Angine de Poitrine Foto: Constantin Monfilliette/Reprodução

O conceito que ajuda a explicar o hype por trás do Angine de Poitrine

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Veja outras cinco bandas que, como os canadenses intergalácticos, souberam perfeitamente aderir ao world building

Você já os viu passando pela timeline da sua rede social predileta. Dois caras vestidos com roupas feitas de toalha de mesa e cortinas de bistrô, com máscaras ao estilo do BaianaSystem (já voltaremos nesse assunto), tocando uma música para lá de esquisita. Um dos integrantes usa um instrumento com dois braços (um é guitarra e o outro baixo), e o baterista tocando um quebradeira fora do comum. Nada novo, mas muito divertido. Estamos falando, claro, do Angine de Poitrine.

O duo vem do Canadá, mas, segundo os próprios contam, vem de outras galáxias. E esse é um dos lances que os têm feito chamar tanta atenção. Criar para si uma história própria, um personagem tão forte que nos faz querer acreditar muito mais na ficção do que na realidade. A estranheza da música, do figurino e da biografia se fundem para criar um espetáculo tão teatral quanto musical.

Embora muito bem-vindos (afinal, ousadia é imprescindível nesse cenário, para bagunçar um pouco as coisas), o Angine de Poitrine não inventou a roda. Pelo contrário, é a ponta de um iceberg cultural que há muito tempo subverte o mercado da música, tão acostumado à idolatria, em um espetáculo amorfo, fantástico e crítico à cultura do ego. Não mostrando a cara, os “gênios” por trás do som não existem, renegando os confetes até o ponto possível.

O produdor e influencer Felipe Vassão explicou, em um dos seus divertidos vídeos postados no Instagram, que a estratégia tem nome: world building”. Criar todo um universo em volta da música que você faz. Não se trata apenas em esconder o rosto, mas se jogar dentro de uma ficção (muitas vezes, científica) e trabalhar toda a sua arte em volta desse conceito previamente desenhado. É como se, na programação do próximo C6 Fest, vocês se deparassem com a estreia de uma banda chamada Frodo & The Hobbits, falando sobre as histórias, as paixões e as tretas de O Senhor dos Anéis.

Tá. Mas se o Angine de Poitrine não inventou a fórmula de misturar esquistice visual, musical e boa dose de storytelling, quem veio antes deles? Bastante gente. Nos últimos anos, artistas como o Ghost criaram um universo em torno de uma igreja satânica. Os espanhóis Los Tiki Phantoms vivem há 250 anos, tendo começado sua carreira no Havaí. E o soturno Terra Tenebrosa compõe músicas ditadas por um fantasma que aparece na vida do vocalista desde sua infância.

Em respeito à história da música e louco por conexões, o seu Music Non Stop preparou uma lista de artistas com um universo próprio para ouvir e curtir antes, durante e depois das músicas do duo canadense. Deleite-se com outras cinco bandas que, assim como o Angine de Poitrine, são bons exemplos desse tal de world building!

The Residents

Desde sua fundação na década de 1970, The Residents se apresentam com grandes globos oculares na cabeça e fraques, escondendo suas identidades verdadeiras. Eles criaram a mitologia de que são enviados de uma “Cultura de Oftalmologia Misteriosa”. A história que eles contam não é a de um personagem em particular, mas a da banda como uma entidade enigmática vinda de algum lugar desconhecido. A indústria musical e a própria ideia de fama são os cenários onde essa performance acontece.

DEVO

Vinda do planeta Spudland, a banda DEVO apareceu ao mundo com um manifesto sobre a de-evolução. Os personagens, fantasiados com os clássicos chapéus/capacetes, faziam críticas ácidas ao modo de vida estadunidense sob a ótica de um grupo alienígena. A maluquice não para por aí. Do mesmo planeta, veio a banda Dove, que abria os shows do DEVO, formada pelos… mesmos integrantes! Um de seus discos mais clássicos se chama We are not men. We are DEVO (“nós não somos homens. Nós somos DEVO”).

Kraftwerk

O quarteto de Düsseldorf bancava tão bem os personagens robôs, com performances minimalistas e quadradas no palco, que era mais gostoso acreditar nisso do que na ideia de que eram simplesmente alemães. A matemática sonora do Kraftwerk também se refletia na música, na arte, e até em bonecos colocados no palco no lugar de integrantes, durante as interpretações da música Man Machine.

Daft Punk

Apesar de terem criado a mitologia em torno de seus personagens robôs após o início de carreira, essa foi a “cara” do sucesso do duo francês. Em 1999, o Daft Punk inventou um “acidente” que havia transformado os dois integrantes originais, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, em personagens trabalhados de forma cuidadosa no palco, em videoclipes e até no cinema. Para anunciar o final do projeto em 2021, divulgaram um vídeo onde os dois se autodestruíam.

Gorillaz

Aqui, temos o caso mais notório e bem-sucedido de uma banda virtual. Porque para além de toda a genialidade musical de Damon Albarn, que já era bem conhecido por liderar o Blur, o Gorillaz é uma cocriação com o cartunista Jamie Hewlett, responsável por desenhar os personagens que você tão bem conhece. Com suas próprias histórias particulares e temperamentos, 2-D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs ganharam vida em 1998, bombaram em videoclipes e chegaram até a “subir” aos palcos como animações 3D. E estão até hoje no mais alto grau de prestígio dentro da cultura pop.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.