Dr. Bruno Raposo, do SENTA. Foto: DivulgaçãoCarnaval, drogas e saúde mental: o alerta de um médico sem filtros
Dr. Bruno Raposo, do SENTA, conversa com Jota Wagner sobre redução de danos e suicídio — e crava: o Setembro Amarelo não funciona
Você sabia que é possível fazer um rápido teste online e saber como anda seu estado de humor? Entender sozinho se algo anda fora do normal, se algo depressivo está crescendo dentro de você e se é hora de buscar ajuda? Sabia que, se aquele seu amigo anda fazendo muita besteira, como uso excessivo de drogas ou dirigir em alta velocidade, isso pode ser mais um pedido de socorro do que uma demonstração de coragem?

É isso que o Dr. Bruno Raposo explica ao leitores do Music Non Stop, ao falar sobre um problema social que, no mundo inteiro, ganha ares de epidemia: o suicídio. Mais do que isso, em seu canal do Instagram, se dedica a ensinar, de maneira clara, divertida e sem hipocrisias, sobre os cuidados com o uso de drogas sob a ótica da redução de danos. Com mais de 200 mil seguidores no perfil do Instagram SENTA, o médico dá o papo reto, sem julgamentos, e está em plena campanha de conteúdo para “salvar o seu Carnaval ou de seus amigos”.
A abordagem é uma tábua de salvação para muita gente que precisa de informações claras e sem preconceito sobre como ficar doidão sem passar da conta. Em conversa conosco, foi além. Raposo nos explica, com a mesma linguagem, a quantas andam os estudos, as políticas públicas e o posicionamento dos médicos em relação ao tratamento de pessoas com comorbidades que podem levar ao suicídio.
A boa notícia é que, com medicações corretas, acompanhamento e acolhimento, muitas vidas podem ser salvas. A má, que ainda estamos muito longe de ter essa qualidade de atentimento disponível a todos, principalmente os mais vulneráveis. Nessa questão, informação é tudo. Boa leitura!

Jota Wagner: Como você vê o comportamento da classe médica sobre a abordagem da redução de danos nos atendimentos a pacientes?
Bruno Raposo: Ainda tem muito preconceito. Hoje em dia, qualquer que seja o seu sintoma, a primeira coisa que ele vai te dizer é para emagrecer (risos). Eu acho que a gordofobia entre os médicos ultrapassa todos os limites. Além disso, vai te dizer para parar de usar drogas, porque a droga sempre vai ser a questão.
Isso faz com que as pessoas geralmente escondam o uso de substâncias do próprio médico…
Para ser sincero, às vezes nem precisa falar. Se você tiver cara de doidinho, o médico já supõe que você usal alguma substância. Qualquer um fora da curva, em termos estéticos, estilo. E isso é uma faca de dois gumes, porque fazemos uma avaliação analítica preconceituosa. Muitas vezes, a gente lida com isso, no dia a dia.
Em muitos casos, a gente bate o olho no paciente e já sabe que ele é um caso de hipertensão ou diabetes. Durante o curso, isso é muito estimulado. O que diferencia um bom médico de um ruim é justamente se manter preso nos preconceitos. Em uma consulta, a gente tem de abrir mais caixas do que fechá-las.
É uma conjunção de coisas que temperam o caldo geral do grande preconceito com as substâncias no Brasil e no mundo. As pessoas as usam para justificar tudo.
Sem contar que nunca dá para saber se aquela é de fato a substância que o usuário diz tomar, já que tudo é tão adulterado no mercado ilegal…
Tem uma pesquisa interessante feita na cracolândia, por exemplo, mostrando que mais de 60% das pedras analisadas de crack são, na verdade, cetamina. Nós vemos hoje uma epidemia de substâncias que não são o que dizem ser, chegando até as bebidas alcóolicas.
Sob a ótica da redução de danos, o que fazemos com essa epidemia?
A primeira coisa é testar. É o ideal. Não tem como fugir disso se você quiser saber o que tem na mão. Temos grupos, como o Reaja, que faz as testagens, vende testes colimétricos, etc. Está surgindo a necessidade de testes cada vez mais dinâmicos. Temos muito na gringa, mas aqui são poucos.
