Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Lollapalooza Brasil 2026 consagra festival como programa de família

Music Non Stop
Por Music Non Stop

Leques, diversidade, ativações, perrengues e muito som bom: entenda o que representou esta edição

Texto por Bruna Medina, Camilo Rocha, Claudia Assef, Jota Wagner e Vitória Zane

Edição por Flávio Lerner

O Lollapalooza Brasil 2026 mostrou que um line-up estrategicamente pensado pode mudar totalmente o jogo. Este ano, com foco numa curadoria que mesclou nomes do indie underground com headliners gringos no auge da carreira, o festival virou um programa de família.

Foi o que vimos especialmente na sexta-feira, com um público enorme de meninas adolescentes, ávidas para assistir à apresentação da americana Sabrina Carpenter, a última bolacha do pacote quando o assunto é pop-chiclete. As pequenas “carpenters” — e as não tão pequenas também — se descabelaram com a batelada de hits equilibrados entre o pop dançante e um flerte com o country, num show pop e colorido, certamente um dos mais lotados da história do festival.

Além disso, o rolê terminou com um saldo claro: se consolidou como um retrato cultural de diferentes gerações, tribos e estéticas convivendo — às vezes em harmonia, às vezes em contraste — dentro do Autódromo de Interlagos.

Com cerca de 285 mil pessoas ao longo dos três dias, o 13ª Lollapalooza Brasil foi, ao mesmo tempo, um evento pop, rock, eletrônico, queer, familiar e caótico.

Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

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Público: três dias, três festivais

Lollapalooza Brasil 2026

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Se teve algo que definiu o Lollapalooza Brasil 2026 foi a pluralidade.

Dominada por adolescentes — especialmente pelos fãs de Carpenter —, a sexta-feira foi sucedida por um sábado com contorno queer, impulsionado pelo fenômeno Chappell Roan. O domingo, por sua vez, virou um verdadeiro programa de família, com crianças e adolescentes vestindo camisetas do Katseye.

Em alguns momentos, o contraste era nítido: havia uma galera de rosa e uma galera de preto, mas sempre com convivência harmônica.

Leques: o grande símbolo do Lollapalooza Brasil 2026

Lollapalooza Brasil 2026

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Se fôssemos resumir o Lollapalooza Brasil 2026 em um objeto, com certeza seria o leque. Vindos da cultura LGBTQIA+, eles conquistaram a todos, inicialmente como resposta ao calor, mas rapidamente se transformando em linguagem coletiva. Um começava a bater e todo o resto da galeria seguia, como olas em estádios de futebol.

Em um ambiente agora com tantos adolescentes e crianças, acaba sendo muito educativa a convivência e a interação com pessoas de todas as orientações sexuais. Festival serve muito para apresentar não só artistas que você não conhecia, mas estilos de vida e jeitos de ser. E o leque se disseminou pelo público e se tornou um acessório de todos.

Shows: entre o hype, a descoberta e a consagração

Lollapalooza Brasil 2026

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Musicalmente, o Lollapalooza Brasil 2026 foi um exercício de curadoria que mesclou nomes do indie underground com headliners gringos no auge da carreira. No pop, já destacamos: nomes como Sabrina Carpenter, Chappell Roan e Katseye mobilizaram multidões e definiram o perfil de cada dia.

Já no rap e no R&B, Doechii entendeu exatamente como funciona a atenção do público, entregando um show sem tempo para pensar e amplamente apontado como o melhor da sexta. No domingo, Tyler, the Creator confirmou sua força com uma performance sustentada apenas por sua presença magnética, mostrando que escolhas menos óbvias para headliners podem ser um golaço, enquanto Addison Rae surpreendeu com um show avassalador.

Yousuke Yukimatsu. Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Na música eletrônica, destaques para Skrillex, que mesmo sem convidados garantiu o público sozinho, Peggy Gou, que encerrou o festival com pista lotada, e o japonês Yousuke Yukimatsu, responsável por um dos sets mais loucos, intensos, criativos e furiosos da história de todo o Lollapalooza.

Mas talvez o grande arco narrativo tenha sido o do rock, que se mostrou longe de morrer. De Deftones a Turnstile, passando por Interpol e Viagra Boys, o gênero apareceu em múltiplas formas: contestador, sujo e antifascista; técnico, nostálgico e híbrido. Mais do que isso, o dia mais roqueiro (sexta) foi o único que vendeu todos os cem mil ingressos disponíveis. Sucesso absoluto!

Entre as nacionais, nomes como Cidade Dormitório mostraram maturidade, enquanto FBC transcende bolhas e ajuda a formar um novo público. Já Agnes Nunes levou brasilidade ao palco principal, dividindo momentos com Sandra de Sá.

