Michael Jackson e Jarvis Cocker Michael Jackson no Brit Awards 1996. Foto: Kieran Doherty/Redferns/Reprodução

Quando Jarvis Cocker avacalhou apresentação de Michael Jackson

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Há 30 anos, líder do Pulp, em fase “obscura”, se irritou com o espetáculo do Rei do Pop no Brit Awards

Tudo pronto para a apresentação de Michael Jackson no Brit Awards do dia 19 de fevereiro de 1996. O rei do pop queria arrasar. Estava armando sua volta às turnês mundiais após três anos em casa. Preparou um espetáculo teatral para a participação na cerimônia do prêmio. Escolheu a canção Earth Song e montou um roteiro caprichado.

Com uma projeção enorme ao fundo, em formato circular, subiu no palco sob projeções das belezas naturais do Planeta Terra. Segundos depois, destruição da natureza, incêndios e desmatamentos, enquanto Jackson cantava sua balada ecológica. Muita fumaça de gelo seco, ventiladores e luzes. No meio da peça, uma porção de figurantes de todas as idades, incluindo muitas crianças, apareciam pela rampa maltrapilhos, com cara de fome e desespero. Mas Michael Jackson estava lá.

Ascendeu aos céus, subindo em um guindaste que o levou as alturas, cantou alguns versos e retornou para o meio de seu povo, agora feliz e esperançoso, ao ver o salvador do planeta retornando das alturas. Um grandioso espetáculo de vitória da humanidade sobre os malvados destruidores da natureza, com Michael como protagonista salvador. Aos desejos do artista, tudo parecia perfeito. Mas eis que aparece Jarvis Cocker.

Em 1996, o líder do Pulp andava abusando da cocaína e do álcool. Duas drogas que, segundo o próprio cantor, eram “péssimas para a personalidade”. Na festiva noite de cerimônia do Brit Awards, não foi diferente. Candida Doyle, tecladista da sua banda, havia visto o ensaio de Michael Jackson no dia anterior e já deixou seus colegas de sobreaviso: era “horrível e de mau gosto”. Já devidamente brifado e com a cabeça cheia de substâncias alteradoras de humor, Cocker resolveu armar um protesto de última hora.

No meio da apresentação, já com as dezenas de figurantes lotando o palco, o músico subiu de surpresa no meio da turma e começou a tirar onda de tudo. Parou no centro do cenário e fez cara de nojo (enquanto o astro estava nas alturas, em cima da grua), virou a bunda para a plateia e deu uns tapinhas em si mesmo, causando uma confusão hilária, principalmente porque demorou para todos entenderem o que estava acontecendo.

Quando apareceu, o público começou a festejar, achando que o vocalista do Pulp cantaria com Michael, fazendo uma participação especial. Após uns 15 segundos causando, as câmeras começaram a mostrar alguns seguranças, no meio dos atores maltrapilhos, abrindo caminho para tentar chegar ao invasor. Que acabou saindo sozinho, já que a quantidade de gente na apresentação impedia uma ação mais incisiva.

“Ele estava fingindo ser Jesus. Não sou religioso, mas como artista, a ideia de alguém fingir ter o poder de cura simplesmente não é certa. Os roqueiros já têm egos grandes o suficiente sem fingir ser Jesus — foi isso o que me irritou, essa coisa em particular”, contou mais tarde à BBC, segundo a revista Digital Spy.

Michael Jackson, ao que tudo indica, nem percebeu o que havia acontecido, já que estava lá no alto, tentando salvar o planeta. No dia seguinte, todos as revistas e tabloides ingleses comentavam o caso. Ao final da cerimônia, a confusão era generalizada. A equipe do Rei do Pop acusou Jarvis de ter empurrado crianças para fora do palco e ter mostrado a bunda para o público.

Foi justamente um cara que sabia muito bem as besteiras que o pó faz em uma cabeça repleta de fama que o salvou. David Bowie estava nas primeiras fileiras do teatro. Entrou no meio da confusão e avisou que Cocker não jogou criancinha nenhuma pra baixo e nem mostrou as partes íntimas.

“Entre muitas outras coisas pelas quais sou grato a David Bowie, isso foi incrível”, declarou. Três dias mais tarde, quando o caso ainda estava em investigação, Bowie mandou entregar à polícia as filmagens feitas por sua equipe particular durante o incidente, salvando definitivamente a pele do líder do Pulp.

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Jarvis Cocker não voltou atrás, não pediu desculpas e seguiu firme na narrativa de que estava fazendo um protesto contra a idolatria no mundo da música. Mas admitiu, mais tarde, que aqueles foram anos “obscuros” em sua vida.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.