Foto: Bob Kupbens/Icon Sportswire via Getty ImagesBad Bunny no Super Bowl: 380 pés de cana, um continente inteiro e 13 minutos de história
“Bad Bunny é um acontecimento. Quanto maior o discurso de ódio contra imigrantes, mais aumentava o seu sucesso”, analisa Jota Wagner
– Mãe, eu participei do show de intervalo do Bad Bunny no Super Bowl!
– Que lindo, filho! Como eu te encontro aqui no vídeo?
– Eu sou o terceiro pé de cana, da esquerda para a direita!
Sim, dentre as várias curiosidades da apresentação de Bad Bunny no intervalo do 60º Super Bowl em Santa Clara, na California, a plantação de cana de açúcar que tomou boa parte do cenário foi composta por 380 pessoas fantasiadas, para agilizar a entrada em campo. Toda a estrutura do espetáculo dispunha de apenas oito minutos para entrar e montar os diversos elementos do show que contou, nas entrelinhas, a história de Porto Rico e dos imigrantes latinos nos Estados Unidos.

Como era de se esperar, o astro utilizou a tremenda visibilidade de um dos maiores eventos esportivos do planeta para pintar um retrato social. Benito Antonio Martinez Ocasio não falou sobre si, mas sobre seu povo. E por tabela, de todos os latino-americanos. Durante 13 minutos, protagonizou uma das mais belas produções da história das finais da liga de futebol americano.
O resultado conflui com a importância do primeiro artista de língua majoritariamente latina a se apresentar no show do intervalo. Bad Bunny é mais do que um artista. Ele é um acontecimento. Sua ascensão rolou ao mesmo tempo em que os imigrantes (a grande maioria latinos) passaram a ser perseguidos no governo Trump. Quanto maior o discurso de ódio, mais aumentava o sucesso do artista porto-riquenho.
Seu álbum mais recente, e seu maior êxito, exaltam o povo de seu país e sua importância na sociedade estadunidense. E por mais que tenha dado claras e muito bem-recebidas mensagens durante o Super Bowl — começando o show com um garoto falando “que rico es ser latino”, lembrando a todos que a América é um continente, e saindo de cena com a frase “seguimos aqui” (pega essa, Trump!) —, foi nos diversos símbolos espalhados nas fantasias, coreografias e cenários que o espetáculo disse mais.

Enquanto dançava e cantava no meio da plantação de cana, Bad Bunny representou as profissões da maioria de latinos que desembarca nos Estados Unidos (ajudando, assim, a movimentar o pais): pedreiros, eletricistas, cabeleireiros, vendedores ambulantes… Prestadores de serviço e vendedores de produtos consumidos pelos mesmos estadunidenses que apoiam iniciativas como a deportação em massa. Celebrou também a riqueza da cultura de seu país. DeBÍ TiRAR MáS FOToS, o álbum vencedor de muitos Grammys, está recheado de música tradicional caribenha. Festeira, quente e divertida.
Tecnicamente, a apresentação no intervalo de um jogo é um maiores desafios do mundo entretenimento. Em tecnologia e logística, o evento dá aula. Benito levou ao meio do campo uma vila porto-riquenha, plantações humanas, postes elétricos, carros e pneus, e ainda arrumou tempo para celebrar um casamento de verdade entre os 13 minutos de show.
Segundo o produtor do espetáculo Bruce Rodgers, o artista recebeu tantos convites de casamento nos últimos anos que decidiu escolher um casal entre eles para levar a Santa Barbara, e ainda aproveitou para mostrar aos Estados Unidos como é uma cerimônia dessas em seu país, com direito a criança dormindo nas cadeiras — quem nunca passou por isso quando moleque aqui no Brasil, não é mesmo?

Bruce desenhou a produção junto com Shelley Rodgers. Experiente no Super Bowl, a dupla também foi responsável pelo show de Kendric Lamar no ano passado. O esmero técnico foi impressionante, executado à perfeição, em poucos minutos e sob a pressão de uma transmissão ao vivo para o mundo todo. Nada podia atrasar ou dar errado. E não deu.
Em ritmo frenético, Bad Bunny emendou as músicas Tití Me Preguntó, Yo Perreo Sola, Safaera, Voy a Llevarte Pa’ PR, Monaco, Die With a Smile (com participação especial de Lady Gaga), Baile Inolvidable, NUEVAYoL, Lo Que Le Pasó a Hawaii (cantada lindamente pelo conterrâneo Ricky Martin), El Apagón, Café Con Ron e DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Os atentos ainda puderam reconhecer celebridades como Pedro Pascal, Cardi B, Karol G, Jessica Alba e Young Miko entre os figurantes, dançando e festejando.
O porta-riquenho está no auge de sua carreira. Desceu a lenha no ICE há poucos dias, durante a cerimônia do Grammy, e reforçou seu discurso no intervalo do Super Bowl, representando algo ainda maior do que o próprio show. Afinal, a produção foi avalizada pela NFL, uma instituição que representa um esporte com público majoritariamente branco.

Tudo bem que corre, nesse mesmo momento, um tremendo plano de expansão do esporte para outros países. Ampliar o futebol americano para o consumidor da América Latina tem planejamento e projeções de ganhos financeiros bastante gordos. Como boa parte do que acontece na maior economia capitalista do planeta, lucro não tem cor. Se for preciso passar por cima de um presidente de extrema-direita para isso, que seja.