Além de testar, o correto é graduar a dose e evitar misturas. Eu sempre falo no meu canal sobre ser monogâmico com as drogas. Quando você escolhe uma substância e só usa aquela em um rolê, você não potencializa as coisas. Se alguém está cheirando cocaína (que na verdade, geralmente é iboprofeno, um anti-inflamatório macerado), acaba usando aquilo a noite inteira junto com álcool. Você está cozinhando no seu corpo uma hepatite medicamentosa.
Ao usar fentanil, ou o que estiver lá misturado com ele, além de outra droga depressora como o próprio álcool ou a cetamina, você potencializa o efeito depressor, e isso escalona para lugares que a gente nunca imagina.
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As prostitutas, como eu sempre digo, são as primeiras drugsitters do mundo. Quando a pessoa é casada e o uso é repreendido em casa, ela encontra na prostituição alguém para usar com ele. Essas meninas conversam muito comigo e contam casos de clientes que usaram cetamina achando que era cocaína, por exemplo. Elas não sabem o que fazer. Se esperam, ou chamam uma ambulância, etc.
E no hospital? Qual o mecanismo para saber qual a droga que ele realmente usou, já que temos somente o depoimento de quem está junto?
Se for um médico que tem uma mínima noção do que são as substâncias, consegue manejar melhor. Mas em termos de laboratório, é muito difícil. Geralmente, só dá para saber no IML. Mas durante o atendimento, vamos nos atrelar mesmo ao relato de quem está perto, o que a pessoa tentar conseguir falar. Mas é muito difícil porque cetamina, GHB, altas doses de metanfetamina, fentanil, têm o mesmo perfil de overdose. A pessoa dorme, entre em coma. O manejo possível é pegar o máximo de dados e tentar entender o que está acontecendo.
Vamos falar do dano mais irreversível de todos, que é o suicídio. A classe médica recebe dados do que está acontecendo no Brasil?
Muito pouco. As ações ficam restritas ao Setembro Amarelo que, comprovadamente, com estudos científicos, não funciona. Talvez até piora a situação. As pessoas envoltas naquilo, embebidas em frase de efeito, um discurso de falsa empatia. Coisas como “é só você conversar comigo que vai resolver”. Esse tipo de coisa não vai impedir ninguém de fazer alguma coisa.
O que realmente impede são ações ativas, um CVV que funcione (pois recebo muitos relatos de ligações que não foram atendidas). E medicações corretas: quando a pessoa tem uma ideação suicida muito ativa, alguém que está achando que pode fazer isso com muita assertividade, damos medicação todos os dias. A pessoa vai ao hospital, pega a dose e volta para casa. Eu não dou 60 comprimidos de uma só vez.
Tudo é pouco discutido e normalmente fica sempre ao redor da coisa da depressão. Eu já tive vários pacientes que me contam que setembro é o pior mês do ano para eles. Todo mundo falando: “olha, você consegue”, mas ele não está conseguindo, né? As pessoas que sofrem de depressão viram um alvo.
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Cometer suicídio é um impulso momentâneo, uma fase ruim da vida ou uma condição bioquímica, que está sempre com a pessoa?
Depende. Há um livro muito bom, do Jorge Milo Mílonos, que se chama História do Suicídio, e conta basicamente a história do autoextermínio desde que o mundo é mundo. Ele é multifatorial. Ele pode acontecer, primariamente, em termos de incidência epidemiológica: como uma evolução do processo de depressão resistente. Porque a depressão é uma doença neurodegenerativa. Você literalmente perde neurônio, perde sinapses…
Uma questão química mesmo…
Sim, você entra em inanição. A pessoa fica no fundo do quarto porque ela não consegue mais associar informações. Não consegue nem assistir TV, porque não pode mais associar o que está sendo informado ali.
Mas tem um outro lado do suicídio, que não falamos muito, que é justamente o cometido por impulso. A pessoa assume um comportamento autodestrutivo, devido a estressores da vida. Ela se coloca em situações que, alguma vezes, acabam sendo fatais. E nos laudos, isso é contabilizado como suicídio também. Mas na verdade, ela não estava sendo capaz de julgar o que estava fazendo.
