Foto: ReproduçãoBad Bunny representa mais os EUA do que Trump, diz pesquisa
Astro porto-riquenho se apresenta no Brasil nesta sexta-feira e neste sábado, no Allianz Parque, em São Paulo
Algumas vezes, nós brasileiros temos a oportunidade de receber em nossas arenas (ou praias) um artista que está no auge supremo de sua carreira, tanto criativa quanto midiática. São poucas, e uma delas está chegando. Bad Bunny se apresenta hoje (20) e amanhã (21) no Allianz Parque, em São Paulo. O porto-riquenho acabou de deixar uma marca no show mais visto pela TV nos Estados Unidos, durante o intervalo das finais de futebol americano, o Super Bowl. Semanas antes, passou a rapa no Grammy. Em ambos, fincou a bandeira da defesa e do orgulho americano (antes, para os estadunidenses, latino-americano), com direito à metralhadora verborrágica contra o ICE, no prêmio de música.

Agora, uma nova pesquisa feita pela empresa YouGov e bancada pelo Yahoo tratou de bater o último prego no caixão branco. A maior parte dos entrevistados — todos cidadãos dos Estados Unidos — afirma que o astro representa mais os EUA do que o presidente Donald Trump. 42% a favor do porto-riquenho e 39% para o presidente. O restante respondeu que não sabia. Entre os negros, Bunny levou 62%, e no caso dos hispânicos estadunidenses, 46%.
Mais do que efetivamente acreditar que um cantor de música pop caribenha representa o país em que nasceram, a pesquisa mostra o que os americanos querem que o mundo veja. A imagem de um país aberto, alegre e diverso, ao contrário das cenas de brutamontes perseguindo homens, mulheres e crianças com aval da presidência, um político que desdenha de qualquer outro lugar no mundo que não seja os Estados Unidos da América, embora também seja de ascendência estrangeira.
Como já lhe contamos, Bad Bunny apareceu para o mundo na hora certa e no lugar certo. Surgiu, com muito talento, surfando na ascenção da música feita em língua e ritmos hispânicos pelos seus antecessores e deu de cara com um planeta tomado por um sentimento geral de rejeição (para muitos, repulsa) ao fortalecimento da extrema direita, cuja representação máxima é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Acostumado com o soft power, o país vem sendo servido por Bunny de uma boa dose de soft poison. A música edifica, instrui e em muitos casos, conquista. Foi assim com o rock’n’roll após o fim da Segunda Guerra Mundial, levando a cultura do “sonho americano” para quase todos os recantos do mundo.
A tática virou contra-ataque. E a bebida virou veneno para quem ainda imaginava possível uma nação “pura”, formada unicamente por imigrantes que chegaram primeiro, brancos e saxões. Não rolou. O próprio capitalismo selvagem sugou para dentro povos de diversas outras origens em busca de oportunidade, palavra que, no idioma do capital, se traduz por “direito de trabalhar em funções que os nativos não querem mais exercer”.
As notícias pós-Super Bowl atestam que os supremacistas tomaram seu 7×1. O astro pop de direita Kid Rock organizou um show paralelo, só com artistas alinhados a Trump. Enquanto seis milhões de pessoas assistiram ao seu protesto, mais de 128 milhões deixaram a TV ligada no Bad Bunny, cantando em espanhol pela primeira vez na história do show do intervalo do espetáculo esportivo.

Bad Bunny dando tapas de popularidade no atual governo pode ser um bom termômetro das eleições futuras. O cara do DeBÍ TiRAR MáS FOToS é marrento. Não se furtou nem mesmo de homenagear os perseguidos da ditadura de Pinochet, em seu recente show no Chile. A América unida em torno de Bad Bunny não quer saber de regressos, não.



