2016 em 2026 Foto: Christopher Polk/Getty/Reprodução

2016 em 2026: eu ainda sei o que vocês ouviram na década passada

Estefani Medeiros
Por Estefani Medeiros

A partir da trend que resgata a nostalgia de 2016, Estefani Medeiros reflete sobre a cultura pop de dez anos atrás

Li esta semana que, até o fim de 2026, cem por cento dos millennials, nascidos entre 1981 e 1996, já terão trintado. Talvez venha daí a nostalgia extra da trend que revisita memórias pessoais, álbuns e hits de dez anos atrás. De fato, 2016 foi um ano especialmente produtivo para a música, o ápice até então da sua intersecção com a tecnologia. Uma década depois, os saltos que vieram a partir daí foram sem precedentes, e passamos por transformações profundas na forma como consumimos cultura.

2016 foi o ano em que a gente dançou pela primeira vez ao som de ANTI, da Rihanna, e passou semanas decifrando os easter eggs de Lemonade, da Beyoncé. Em São Paulo, entre a decadência e a gentrificação, a Rua Augusta ainda estava acesa, representando mais o passado do que o futuro.

Os stories do Instagram tinham acabado de nascer e ninguém sabia direito como usar. As fotos vinham carregadas de filtros, resolução estranha, enquadramentos experimentais e pouca autoconsciência. Entre as trilhas sonoras, One Dance, do Drake, se tornava a música mais ouvida do ano. Home office nem passava pela nossa cabeça, e talvez isso ajude a explicar o segundo lugar de Work nas paradas globais.

Na noite de São Paulo, festas como Mamba Negra, ODD, BATEKOO e Capslock se consolidavam como comunidades. Projetavam a cena eletrônica da cidade para o mundo em um novo formato, com o techno no auge — movimento que dez anos depois ajudaria a transformar a cena eletrônica em patrimônio cultural do estado. Também foi o ano de Gasolina, do Teto Preto, faixa que carregava a temperatura política de um país que passava pela tensão do impeachment, e seu desgaste coletivo. Foi uma temporada longa.

Com menos disputa por atenção, Spotify e YouTube concentravam a escuta, e os times das plataformas de música no geral apostavam mais em curadoria humana do que em lógica algorítmica. O foco no YT fazia com que as produções em vídeo fossem extensões narrativas dos discos, elaboradas para telas maiores. O TikTok ainda não existia, nem a lógica que ele viria a impor depois: o corte importa mais do que o contexto. 

Na TV, estávamos nos despedindo de Game of Thrones, e veio o auge das séries de cyberpunk/sci-fi com Black Mirror, Westworld e Mr. Robot. Rick and Morty não tinha passado pelo tribunal da internet, e Atlanta, de Donald Glover, apresentou uma nova estética de narrativa urbana. Na casa dos amigos, fazíamos encontros ao som de algum Tiny Desk.

O Guilherme Guedes relembrou em um Reels outros álbuns marcantes daquele período, como A Moon Shaped Pool, do Radiohead, e o primeiro álbum do BK’, Castelos e Ruínas. O hip-hop vivia uma safra fresca e vibrante. Entre meus favoritos, adiciono ainda o Galanga Livre, do Rincon Sapiência, 99.9%, do Kaytranada, e o feat poderoso de Travis Scott e Kendrick Lamar em Goosebumps. O Mac Miller estava vivo e tinha lançado Dang, um feat grooveado e leve com Anderson .Paak.

Em 2016, os produtores estavam voando. As assinaturas sonoras tinham peso. Artistas e DJs emprestavam estética, textura e identidade aos hits. Flume é um bom exemplo. Colaborou com Lorde, Disclosure e outros nomes, espalhando seu future-bass cheio de microexperimentações. Kevin Parker assinou a versão de Same Old Mistakes em ANTI, numa parceria improvável que soa aconchegante até hoje. Dez anos depois, o papel do produtor é diretamente desafiado. A Inteligência Artificial entra em cena enquanto a indústria discute direitos autorais, autoria e o valor da criatividade humana e da propriedade intelectual.

Na música eletrônica, os australianos do RÜFÜS DU SOL souberam surfar a lógica das playlists. Ainda que lançada um ano antes, Innerbloom foi catapultada em 16, virou hino do deep-house e se tornou ponto alto de grandes festivais. Falando neles, o Lollapalooza de 2016 trouxe ao Brasil nomes como Of Monsters and Men, Eminem e Mumford and Sons. Já em 2026, com a entrada definitiva da Gen Z e o momento atual do rap, faz sentido que o line-up traga Tyler, the Creator, Sabrina Carpenter e Doechii

A lista de comparações é grande, o mundo é outro. Mas algumas músicas seguem funcionando como cápsulas do tempo reconfortantes. É só curtir nossa playlist acima.

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Estefani Medeiros

Estefani Medeiros é jornalista e pesquisadora musical, especialista em cultura urbana, tendências, comunidades e tecnologia. Foi repórter do UOL e Rolling Stone, sempre acompanhada de uma página em branco e um fone de ouvido.