Bad Bunny no Grammy contra o ICE Foto: Chris Pizzello/Invision

Como protestos contra o ICE deram o tom no Grammy 2026

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Nomes como Bad Bunny, Billie Eilish, Kehlani e Olivia Dean fizeram discursos contundentes a favor dos imigrantes nos Estados Unidos

Se a cerimônia anual do Grammy fosse temática como os bailes de Carnaval de antigamente, a edição do último domingo (1º de fevereiro) — transmitida poucos dias após a tentativa de uma greve geral no país, sob o lema “sem trabalho, sem escola, sem compras” e massivos protestos de rua, no movimento ICE Out — chamar-se-ia “Que tremenda gelada! É noite de derreter o ICE“, ou algo assim.

A revolta em pleno curso se deu após os agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (em inglês: United States Immigration and Customs Enforcement, ou simplesmente ICE) — na verdade, uma milicia de civis recrutados às pressas pelo governo Trump para servir como soldados anti-imigrantes — assassinou a tiros dois cidadãos estadunidenses, Renee Nicole Good e Alex Pretti, ambos com 37 anos, em Mineápolis, uma cidade invadida por mais de dois mil agentes em janeiro, a mando do governo federal, para combater a imigração ilegal com ares de filme distópico. Até crianças foram presas. É como se o presidente de um país declarasse guerra contra uma de suas próprias cidades.

O exército de sacolés (assim seriam chamados se a ICE fosse carioca) já era odiado por boa parte dos estadunidenses, graças à epidemia de síndrome do pequeno poder que acometeu civis destreinados, armados e protegidos por um uniforme oficial.

A música latina “invadiu” os Estados Unidos há muito tempo em um país que, por força histórica, foi colonizado por imigrantes, assim como o nosso Brasil. Diversos músicos, incluindo os não latinos, aproveitaram o palco do Grammy para deixarem claro que faziam parte do movimento ICE Out. Na boa, foi pouco. Vários preferiram ficar no discurso “obrigado mamãe, papai e Deus!”.

“Todos os que estão aqui nesta sala — e todos os que estarão aqui depois — são muito poderosos. Juntos, somos mais fortes para protestar contra injustiças que estão acontecendo no mundo agora. Em vez de apenas sermos uma turminha de pessoas aqui e ali, eu espero que todos tenhamos a inspiração de nos unirmos à comunidade de artistas e falar sobre o que está acontecendo. Foda-se o ICE!”. Foi assim o tapa sem luva de pelica que Kehlani, vencedora de dois prêmios no domingo, deu nos colegas isentões da cerimônia.

Vários artistas indicados apareceram no prêmio com o botton “ICE Out”. Entre os que botaram a boca no trombone, Bad Bunny foi um dos que mais repercutiram. O porto-riquenho anda passando o rodo na indústria da música mundial e é muito forte nos Estados Unidos. O dono do prêmio de “Álbum do Ano” foi direto e incisivo em seu discurso, quando subiu ao palco para agradecer pela condecoração de “Melhor Álbum de Música Urbana”. Depois de começar com “Fora, ICE!”, afirmou: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alieníginas e somos americanos”.

A californiana Billie Eilish (vencedora do Grammy de “Canção do Ano”) pegou ainda mais pesado, lembrando a todos que aquela região, há pouco mais de 500 anos, era propriedade indígena: “Ninguém é ilegal em terras roubadas”.

Olivia Dean, a “Artista Revelação”, destacou que é “fruto da coragem, neta de imigrantes”. Inglesa, a cantora não se importou com o fato de estar fora de seu país natal para descer sua dose de lenha no ICE. Até porque, resquícios do vírus do fascismo também infectam células por toda a Europa.

Shaboozey, artista pop que levou o prêmio de “Melhor Performance Country” ao lado de Jerry Roll, aproveitou o púlpito para dizer que “imigrantes construiram este país, literalmente. Este prêmio é para eles, para todos os filhos de imigrantes. E também é para todos os que vieram para cá em busca de melhores oportunidades, de fazer parte de uma nação que promete liberdade e oportunidades iguais para todo mundo que quer trabalhar. Obrigado por nos trazerem sua música, suas histórias e suas tradições. Vocês dão cor à América”.

A cerimônia do Grammy, com sua audiência massiva e a reunião em um só local de nomes gigantescos da música pop, não poderia ter acontecido em data melhor. E embora muitos artistas tenham preferido “não se meter com política”, a soma das vozes ontem causou um tremendo impacto na imagem dessa estranha e inédita milícia armada, celeiro e oportunidade de renda para os cidadãos mais sádicos dos Estados Unidos.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.