Boladona Tati Quebra Barraco. Foto: Reprodução

Pioneiro, “Boladona” é eleito um dos melhores discos de música eletrônica do século

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Álbum de 2004 da funkeira Tati Quebra Barraco ficou em 19º lugar no Top 100 do prestigiado portal Resident Advisor

Quando Tati Quebra Barraco e DJ Marlboro resolveram abrir o álbum Boladona, de 2004, com um sample da faixa Love Story, hit do tech-house composto pelos ingleses Layo & Bushwacka!, o funk brasileiro e a música eletrônica eram inimigos mortais. Ou, pelo menos, irmãos que não se falavam. Com exceção de alguns visionários daquela época, os dois mundos não se cruzavam, apesar de ambos fazerem música com instrumentos eletrônicos.

O que pensaria a desbravadora MC se soubesse que, mais de 20 anos depois, seu álbum seria elencado como um dos melhores discos de — uuuh — música eletrônica do último quarto de século, à frente de nomes como Radiohead (com seu experimento eletrônico Kid A), Moodymann, M.I.A. e Justice? Pois foi que aconteceu.

Referência no universo eletrônico, o portal inglês Resident Advisor publicou sua lista com os cem melhores discos dos últimos 25 anos, e Boladona figura em 19º lugar. O reconhecimento da única obra brasileira do Top 100 acontece após um ano em que o funk carioca conquistou o mundo, ganhou noites exclusivas em clubs de diversas cidades e rádios europeias, viu transitar vários DJs e MCs nacionais e compreendeu que o gênero é, sim, música eletrônica.

Goste ou não, a música criada nos morros cariocas e expandida para as periferias de todo o país é o nosso som, expressão do dia a dia nas comunidades e diferente de tudo o que é feito em outros lugares do planeta. Mas derrubar essa barreira demorou, e Tati Quebra Barraco é uma das responsáveis por isso.

No início dos anos 2000, DJ Marlboro enfrentava uma missão de vida: quebrar o preconceito do grande público em relação ao funk carioca. Já reconhecido como um dos grandes DJs e produtores brasileiros, o artista sentia na pele o estigma da música feita na quebrada, largamente associada à “música de bandido”. O buraco, na verdade, era mais embaixo. Havia, por parte dos brasileiros da mídia, altas doses de racismo e classismo naquela rejeição. E considerando o público majoritariamente classe média do cenário eletrônico daquela época, as portas não estavam apenas fechadas. Estavam trancadas, com cadeados de ouro.

Em 2004, o cara finalmente começou a ver seu esforço compensado. No mesmo ano, Boladona entrou na trilha sonora das novelas da Rede Globo, atestado de sucesso popular. Em uma incrível manobra envolvendo coragem e visão, Flavia Ceccato, à frente da hypada casa Lov.e, em São Paulo, contratou Marlboro para um residência semanal no clube. O DJ estaria tocando em uma das referências do cenário eletrônico da maior cidade do país. Sua festa se tornou a mais cheia da semana, rapidamente.

A mudança de olhar para a cultura funk também contou com um empurrãozinho gringo: foi em 2004 que Diplo encampou a produção do documentário Favela Blast, explicando para os festeiros do resto do planeta o que era esse tal funk carioca, feito nos morros em meio a celeumas sociais e dificuldade em conseguir bons equipamentos de estúdio. Tati foi a voz do gênero para o mundo naquele ano. E hoje, Boladona é carimbado como um dos melhores discos de música eletrônica de sua época.

Com 18 faixas (algumas batizadas como “montagem”, características no funk), o álbum teve uma série de hits instantâneos nas pistas, trazendo temas que até então eram pioneiros, como o empoderamento feminino e a quebra dos padrões de corpo. A obra é poderosa, e quem fez bico na época, hoje ouve e reconhece seu valor. Após botar o disco na rua, entrar em novelas e ter seu interesse despertado em documentários, Marlboro e Quebra Barraco meteram o pé na estrada. Em outubro, a MC subiu num avião e passou o rodo no underground berlinense, além de se apresentar também na Suíça e Holanda.

Ainda assim, a aceitação de que funk brasileiro é música eletrônica levou tempo. Nos anos seguintes, os shows de artistas brasileiros ainda encantavam pelo apelo exótico, pós-Cidade de Deus — filme que ganhou projeção internacional mostrando a violência em favelas cariocas. A coisa toda rolava naquela vibração de “world music”, fora dos festivais e clubes que recebiam DJs de house, techno ou drum’n’bass.

Foi com a nova invasão dos artistas de funk no cenário internacional, a partir de 2022 e após a ressaca da pandemia, que os limites foram se diluindo, muito mais no exterior do que no próprio Brasil. Nós, acostumados com a validação gringa, ainda precisaremos de um tempo para entender que navegam todos no mesmo barco. Muita gente, por aqui, sequer entende que a house music e o techno são gêneros musicais primordialmente periféricos. Mas a gente chega lá. E a inclusão de Boladona na lista do Resident Advisor vai ajudar muito.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.