Jocy de Oliveira Foto: Fundação Osesp/Divulgação

Legado eletrônico de Jocy de Oliveira chega às telas do In-Edit

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Artista fala com o Music Non Stop na esteira do lançamento de Universo Circular, filme indispensável do In-Edit Brasil 2026

“Este reconhecimento de meu nome constar na lista de pioneiros de música eletrônica muito me estimula e é sempre gratificante. Minha música sempre atraiu um público jovem. Eles acompanham as mudanças do mundo que vivemos, as utopias e distopias, e eu gosto de acompanhar este fluxo da juventude.” A fala de Jocy de Oliveira ao Music Non Stop se deu às vésperas do lançamento de documentário sobre sua vida, Universo Circular.

Dirigido por Dácio Pinheiro, é um dos filmes indispensáveis do festival In-Edit Brasil 2026, que ocupa a cidade de São Paulo entre os dias 17 e 28 de junho. O doc será exibido em três sessões diferentes: dia 20 às 15h, no Cinesesc; dia 25 às 19:30h, no Centro Cultural São Paulo; e dia 26 às 21h, no Cine Bijou.

A narrativa da linda película acompanha a velocidade e a linguagem de Jocy, uma artista com jeitinho de colibri, com um roteiro não tão linear.

“Dácio deixou fluir a imagem e o som de minha música sem se preocupar com uma linearidade, criando um filme de arte muito original. Ele usou um processo semelhante ao meu de criação de minhas obras, onde o fator da intuição tem forte influência”, continua ela.

In-Edit Brasil 2026
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Jocy de Oliveira experimenta nesta década a extrapolação de seu reconhecimento para além do campo da música erudita, onde sempre reinou. Representa o time de pioneiras mundiais na experimentação com música eletrônica, no Brasil, ao lado de colegas como Vânia Dantas Leite (falecida), Denise Garcia e Marlene Migliari Fernandez.

Universo Circular é mais uma figura nesse quadro, apresentando ao grande público o tamanho da inventividade dessa pianista, compositora, escritora e diretora cênica. A obra repassa todas essas facetas, mas estão lá, com devido cuidado e importância, os passos que Oliveira deu desde 1963, quando começou a criar novos universos a partir de sintetizadores.

“Consumir música é sempre uma imposição de nossos dias coalhados de impulsos auditivos, onde o som do silêncio se torna cada vez mais raro. A emoção ao ouvir uma música nada tem a ver com cronologia, mas ela pode mudar de acordo com nossa bagagem musical — isto é, conhecimento, experiência, e mais do que tudo, percepção. Tenho interesse em saber e ouvir o que os jovens estão criando para o amanhã, quando eu já não mais ouvir”, conclui.

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Em sua casa/estúdio na Baía de Guaratiba, no Rio de Janeiro, já recebeu amigos de responsa, como John Cale e Karlheinz Stockhausen, em cenas que nos ajudam a entender o seu tamanho no mundo da música.

Sobre “conhecer o novo”, saiba que o documentário também funciona como um guia prático para sua obra, ao dedicar importantes minutos a suas criações mais celebradas, como Apague meu Spotlight (1961), considerada a primeira apresentação de música eletroacústica no cenário teatral brasileiro; ou Teatro Probabilístico, uma instalação/peça conceitual interativa baseada em análise combinatória, na qual o público andava descalço sobre um mapa e ativava sensores com composições sonoras. 

Vivaz, Jocy de Oliveira parece não se assombrar com a transferência de sua persona para o universo pop. Chegou até a gravar um disco de “antibossa-nova” nos anos 60, ao violão. Mas é na experimentação distópica e metafísica que está seu grande legado. Uma mulher que todo brasileiro precisa conhecer.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.