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É o que acontece muitas vezes após o uso de substâncias. A cetamina, por exemplo, é uma droga que te dissocia da realidade. Dependendo da dosagem, você entra em uma alucinação persecutória, em um grau que você se mata para fugir dessa perseguição. Se a pessoa usar uma substância em uma dia que estiver com uma depressão leve, ou em um dia em que está triste, mal, terminou um relacionamento, etc., com a dissociação ela pode achar que, se pular de uma janela, vai começar uma vida nova, como se vivesse em um jogo de videogame.
Uma hipótese muito forte é que antes do suicídio sempre existia a vigência de alguma comorbidade mental, como uma depressão de base ou uma ansiedade.
Quando isso acontece entre pessoas públicas, as famílias normalmente ocultam a morte por suicídio. Mas em um caso recente, do guitarrista Matt Kwasniewski-Kelvin, da banda inglesa Black Midi, seus familiares não só divulgaram a causa da morte quanto acrescentaram que o músico “perdeu a batalha da saúde mental”. Falar abertamente sobre uma tragédia como essa ajuda ou atrapalha?
Existem, sim, casos de reações em cadeia. Uma pessoa comete o ato e outras o seguem, ao saber que alguém que admiram se suicidou. Mas o que eu vejo é que as pessoas já sabem, nesses casos. Quando se fala em “morte não divulgada”, quando o corpo foi encontrado ou quando muito se comenta sobre o assunto, tudo mundo já sabe que é suicídio.
Ficar nessa coisa velada não é a melhor situação. Quando esse tipo de evento acontece, o ideal é falar sobre o assunto junto com práticas de prevenção. Assim como fazemos com os casos de câncer de mama ou com o cigarro, por exemplo.

Falar somente sobre um suicídio, sem agregar nenhuma informação sobre como evitá-lo, pode gerar uma reação em cadeia. Mas não falar não tem resolvido muita coisa. E sempre com informações corretas. Não associar, por exemplo, tudo com o uso de drogas. As substâncias são usadas desde que o mundo é mundo. É preciso entender que muita gente faz uso não como conteúdo recreativo, mas para remediar alguma coisa.
Isso significa que, se uma pessoa foi encontrada depois de um suicídio sob vigência do uso de drogas, é porque ela estava dando uma dica do que estava passando. Uma dica sobre seu estado mental.
Existe alguma espécie de teste que podemos fazer em nós mesmos, sozinhos, para identificar quadros depressivos ou ideações suicidas, e saber que é o momento de procurar ajuda?
Sim, tem. Eu recomendo este aqui, da União Europeia. É um questionário de estado de humor, você responde poucas perguntas, como interesse em fazer as coisas, falta de apetite, movimentação da sua vida, etc.
Há fases no processo de suicídio. Quando um paciente fala que já tentou o autoextermínio, ou que pensa nisso. Quando pensa que o mundo seria melhor sem a existência dele, por exemplo, alguém tem de ficar alerta. Se a pessoa já planejou o ato, é preciso ficar mais atento ainda. Se houve tentativas frustradas também. Muita gente tem aquela opinião de “ah, ele só está querendo chamar a atenção, querendo aparecer”. Mas na verdade, essas tentativas são um pedido de socorro. Uma hora, ele vai conseguir. As tentativas são uma mensagem: “eu estou com um problema. Eu não estou bem”.
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Quando acompanhamos uma paciente que já fez um planejamento e, subitamente, chega dizendo que está bem, também ficamos alertas, pois sentimos que ela, em segredo, está pronta para cometer o ato nos próximos dias. Essa é hora em que ligamos para o SAMU, pedimos a internação, acompanhamos a medicação, etc.
A depressão, novamente, é um processo demencial, neurodegenerativo. A pessoa sente que está emburrecendo, perdendo gosto pela vida, fazendo cada vez menos coisas, dormindo demais. São indicadores de que há um processo depressivo importante. Por outro lado, também há o comportamento autodestrutivo constante: excesso de drogas, dirigir embriagado, em alta velocidade e até deixar velas e fogões acesos em casa. Comportamentos atípicos. Na sua frente, a pessoa está superbem, mas por trás vêm cometendo comportamentos autodestrutivos. Às vezes, essa pessoa está tentando dizer algo e você não está entendendo.



