Jorge Ben. Foto: Deju Matos/ReproduçãoDe Pelé a Jorge Ben: como futebol e música jogam no mesmo time no Brasil
Edição: Flávio Lerner
Jota Wagner conversa com o especialista Eduardo Lamas sobre a intrínseca relação da bola com o violão
Os pagodes que animam o ônibus da Seleção Brasileira de Futebol durante o trajeto que vai do hotel ao estádio para os jogos têm explicação histórica. Nenhum país do mundo cultiva uma relação tão estreita com a música quanto o Brasil. Uma relação que é anterior até mesmo à própria Seleção.

Football, uma polca escrita por Francisco de Oliveira Lima, foi lançada antes do primeiro jogo oficial de um selecionado representando o país, em 1914. Uma parceria que não parou mais, rendendo dobradinhas entre jogadores e músicos, canções em homenagens a craques e situações inusitadas dentro do campo, e até mesmo álbuns inteiros.
Quem nos conta essas histórias é Eduardo Lamas Neiva, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Neto de um jogador do Bonsucesso, do Rio de Janeiro, e um clarinetista de choro, o jornalista aproveitou o DNA para se especializar no assunto com pesquisas para o Museu da Pelada, programas de rádio (com o quadro Jogada de Música, da Rádio Globo) e vários outros projetos. Seu mais recente é a “aula-show” Toque de Bola – Jogada de Música, ao lado do sambista Fredy Fevereiro (que também foi jogador de futebol na Europa). Eduardo compila seus textos em um blog sobre o assunto.
Aproveitando o clima de Copa do Mundo, conversamos sobre a intrínseca relação da bola com o violão na história do esporte mais amado pelos brasileiros. Histórias como a de Pixinguinha, que em 1919 compôs Um a Zero, um choro instrumental em homenagem ao primeiro título internacional da Seleção, o Campeonato Sul-Americano, e que ganhou letra do Nelson Ângelo, guitarrista do Clube da Esquina, em 1993, além de, em seu disco solo, ser cantada por Chico Buarque.

Jota Wagner: Qual foi a primeira vez em que jogadores de futebol e músicos se uniram para compor?
Eduardo Lamas Neiva: Talvez tenha sido Garrincha com Elza Soares. Eram casados e ele gravou um disco com ela. Depois, Pelé gravou uma música com Jair Rodrigues e um álbum com Elis Regina. Cidade Grande [sertanejo de Pelé e Jair] chegou a ser exibida no Fantástico. Zico também gravou com Fagner. Depois disso Júnior, após jogar na Seleção em 1982, gravou um álbum sozinho.
Você trabalhou com o cineasta Renato Terra, que fez o filme sobre o Festival da Record de 1967, também marcado pelo futebol…
Sim, com a música Beto Bom de Bola, do Sérgio Ricardo.
A música que não foi tocada…
Não foi, o público não deixou. Ele classificou a música e, na segunda apresentação, começaram as vaias [Sérgio acabou quebrando o violão e deixando o palco].

Foi pelo fato de a canção ser chapa branca em meio à Ditadura, indo mais para o lado da exaltação?
Acho que não. Um festival normalmente pede uma música para cima, né? E a dele tinha um tom baixo, só com voz e violão. Não tinha orquestração pelo que eu me lembro, e era sobre um jogador da Seleção que tinha ganho uma Copa do Mundo e depois caiu no ocaso. A letra é gigantesca e o povo ficou meio de saco cheio. E ele também não era tão famoso.
Misturar futebol com música é uma característica exclusiva do brasileiro?
Minha pesquisa é de músicas relacionadas ao futebol no Brasil. Outros países não chegam nem perto de nós. E há músicas em que apenas alguns versos falam do esporte. Reconvexo, gravado por Caetano e Bethânia, fala do Bobô, jogador de meio-campo do Bahia, Campeão Brasileiro em 1988. “A elegância sutil de Bobô.” Deu Pra Ti, de Kleiton & Kledir, fala de uma saudade de Porto Alegre, do Beira-Rio [estádio do Internacional] e do Falcão [ídolo histórico do Internacional].

Demonstra que o futebol está no sangue do brasileiro…
Regra Três, por exemplo. A letra toda, de Toquinho e Vinicius de Moraes, não fala nada de futebol. Absolutamente nada. Mas cita uma regra da época no título, que trata da substituição de jogadores em uma partida, a “regra três”.
Craques temos aos montes, mas quais os que foram para a música e realmente se destacaram como cantores ou compositores?
Bem, primeiro tem aqueles que tentaram ser jogadores e acabaram se tornando um sucesso na música. É o caso do Diogo Nogueira, por exemplo. O Diogo jogou nas categorias de base do Vasco e Fluminense, entre outros clubes. O Jorge Ben foi volante na base do Flamengo.

