Lilith Fair A cantora e compositora Paula Cole no Lilith Fair em 1997. Foto: Merri Cyr/Reprodução

Lilith Fair: o que foi o festival feminista que inspirou Olivia Rodrigo

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Cantora e compositora anunciou nesta semana o Daisy Chain Fields, totalmente dedicado a artistas mulheres

Olivia Rodrigo virou unanimidade na semana ao anunciar a primeira edição de um festival criado por ela, chamado Daisy Chain Fields, totalmente dedicado a artistas mulheres. O rolê acontece dia 29 de agosto em Irvine, na Califórnia, Estados Unidos, e impressiona pela batelada de boas ideias contidas no projeto.

As artistas tocarão de graça e o lucro vai todo para instituições que lutam pelos direitos da mulher. Espalhadas pelo parque, as “ativações de marca” serão feitas por ONGs. O line-up estrelado mistura jovens artistas, grandes divas da música estadunidense e mescla estilos musicais “fofinhos” com os mais combativos e barulhentos. Segundo a própria Rodrigo, será o encontro das “flower childs” com as “riot grrrls”.

A declaração não veio à toa. Ela mostra que, apesar de o Daisy Chain ser absolutamente inspirado em um grande evento do final dos anos 90, chamado Lilith Fair, conhece a história e sabe qual foi uma das maiores críticas feitas ao festival matriarca: privilegiar o lado “cor de rosa” do feminismo e deixar de lado o movimento cultural que estava batalhando pesado pela presença feminina na música, as riot grrrls, cuja representante máxima é a Bikini Kill, escalada para o evento de agosto.

A mamãe Lilith Fair

Realizado em forma de turnê itinerante pela América do Norte entre 1997 e 1999 (e com um breve retorno em 2010), o Lilith Fair foi criado pela cantora canadense Sarah McLachlan por um motivo bastante específico: ela estava de saco cheio de papo machista no meio em que ela trabalhava.

Lilith Fair

A cantora e compositora Paula Cole no Lilith Fair em 1997. Foto: Merri Cyr/Reprodução

Para se ter uma ideia de como as coisas aconteciam na década de 90, DJs de rádio do Hemisfério Norte se recusavam a tocar duas bandas com vocalistas femininas em seguida, pois achavam que isso iria derrubar a audiência.

Além disso, curadores de festival tinham por regra não colocar mais do que uma artista mulher no line-up, pois o público não pagaria ingressos para ver “mais de uma mulher” por dia em um evento. McLachlan queria provar somente uma coisa: que os homens da indústria de entrenimento estavam errados. E conseguiu.

Já na primeira edição, seu evento só com artistas mulheres foi um sucesso estrondoso. O Lilith Fair emplacou mais de 130 shows em três anos, levando quase três milhões de pessoas e gerando 30 milhões de dólares em ingressos, com parte do valor revertida à causa feminina.

Mais do que a ajuda financeira, no entanto, o movimento mudou a forma do mercado norte-americano enxergar o protagonismo feminino na música. Passaram pelos seus palcos nomes como Sheryl Crow, Jewel, Fiona Apple, Indigo Girls, Paula Cole, Shawn Colvin, Joan Osborne, Natalie Merchant, Emmylou Harris, Bonnie Raitt, Chrissie Hynde, Missy Elliott, Erykah Badu, The Cardigans e The Dixie Chicks.

Hoje considerado histórico na indústria da música, o Lilith Fair foi um sucesso absoluto, mas uma crítica surgida justamente dentro do universo feminino gerou incômodo: ignorou os movimentos punk, grunge e das riot grrrls, que explodiam na década de 90 com bandas como Hole, L7, Garbage e Bikini Kill. As duas últimas, grandes atrações do novo evento de Olivia Rodrigo.

Do It Together

Na edição de 2026 do WME, realizada no último final de semana, a palestrante Flavia Biggs (da banda riot The Biggs e da ONG Girls Rock Camp), usou uma expressão que tem muito a ver com a ideologia de Olivia — “Do It Together”, uma atualização do famoso termo “Do It Yourself” (“faça você mesmo”), diretriz máxima do movimento punk. Ao dividir com todas as artistas a responsabilidade de tocar pela causa, sem cachê, a cantora deixa claro que está construindo uma ação em conjunto.

Carta do Daisy Chain Fields. Imagem: Reprodução

Marcado para um só dia, com dois palcos espalhados pelo Great Park, o Daisy Chan Fields conta com Olivia Rodrigo, Chappell Roan, Mitski, Doechii, KATSEYE, Santigold, Rachel Chinouriri, Bikini Kill, Garbage, The Breeders, Stevie Nicks, Sarah McLachlan e Karen O. No cartaz, nada de grandonas, médias e pequenas: todos os nomes aparecem com o mesmo tamanho, em ordem alfabética. Together!

Entre as ONGs participantes, há representantes do movimento negro feminino estadunidense, dos direitos das mulheres a decisões sobre o próprio corpo, maternidade, acolhimento a mulheres vulneráveis e muito mais. Rodrigo quer juntar as garotas para a conscientização. Uma continuação do trabalho que o Lilith Fair fez há quase 30 anos.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.