Casa Villarino Berço da Bossa Nova

O Dia da Bossa Nova. A música que colou o Brasil na crista da onda durante a era de ouro do Rio de Janeiro

Por Adriana Arakake

No dia em que nasceu Tom Jobim celebramos o Dia da Bossa nova, gênero que colocou o Brasil no hype mundial na década de sessenta.

Nossa colunista Adriana Arakake viaja no tempo e visita o Rio para celebrar o Dia da Bossa Nova.

“Lembro nitidamente a primeira vez que ouvi João Gilberto. Eu descia a rua Manuel da Nóbrega numa perua Dodge 51, verde com capota branca, modelo “saia e blusa”. Estava perto do Monumento às Bandeiras do Brecheret no Ibirapuera, quando escutei no rádio. Não acreditei, fiquei estático, no duro. Encostei o carro na guia pra escutar direto até o fim, sem perder nada.”

João Gilberto e Nara Leão foto: divulgação

É com esse pequeno trecho do livro escrito pelo grande Zuza Homem de Mello (Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto, Companhia das Letras), que inicio este texto em homenagem à Bossa Nova. Hoje, 25 de janeiro, é comemorado o Dia da Bossa Nova, a data foi instituída por ser o dia do nascimento de outro ícone, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maestro que em companhia de João e Vinícius, forma a trinca mais importante dessa onda que se ergueu no mar.

Não tenho nada de muito novo pra falar sobre o trio de ouro, ou sobre a Bossa Nova em si. Tanto já foi dito e escrito que eu vou aqui então comentar sobre as minhas impressões da época,  que vejo ensolarada, de quase inocência, de boemia, que para além do cheiro de whisky que exalava quando alguém levantava a tampa do piano de Jobim, estava a amizade, a risada, a alegria, as festas nas casas dos amigos pra ouvir, compor, viver música.

Foto: divulgação

De uma música cantada tarde da noite bem baixinho pra não incomodar os vizinhos e que se tornou reconhecida mundialmente. Eu poderia me ater a datas, ou discos que todo mundo já conhece, escrever palavras sisudas e técnicas, mas preferi aqui convidar a fechar os olhos e se imaginar em uma mesa do tradicional Veloso, observando Tom e Vinícius compondo Garota de Ipanema (originalmente chamada “Menina que passa“), entre um gole de chope e outro sob o sol do Rio; ou me transportar em pensamento para uma festa e ouvir uma moça se recusar a dançar twist respondendo “só danço samba” e isso virar – música.

Tom Jobim na praia em ceu nublado

Tom Jobim – foto: acervo Galeria Mario Cohen

O aroma de jazz que permeava o samba, nas canções que já tinham temas cotidianos de Johnny Alf, a voz já não tão empostada da cantora Nora Nei, coisas que vinham acontecendo há 10 anos e já convergiam para o que João Gilberto sintetizaria pra criar “a batidinha do João Gilberto”, como brinca Roberto Menescal. “Chega de Saudade” representa magistralmente a quebra com o samba canção, dono de uma melancolia que já não representava mais essa juventude sedenta de vida. Começando em desalento, a música tem quase um corte e na, segunda parte, se revela mais aberta, otimista “mas… se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda…” Aparece pela primeira vez no álbum Canção do Amor Demais (1958), de Eliseth Cardoso, um marco do que viria a ser conhecido como Bossa Nova e um ano depois, no álbum de estreia de João Gilberto (Chega de Saudade, Odeon, um dos discos que, na minha opinião, mudam a história da música).

Carnegie Hall com lotação esgotada, grandes jazzistas norte americanos esperando a chegada dos músicos brasileiros no aeroporto, os principais artistas da Bossa Nova, foram ovacionados e regravados pelos maiores músicos de jazz, entre eles Dizzy Gillespie, Ella Fitzgerald, Ramsey Lewis, Wes Montgomery, Charlie Byrd, Cannonball Adderley… A lista é interminável.

O ano é 1962, o Brasil entra na moda mundial e o faz pela porta da frente, através da arte, efervescente, o país do futebol de Garrincha e Pelé, do sol e do mar, também exibia maestria no cinema novo, na poesia concreta. A moderna e cobiçada Copacabana, das garotas que levavam biquínis na bolsa quando iam curtir a noite, no Beco das Garrafas, para ir de lá direto à praia e que já iniciavam a quebra do tabu da virgindade e da própria liberdade, começavam compor falando no feminino e do feminino.

O silêncio, importantíssimo na Bossa Nova, as mudanças inusitadas na harmonia de João, o canto falado, os acordes que giram em torno de uma só nota, a formação erudita de Jobim, que entrava na mata, dizia escutar músicas inteiras que a natureza lhe dava e só entrar em casa para escrevê-las; a poesia de Vinícius; Teresa da Praia; Orfeu da Conceição; Newton Mendonça; Billy Blanco; Marcos Valle; Nara Leão. Histórias, fico com as histórias, a da letra de Corcovado que era pra ser “um cigarro e um violão” e João Gilberto achou horrível e disse por favor, coloca “cantinho”; ou da relutância dele em gravar Desafinado, com receio de parecer admitir que desafinava é convencido por Jobim dessa maneira: Imagine a Ava Gardner cantando “Se você disser que eu sou feia, amor” alguém vai achá-la feia?

Isso pra mim é a Bossa Nova, casos de uma turma que “inventou” o curtir com os amigos, mudou o rumo da música, e principalmente uma sensação de brisa quente do mar batendo no corpo, em um belo verão carioca do começo dos anos 1960.

“…e o amor se faz
Num barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo desse mar, e o Sol”

*Pra comemorar a data, acontece em Santos-SP o Bossa Rio Santos Fest com várias atrações legais até 30 de janeiro, para maiores informações acesse: https://riosantosbossafest.com.br/

Esta coluna homenageia também a grande rainha Elza Soares, que viveu em luz, cantou o samba, MPB e a Bossa Nova com o coração, a alma e foi eleita a voz do milênio. Voa, Elza. Obrigada por sua passagem aqui e pelo presente que deixou pra nós, meros mortais, diante de sua imensa imortalidade.

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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