Eduardo Lamas Neiva. Foto: Divulgação

Um de seus projetos é uma peça de teatro musical dedicada ao tema. Outro, um show musical com a dobradinha futebol e música. Qual foi critério para selecionar, entre tantas disponíveis, o que cabe em um espetáculo?
Lógico que as mais conhecidas teriam certa prioridade, mas eu gosto muito de trazer coisas que as pessoas não conhecem, que merecem e deveriam ser conhecidas. Esse é o meu critério. Não quis ficar somente nas famosas.
As parcerias entre um jogador e um músico são mais comuns. Mas casos em que um jogador gravou um álbum inteiro são raros, não?
Além de Pelé e Elis Regina, o Júnior fez um álbum inteiro. Serginho Chulapa também. E o Nunes, que sempre teve o sonho de ser cantor. Nunes foi um ótimo jogador. Como cantor, nem tanto. O disco do Júnior vendeu pra caramba, porque veio na onda do sucesso Povo Feliz (Voa Canarinho).

Júnior fez tudo sozinho?
Não, fez com compositores amigos. Inclusive, em Povo Feliz ele foi convidado quando já estava concentrado para a Copa de 1982. A relação entre futebol e música é muito grande. Veja o caso do Wilson Simonal. Ele tinha uma intimidade enorme com os boleiros. Ele estava na concentração da copa de 1970, como um convidado oficial. Foi para fazer shows para os caras.
Aqui é o país do futebol, de Milton Nascimento e Fernando Brant, por exemplo, pode ser encarada de duas formas. Ela pode ser vista como uma exaltação do futebol como cultura popular, mas também como uma crítica social da época.
Essas músicas-tema das Copas, que a gente conhece tão bem, foram encomendas pelos governos ou confederações?
Depende da época. De 1986 para cá geralmente era a música da TV Globo. Sullivan e Massadas fizeram uma. Tavito e Aldir Blanc também. Em 1998, Gilberto Gil fez Balé da Bola, revisitando uma música de 1938 de Carmen Miranda, chamada Paris. A Copa de 38, na França, marcou a primeira participação relevante do Brasil, ficando em terceiro lugar e consagrando Leônidas, que acabou ganhando várias canções em sua homenagem.

Quais foram os maiores sucessos de vendas?
Júnior. Povo Feliz saiu em um compacto e junto com a Copa de 1982. O LP saiu depois e o compacto vendeu bem mais, porque o Brasil foi desclassificado. Se o Brasil tivesse ganhado a Copa, meu amigo… Iria estar tocando nas rádios até hoje.
Qual a canção que mais sintetiza essa paixão do brasileiro por música e futebol?
Eu acho que é a do Skank, É Uma Partida de Futebol. Acho muito boa. Foi o primeiro grande sucesso deles e muita gente lembra, porque é recente. Pra Frente Brasil também não pode deixar de ser citada, e também Fio Maravilha.
O jogador, Fio, processou o Jorge Ben por causa disso, não foi?
Isso foi coisa de advogado. Aconteceu muitos anos depois em um processo meio sem pé nem cabeça. Fio já estava morando nos Estados Unidos. O Jorge Ben chegou a regravar a música e passou a cantar “filho maravilha” por causa disso. Houve, depois, um reencontro entre os dois [em matéria do programa Esporte Espetacular, da Globo], que pode ser visto no YouTube, com o Fio contando que essa história não tem nada a ver, que vê a música como uma homenagem…

Como surgiu essa música?
A música é sobre um gol. O Jorge Ben provavelmente estava no estádio, em um torneio no Rio de Janeiro em 1972. Era um jogo entre Flamengo e Benfica [de Portugal]. O Fio entra no segundo tempo, dribla todo mundo e faz o gol.
Jorge Ben talvez seja o músico que mais representa essa fusão entre música e futebol…
Tenho outra história sensacional sobre ele, que me foi contada pelo próprio Ramirez, o jogador uruguaio famoso por ter corrido atrás de Rivelino em uma briga no meio do campo entre Brasil e Uruguai. O entrevistei para o projeto do Museu da Pelada, na região metropolitana de Florianópolis. Ele adora música brasileira e é muito amigo do Júnior, com quem jogou no Flamengo um ano após a famosa briga.
O Flamengo perdeu para o Vasco nos pênaltis em 1977 e foi vice-campeão do segundo turno do Campeonato Carioca. O Flamengo havia jogado melhor, e o técnico Cláudio Coutinho resolveu manter a reserva no restaurante em que comemorariam o campeonato e levou todo mundo para lá.

Jorge Ben era tão íntimo dos caras do futebol que estava dentro do ônibus do time. Nesse jogo, houve um pênalti não marcado para o Flamengo. Todo mundo meio chateado no ônibus em silêncio, e do nada Jorge pega o violão e começa a compor uma música no fundão sobre o lance. Criou ali na hora, cantando “cadê o pênalti?”. Essa música também foi gravada pelo Skank.
Aliás, vale deixar registrado que o Ramirez é um baita cantor, que se apresenta de vez em quando em barzinhos de Curitiba. E virou amigo do Rivelino!


