Bad Bunny no Brasil Foto: Iris Alves/Divulgação

Benito em silêncio, SP em êxtase: a estreia histórica de Bad Bunny no Brasil

Flávio Lerner
Por Flávio Lerner

No auge da carreira, astro porto-riquenho realizou o sonho de milhares — e o seu próprio — em noite eterna no Allianz Parque

O termo “histórico” pode ter sido banalizado a ponto de virar clichê, mas cabe perfeitamente para o primeiro show de Bad Bunny no Brasil, realizado na arena mais relevante da América do Sul, em São Paulo, nesta sexta-feira [20]. Afinal, estamos falando — e aqui assumo com certa tranquilidade o risco do exagero — do artista que, mesmo tendo declarado ser apenas um cara normal que faz música, ganhou protagonismo o suficiente para ser considerada a mais relevante oposição ao nefasto Donald Trump. Um “cara normal” que acaba de receber o principal prêmio do Grammy com um álbum cantado em espanhol, pela primeira vez. Um “cara normal” que, em tempos de ICE, cravou todas as bandeiras das Américas e reafirmou o orgulho latino no mais tradicional espetáculo musical-esportivo dos EUA. Isso tudo neste mesmo mês!

Benito Antonio Martínez Ocasio parece ser realmente muito gente boa, a ponto de exibir orgulhosamente os seus músicos de apoio. Além de seu show contar com solos e jams de percussionistas, tecladistas, contrabaixistas e violonistas, fez questão de trazer a conterrânea banda Chuwi para a abertura de seu espetáculo. O grupo, a primeira e bela surpresa da noite, conversa diretamente com o “conceito Bad Bunny”: som contemporâneo mesclado com música tradicional de sua terra e letras regionalistas, cheias de nostalgia, orgulho e uma pitada de protesto.

Depois das 20h30, poucos minutos de suspense e o telão exibia dois garotos trazendo os versos falados de LA MuDANZA para invocar a presença de Benito. Ao adentrar o palco principal, o homem ficou em silêncio por uns bons segundos, como se estivesse caindo a ficha de tudo o que estava vivendo ali. Emoção esta que apareceu em diferentes momentos da noite, quando interrompeu canções no meio, pareceu conter as lágrimas e deu declarações de estar realizando um sonho ao visitar nosso país pela primeira vez.

Ao longo de duas horas e meia, fez em três atos um show que consolidou o casamento do Brasil com Porto Rico, e nos lembrou a todos do que muitas vezes parecemos esquecer: também somos parte da América Latina. Focado quase que inteiramente nas melhores faixas de DeBÍ TiRAR MáS FOToS — o álbum vencedor do Grammy, que dá nome à turnê e que representa uma mudança significativa de sonoridade na trajetória do astro, com mais ênfase na música tradicional caribenha —, o primeiro ato foi o mais espetacular.

Bad Bunny no Brasil

Bad Bunny no primeiro ato do show em São Paulo. Foto: Iris Alves/Divulgação

Depois de uma palinha de Garota de Ipanema antes de PIToRRO DE COCO, mais uma bonita surpresa: os integrantes da Chuwi voltam ao palco para participar da belíssima WELTiTA. Após TURiSTA e um viajante solo de teclado, a apoteose veio com BAILE INoLVIDABLE, um dos maiores hits, cantado a plenos pulmões por todo o público — que, por sinal, era composto pelos mais diversos sotaques brasileiros e gringos. NUEVAYoL encerrou a fase um.

No segundo ato, Benito mudou-se de lugar para se apresentar na sua famosa Casita, construção que simula uma casa típica de Porto Rico [e que esteve presente inclusive no Super Bowl], e que ficava do lado oposto do Allianz Parque. Ou seja, quem estava na Pista Premium, pertinho do palco principal, só conseguia vê-lo ali pelo telão, em mais uma prova de que Bad Bunny, mesmo sendo um dos artistas pop mais relevantes da atualidade, está realmente disposto a subverter algumas normas.

Nesse bloco, vestido com uma camisa retrô da Seleção Brasileira de 1962, emendou 15 músicas, quase todas dos seus álbuns anteriores, mais calcadas no reggaeton e no trap. Em vez de banda, um DJ. Por lá, chegou a ficar bons minutos cumprimentando os fãs mais próximos, inclusive chamando um deles para subir à Casita e introduzir VOY A LLeVARTE PA PR.

Bad Bunny no Brasil

A esboçadinha marota de Bad Bunny, emocionado em sua primeira vez no Brasil. Foto: Iris Alves/Divulgação

Senti falta apenas de mais canções do excelente nadie sabe lo que va a pasar mañana, antecessor de DeBÍ TiRAR MáS FOToS, de 2023. Deste, apenas MONACO integrou o setlist, antes da “música rotativa” da vez — momento em que, em cada cidade da tour, o porto-riquenho escolhe uma faixa diferente para tocar, normalmente com um convidado local. No Chile, Mayores, com Becky G; na Argentina, THUNDER Y LIGHTNING, com Eladio Carrión, e Una Vez, com Mora. Aqui, mandou ver com Vete, e embora tenha especulado-se muito sobre quem seria o convidado especial, ele não existiu, o que causou certa decepção.

No encerramento da fase dois, depois de CAFé CON RON, a banda Los Pleneros de la Cresta, que está no feat da faixa original, tocou Mas, Que Nada!, de Jorge Ben, em mais uma homenagem à música e cultura brasileira, enquanto Benito se mudava de volta ao palco principal, para o terceiro e derradeiro ato — momento de canções predominantemente mais sentimentais, incluindo o megahit DtMF. A clubber El Apagón e o encerramento com EoO foram as exceções.

Para além da ausência do convidado brasileiro, houve quem sentisse falta de um teor mais político no show. No Chile, por exemplo, Bad Bunny e sua banda tocaram El derecho de vivir en paz, hino de resistência contra a ditadura de Pinochet. E LO QUE LE PASÓ A HAWAii [performada no Super Bowl por Ricky Martin], com sua letra anticolonialista, ficou de fora do espetáculo.

Mas talvez esse seja mesmo o jeitão do ícone de fazer política: apresentando sua cultura, reafirmando o orgulho por sua terra e nos mostrando que pode ser muito legal ser de onde somos. E, claro, excluindo os Estados Unidos da turnê.

A bem da verdade, para quem gosta de cultura pop, boa música e de presenciar a história sendo escrita, não faltou nada. Ou quase nada.

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Setlist do primeiro show de Bad Bunny no Brasil

Ato 1

  1. LA MuDANZA
  2. Callaíta
  3. PIToRRO DE COCO
  4. WELTiTA
  5. TURiSTA
  6. BAILE INoLVIDABLE
  7. NUEVAYoL

Ato 2

  1. VeLDÁ
  2. Tití me preguntó
  3. Neverita
  4. Si veo a tu mamá
  5. VOY A LLeVARTE PA PR
  6. Me porto bonito
  7. No me conoce
  8. Bichiyal
  9. Yo perreo sola
  10. Efecto
  11. Safaera
  12. Diles
  13. MONACO
  14. Vete
  15. CAFé CON RON
  16. Mas, Que Nada!

Ato 3

  1. Ojitos lindos
  2. La canción
  3. KLOuFRENS
  4. DÁKITI
  5. El apagón
  6. DtMF
  7. EoO

Flávio Lerner

https://flaviolerner.medium.com/

Editor-Chefe do Music Non Stop.