José Mauro Imagem: Reprodução

Quem é o único artista brasileiro na playlist de Thom Yorke, do Radiohead

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Conheça os fatos, os factoides e a música de José Mauro, cuja canção é ouvida pelo frontman da banda inglesa no aquece para os shows

No camarim, Thom Yorke, do Radiohead, tem o costume de escutar uma playlist personalizada para esquentar os tamborins antes de subir ao palco durante o retorno da banda à estrada em 2025, após sete anos hibernando. Como era de se esperar, a lista é tão esquisita quanto a própria vida artística do frontman. E na playlist divulgada, que vai de Leonard Cohen a Aphex Twin, o único brasileiro presente é ainda mais esquisito — José Mauro, com a canção As Aventuras Sentimentais de Espiroqueta Camargo.

Um artista que gravou dois discos, desapareceu, morreu três vezes, foi torturado pela Ditadura Militar e virou cult ao ser descoberto e reeditado pelos selos britânicos especializados em raridades. Uma parte disso é verdade. O resto é lenda urbana.

Ouvindo os seus dois álbuns clássicos, disputados a tapas por colecionadores brasileiros, europeus e principalmente japoneses, realmente é sedutor ceder a especulações sobre o porquê do cantor ter desaparecido após lançar o segundo, sem nem mesmo ter feito shows de divulgação, dado entrevistas ou qualquer outra aparição pública. Dá-lhe imaginação e boato.

“Morreu em acidente de moto”, diziam alguns. Tanto que, quando a britânica Far Out Records relançou seu primeiro álbum, Obnoxious, em 2016 (o original é de 1970), incluiu no material de divulgação que o ator já tinha partido dessa para a melhor. A mesma gravadora ainda relançaria seu segundo e derradeiro LP, A Viagem das Horas, de 1976, em 2021. Outros diziam que ele havia sido torturado e assassinado pela Ditadura Militar. Essas foram as duas supostas mortes do homem que, até 2024, passeava vivinho da Silva pelas ruas do Rio de Janeiro, onde morou e foi encontrado pelo pessoal da rádio Eldorado, já fã de seu trabalho.

A história real, menos romântica — o que não diminui em nada a qualidade incrível de seu trabalho —, é que seus dois discos foram bem pouco compreendidos à época. José Mauro, que cresceu no meio da música e não via ali nenhum deslumbre, ficou de saco cheio e seguiu nos bastidores. Moleque neto de maestro, foi aluno de violão de ninguém menos do que Wanda Sá, Baden Powell e Roberto Menescal.

Tentou dois álbuns — extremamente bem produzidos, com arranjos de orquestra e aquela vibe Tropicália — em um intervalo de seis anos, anormal para quem realmente estava tentando fazer sucesso na época, e, cansado do business, deixou a carreira de cantor de lado. Virou um professor de violão requisitado e chegou a compor algumas trilhas para o teatro.

Hoje um cult máximo, os álbuns de Mauro eram densos e sombrios, com orquestrações cinemáticas, similares às que Rogério Duprat deu aos discos da Tropicália na década anterior. Em 1970 e 1976, o público brasileiro já estava em outra, e a crítica também. Se na época pouca gente entendeu o que aqueles doidos tropicalistas comandados por Duprat estavam fazendo, nada mudou nos anos em que Mauro resolveu repetir a dose. O homem estava deslocado no espaço-tempo, apesar de genial.

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Hoje, com o distanciamento histórico, 1968 (auge da Tropicália) e 1970 (quando saiu Obnoxious) são praticamente o mesmo dia, mas na época, com a avalanche de lançamentos da era de ouro das vendas de discos, fazia muita diferença. Aparentemente sem frustração, o homem deixou essa briga de lado — a concorrência entre artistas também era pesada — e foi ensinar seus alunos, na sala de casa.

Como ele mesmo declarou, na época em que seus discos foram relançados (e se descobriu que estava vivo), “meu corpo me afastou da música, a saúde se tornou um obstáculo para mim”. O genial compositor de voz suave foi acometido pela Doença de Parkinson, e faleceu (de verdade) dia 16 de setembro de 2024, aos 76 anos.

Como bom gênio da música brasileira, segue vivo nas vitrines mais caras das lojas de discos, nas prateleiras mais amadas dos colecionadores e… no camarim de Thom Yorke.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.