Foto: Divulgação‘Rep’ com ‘e’? Thaíde fala sobre trajetória e volta às prateleiras
Pioneiro do hip-hop nacional conversa com Jota Wagner sobre o álbum Corpo Fechado, Mente Aberta, que ganhou edição Deluxe
Pioneiro na cultura hip-hop, Thaíde voltou, em maio de 2025, após quase dez anos, às prateleiras de discos novos. Corpo Fechado, Mente Aberta traz um belo extrato do que é estar de olho no que está acontecendo na cultura que ele ajudou a construir no Brasil, desde a década de 80.
O álbum, que ganhou edição Deluxe no último dia 30, com três faixas inéditas, traz o certeiro rap tradicional brasileiro do artista, com a voz e eloquência que lhe são inconfundíveis. Se arrisca no trap e em outras tendências mais recentes, reconstrói o elo perdido entre o hip-hop e o repente nordestino, e desfila bons convidados nas 16 músicas da obra, como Djonga, Nego Max, Ana Preta e muito mais.
Conversamos com Thaíde para falar de como Corpo Fechado, Mente Aberta se conecta com toda a sua carreira e, por tabela, com a história do rap brasileiro.
Jota Wagner: Foram quase dez anos desde Vamo que Vamo Que O Som Não Pode Parar até Corpo Fechado, Mente Aberta. O que rolou?
Thaíde: Graças a Deus eu tenho uma série de outras atividades, todas relacionadas à comunicação. Além da música, tem o trabalho com a TV, outros projetos paralelos em que eu tenho de atuar, como apresentação, locuções e gravações. Isso leva um certo tempo. Antigamente, todo o meu dia era voltado para isso, fazer música. Hoje não é mais assim. Para mim, é bom, porque me ajuda a desenvolver outras funções dentro da comunicação — e me fortalece como um representante da cultura hip-hop.
Essas músicas foram feitas ao longo dos últimos dez anos?
Cara, o disco levou um tempo para ficar pronto. Mais ou menos uns quatro anos. Chegou um momento que eu comecei a ver as pessoas perguntando sobre músicas novas. Quando eu respondia que estava com o trabalho da TV, elas diziam: “não, a gente quer ouvir disco novo!”. E teve aquele momento do dilema: disco físico ou em plataforma? Eu sou um saudosista. Pensei em fazer de todas as formas possíveis. Isso já aconteceu com o Vamo Que Vamo Que o Som Não Pode Parar. O Corpo Fechado, Mente Aberta já foi lançado digitalmente. Agora é a corrida para fazer o vinil.
Qual a diferença entre o Thaíde de “meu corpo é fechado e não aceita revide” para o de mente aberta, décadas depois?
Na Corpo Fechado, de 1988, eu era um garoto. Estava tentando entender a vida. Não sabia que era possível, não fazia parte dos meus planos. Quando tudo aquilo aconteceu, foi tão natural que não pensei num futuro próximo. Foi quando percebi que não seria uma coisa passageira. Hoje já é diferente. Tudo é planejado. Aquela pergunta: isso vale a pena fazer?
Você se lembra qual foi o momento exato em que você parou e pensou: “caraca, eu estou vivendo da minha música”?
Eu acho que foi na primeira vez que eu saí de São Paulo para me apresentar em algum lugar. Se não estou enganado, foi no Distrito Federal, em 1989. Quem me levou para lá foi o DJ Rafa. Quando isso aconteceu eu pensei: “poxa vida, estão me chamando para me apresentar, mostrar meu som, e pagando por isso. Eu estou no caminho certo”.

É mais difícil para você escrever letras hoje em dia, com tanta vivência?
As dificuldades estão tanto naquela época quanto hoje. Mesmo eu tendo sido um garoto inexperiente, eu tinha que pensar em como fazer para que as minhas mensagens chegassem de maneira positiva — ou pelo menos diretamente às pessoas que eu gostaria de atingir, que eram iguais a mim, com a mesma origem. Era assim que eu pensava na época, quando o público do hip-hop era muito mais restrito do que hoje. Hoje é uma coisa mais popular, está na moda, está até no linguajar.
Agora, a dificuldade vem de uma realidade que eu não vivo mais. Mas eu nunca deixei de lado a realidade das muitas pessoas que ainda vivem como eu vivia.
Tem umas coisas interessantes nesse novo disco. Uma delas é A Mãnha, que me soou como uma continuação de Mó Treta. Uma espécie de capítulo dois…
É uma observação interessante. Não digo que é uma continuação, mas eu falo justamente da mesma época de vida da Mó Treta. Não de quando eu escrevi, mas de quanto aconteceu. A diferença é que em A Mãnha, eu falo não só de uma treta, mas de todas elas. De correr para lá e pra cá.

É um lance meio autobiográfico. Dá a impressão de que nós, ouvintes, estamos batendo um papo com você.
Acho que até posso contar uma história que não seja minha. Mas eu não consigo se não for algo que possa ter sido real na vida de alguém. De repente, posso até fazer uma ficção, mas ela tem de ter a ver com a realidade de alguém.
Outro lance sensacional foi chamar o Caju & Castanha e fazer um rap com repente nordestino. Desculpe minha ignorância, mas isso já tinha sido feito antes?
Eu tinha feito isso há um tempo no Assim Caminha a Humanidade, com o Nelson Triunfo. Foi um desafio de rap com embolada. Mas cara, eu vi muitas e muitas vezes Caju & Castanha no centro da cidade. Muitas vezes nos anos 80 e 90, mas eu não tinha amizade com eles. Hoje, poder ter esses caras nesse disco, e ainda poder incluí-los no meu círculo de amizade… A gente conversa através da arte.
E como rolou tudo no estúdio?
Foi natural. Eu já tinha passado pros caras a ideia, que era falar sobre a questão do rap norte-americano, que eu faço, e o repente brasileiro, que existe muito antes do hip-hop. Eu puxei o mote, mas aí os caras vieram com aquela mania de desafio, né (risos)? Eles chegaram chegando, e isso é muito louco. Eu sou muito fã da cultura nordestina.

O rap brasileiro, que você ajudou a criar, é bem único.
Você tocou num assunto que é a grande frustração na minha história. Eu sou a pessoa que poderia ter escrito nosso rep, assim, com “e”. E eu não fiz. Porque aí existiria justamente essa questão da similaridade com o repente. Isso é uma explicação do porquê eu fiz essa música com o Caju & Castanha. Tem também uma outra música que eu ouvi no mesmo dia, com o MV Bill, chamada O Nosso Rap, que fala justamente dessa mistura que nós temos aqui.
Como é que você sente olhando para trás, se lembrando da estação São Bento, e vendo esse monte de garotas e garotos fazendo rap — tudo isso que você ajudou a construir?
Eu sou um desses tijolos aí nessa construção, e isso para mim é gratificante. Na época em que começamos, pouca gente botava fé. A maioria dizia que era uma moda e não ia dar em nada. Que era um som de marginal. Bem, isso sempre vai ser, né, cara?
Ainda bem…
Sim, sempre dos que vivem na margem. E essas pessoas hoje estão fazendo rap e se dando bem. Isso mostra que é uma conquista. O rap conquistou quem achava que não ia dar certo, quem achava que não gostava, quem achava não conhecia… Isso faz parte de toda a filosofia da cultura hip-hop, e me sinto agraciado por isso.