Outro destaque foi a estreia do K-pop no festival, com RIIZE, enquanto The Warning mostrou como um show delas gera 20 outras bandas.

Estrutura, calor, perrengues e organização

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Se a música foi boa, a estrutura ainda levanta questões. A distância entre palcos torna a logística complicada e muito cansativa, especialmente para quem busca por experiências fora do mainstream.

Passa ano e sai ano, e a organização não resolve o problema do gargalo de circulação formado entre o lado direito do festival (palcos Budweiser e Perry’s by Fiat) e o esquerdo (Samsung Galaxy e Flying Fish). Tapumes limitam a circulação à área das ativações, cheias de stands de empresas com filas enormes. Para piorar, é o lugar com pior drenagem do festival, com poças de lama se formando mesmo sem a chuva.

Se o tempo não tivesse ajudado, a circulação teria sido catastrófica. Encher a área em frente do Palco Samsung com entulhos para conter a erosão (alguns, de tamanho suficiente para machucar alguém, caso algum cabeça de bagre resolvesse jogar uma pedra para o alto), também foi uma ideia perigosa. Em um festival onde não se pode circular com latas de bebidas, por segurança, pedras com três vezes o peso de uma latinha cheia estavam disponíveis sob os pés da galera.

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

Outro ponto crítico foi o calor. Sem as tradicionais chuvas, o desafio virou outro: a disputa pelas poucas sombras disponíveis. Ocupando toda a extensão do Autódromo, não havia lugar para se sentar (a não ser a grama), e praticamente não tinha para onde correr para fugir do sol.

Mas também não temos por que exagerar nas reclamações: mesmo com o imenso público, a organização estava muito boa. Várias opções de alimentação e bebidas, banheiros sem fila e relativamente limpos, segurança e acolhimento em vários pontos do espaço. Nenhum incidente, por menor que fosse, foi testemunhado pela equipe do Music Non Stop.

Som e curadoria: altos e baixos

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

O Lollapalooza Brasil 2026 também ficou marcado por extremos técnicos. O som estava com um volume que era uma verdadeira paulada, a ponto de incomodar em alguns momentos. Por outro lado, shows como o de Doechii mostraram o sistema funcionando perfeitamente para determinadas propostas.

Na curadoria, ficou o debate entre apostar em nomes consagrados versus novidades. Os curadores do festival deveriam incluir uma cláusula em seu contrato para os próximos anos: “o artista atesta que não está de saco cheio de vir ao Brasil, e nem de tocar no palco do Lollapalooza”. Dentre as 34 atrações internacionais, apenas 15 pisavam no país pela primeira vez.

E se para muitos vir ao Brasil é uma realização, para outros, se tornou protocolar. No caso do Interpol, por exemplo, ficou bem claro que fazer um show em um dos maiores festivais de música do nosso país não era para eles uma coisa tão excitante assim. Para estreantes, no entanto, o sentimento obviamente seria diferente.

“Tocar no Lolla foi um sonho! Além de ser um dos maiores festivais do Brasil, é conhecido pelas descobertas e por ter um público muito aberto e receptivo. Ficamos na expectativa de como o público receberia as duas músicas inéditas do nosso setlist, mas a resposta foi incrível.  Fomos muito abraçados e, mesmo no calor extremo, a galera ficou com a gente até o final. Foi lindo!”, declarou o guitarrista da Hurricanes, Leo Mayer, ao Music Non Stop.

Ativações e experiência

Lollapalooza Brasil 2026

Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

As marcas também tiveram papel relevante — nem sempre bem-aproveitado. A ativação da Budweiser, com toca-fitas cassete, foi um acerto ao conectar a geração Z com o som vintage. Mas, no geral, estandes minúsculos poderiam ser melhor aproveitados justamente para proporcionar mais conforto, em vez de apenas fornecer brindes descartáveis.

Além disso, as ativações ocupam justamente áreas críticas de circulação.

Um festival em transformação

Foto: @observadordaimagem/Music Non Stop

O Lollapalooza Brasil 2026 mostrou que está mudando — e rápido! Virou mais pop, mais jovem, mais diverso. Ao mesmo tempo, manteve espaço para o rock, para a descoberta e para experiências intensas.

Entre leques, coreografias de TikTok e riffs distorcidos, o festival provou que ainda é super-relevante — mas também deixou claro que precisa evoluir em estrutura para acompanhar seu próprio crescimento.

No fim, talvez a melhor definição seja a mais simples: não existe mais um Lollapalooza Brasil, mas vários acontecendo ao mesmo tempo.

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