdeiros do quarteto era promover uma estreia de gala de The Beatles: Get Back nas salas de cinema em 2020, para marcar os 40 anos do filme Let It Be.

No meio do caminho, infelizmente, apareceu uma pandemia de Covid-19 – e nem mesmo os rapazes de Liverpool escaparam.

Com um atraso de mais um ano, The Beatles: Get Back só chegaria aos curiosos e ansiosos olhos de fãs e críticos em novembro de 2021. Dizem que alguns males só acontecem na vida para o bem. E se isso for mesmo verdade, podemos colocar The Beatles: Get Back nessa categoria de eventos guiados pelo destino.

De acordo como a Soundscan, os três episódios do documentário produziram uma audiência de 533 milhões de minutos entre 25 e 27 de novembro de 2021.

Com quase oito horas de duração, The Beatles: Get Back, por pouco, não chegou ao Top 10 entre os filmes mais vistos em canais de streaming. Sua chegada ao 10º lugar via Disney + só foi impedida por um longa de aventura, Alerta Vermelho, exibido pela concorrente Netflix.

Canais de streaming devem promover novos recordes

As “novas vidas” dos Beatles e Nirvana causadas pela divulgação de seu material no cinema e canais de streaming são frutos da recente tecnologia de streaming, que chegou para tomar conta das demais mídias no quesito popularidade.

Exaltados no início deste texto, Metallica e Kate Bush não só experimentam hoje o sabor revigorado do sucesso comercial graças a inclusão de suas músicas no streaming, como se transformaram em um veículo para renovação dos costumes. No caso de Kate Bush, foram 3 recordes mundiais quebrados. Entre eles, segundo o Guinness World Records, da faixa que mais tempo demorou para chegar ao topo das paradas do Reino Unido desde seu lançamento em 1985.

Já a performance de Eddie Munson (interpretado por Joseph Quinn) de “Masters Of Puppets” no Mundo Invertido de Stranger Things, por exemplo, foi editada em um clipe especial lançado pela Netflix no YouTube, com 3 minutos e 44 segundos de duração.

 

Em apenas dez dias, o recorte da cena que evoca o clássico do Metallica na quarta temporada da atração atraiu mais de 6.3 milhões de visualizações (números até 27/7/2022). Ao todo, Stranger Things se tornou a primeira produção da história do streaming a ultrapassar o 1 bilhão de visualizações.

O carisma de Eddie, aliás, é digno de nota. Com poucos minutos de tela e atuando somente em uma temporada, o líder do Hellfire Club se tornou um dos favoritos entre os fãs da série dos irmãos Duffer, gerando até abaixo-assinados para que (alerta de spoiler) ele ressurja do mundo dos mortos na quinta e última temporada.

E por falar no “amaldiçoado” Hellfire Club, a camiseta com a estampa do clube de RPG da galera de Hawkins não precisou de muito tempo para ser considerada um artefato pop.  Vendida em lojas oficiais por cerca de US$ 20 (pouco mais de R$ 100), a estampa chegou a ser comercializada no mercado negro por US $ 300. Claro que as versões piratas do item ainda são facilmente encontradas. Basta escavar a web.

Com esse espetacular balanço proporcionado pelos canais de streaming aos artistas da velha guarda, vemos ainda o Metallica comemorar um interesse renovado por sua discografia, graças à reentrada do single “Master of Puppets” nas paradas após 36 anos.

A redescoberta da música ficou evidente em seu desempenho no Spotify, onde obteve mais de 17 milhões de audições nas primeiras semanas de julho.

Da música para o Tik Tok, um vídeo gravado pelo próprio Metallica vestindo a camiseta do Hellfire Club ganhou mais de 42 milhões de visualizações. Surpreendente, até para uma banda com mais de 40 anos de metal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.

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