Daft Punk no Grammy 2014. Foto: Michael Kovac/WireImageAfinal, o quanto o Grammy entende sobre música eletrônica?
Analisando as idas e vindas do Grammy em suas categorias “Dance”, Jota Wagner conclui: falta reconhecimento aos verdadeiros heróis das pistas
Se o Grammy tivesse seu próprio dicionário, a definição de música eletrônica seria algo como “música com batidas programadas feita por artistas do pop, do rock e do rap, com alguns sintetizadores por cima. Faixas para tocar na ‘festa da firma’ ou em lojas de departamentos”. Isso explicaria um pouco a estranha seleção de indicados e vencedores que o maior prêmio da indústria da música apresenta todos os anos.

Em 2026, os principais vencedores das categorias relacionadas a “Dance/Eletronic” foram Tame Impala (sim, a banda de indie rock), FKA Twigs e Lady Gaga. Sem demérito algum aos premiados (EUSEXUA, de Twigs, ficou entre os nossos dez melhores álbuns de 2025), o que você se pergunta é: mas isso tá certo? Sua dúvida é pertinente porque, na real, nossas leitoras e leitores entendem muito mais do assunto do que a turma da Academia.
A definição do estilo se tornou tão fluida que não justificaria um apedrejamento público ao pessoal do Grammy. Há muito tempo, graças à ascensão da “verdadeira” música eletrônica ao grande público nos anos 2000 e a miríade de novas tecnologias digitais de produção, os recursos eletrônicos foram cooptados pela música pop.
Todo mundo usa batidas programadas, sintetizadores e um tantão de efeitos nas mixagens das obras. E é aí que os curadores do prêmio se perdem. Para eles, se saiu da fórmula baixo/guitarra/bateria, já é música eletrônica. Como essa barreira não existe mais em estúdio, natural que fiquem um tanto perdidos, dando preferência nas indicações a artistas de pop, rap e rock que dão uma “eletronicalizada” no seu som.

Esse é o lado bonzinho e compreensivo de ver a coisa. Mas há o lado malzão, mais crítico: no jazz, na música latina ou até brasileira, os caras sabem exatamente do que estão falando quando fazem suas indicações. Se o Tame Impala, por exemplo, colocar umas batidas quebradas e um trompete em uma de suas músicas, jamais será indicado como “Melhor Performance de Jazz”. Se meter um falsete na voz, não concorrerá com a turma do R&B.
Dance music, por própria definição semântica, é tudo o que é dançável, que faria remexer os quadris do povo em uma festa. Twist and Shout, dos Beatles, é dance music. I Mess Around, do Ray Charles, idem. Já no caso da eletrônica, em termos técnicos, seria vagamente possível classificá-la como “uma faixa produzida com elementos majoritariamente programados em equipamentos eletrônicos?”. Björk é música eletrônica? Justin Bieber? Beyoncé? O bagulho é loco.
Para resolver o problema, basta a turma do Grammy ler mais o Music Non Stop. E se a Academia fixasse como parâmetro que o gênero pertence a um movimento cultural, e não a um detalhe técnico? “‘Dance Music/Electronic’ premia artistas que cresceram e trabalham dentro da cultura das pistas de dança, das casas noturnas e dos DJs. Que respondem aos códigos da revolução cultural proposta pelos clubs.”

E se o prêmio se dedica à Meca da música pop, isso também não é um impedimento. Vários live acts e DJs se tornaram gigantescos dentro da indústria da música para as massas. Um dos maiores da atualidade, o brasileiro Alok jamais foi indicado (exceto na subdivisão latina, em 2025). Underworld nunca ganhou uma estatueta. Prodigy também não. O duo francês Air, que virou o planeta de ponta cabeça com seu Moon Safari, idem. Alguma dúvida de que foram os “maiores do mundo” em suas épocas áureas? Fatboy Slim, grande responsável pela massificação do gênero que nomeia a categoria, levou apenas um. Por um videoclipe.
Um tremendo problema
Sendo justos, não dá para dizer que o Grammy não vem tentando, ao longo da sua história, guardar os brinquedos em suas respectivas caixas. Quando o mundo caiu de quatro para a música eletrônica (essa, que a gente conhece), na década de 90, a Academia criou em 1998 a categoria “Best Dance Pop Recording” (“Melhor Gravação de Dance Pop”). Foram honestos.
Como a própria nomenclatura entregava, a ideia era dar um trofeuzinho para os artistas gigantescos que se arriscavam em faixas dançantes. A era ignorou quem fervia nas pistas de dança escuras, e celebrou quem usou a cultura para repaginar sua carreira. Até 2002, as vencedoras foram Donna Summer, Madonna, Cher, Baha Men e Janet Jackson.

Em 2003, pela primeira vez um duo de DJs furou a bolha, quando Dirty Vegas levou o caneco por seu hit Days Go By. Mas parou por aí. As vencedoras seguintes foram Kylie Minogue e Britney Spears. De positivo aqui, somente o fato das mulheres terem dominado o terreno.
Os produtores da cerimônia sacaram que estava faltando algo ali. A música eletrônica, ou dance music, era uma sensação mundial, dominando revoluções estéticas, lotando arenas, e muito mal representada em seu rolê anual. Tiveram a ideia de criar, somente em 2005, a categoria “Best Electronic/Dance Act” (“Melhor Performance de Dance/Eletrônica”), para premiar o show, a performance nascida e criada dentro da cultura dos DJs.
A partir daquele ano, e pela primeira vez, a turma que conhecia a matrix das pistas passou a ser reconhecida. Mas os curadores e jurados do Grammy têm uma coisa em seu DNA que os fazem ter alergia a nichos. A categoria começou premiando acts como Basement Jaxx e The Chemical Brothers, mas logo no terceiro ano, escorregou para Madonna — tudo bem, com um álbum 100% pista de dança, chamado Confessions on a Dance Floor. Mas poxa, é uma cantora pop! Nos anos seguintes, a categoria foi dando exposição a Daft Punk, Skrillex, Justice e vários outros.

Quando Aphex Twin ganhou um Grammy por melhor act em 2015 e Kraftwerk levou o mesmo prêmio em 2018 com seu 3D Catalogue, muita gente da cultura eletrônica pensou: “agora a gente tem uma categoria para chamar de nossa!”. Uma salinha escura dentro da cerimônia, com globo de espelhos girando no teto e luzes piscando, destinada a celebrar artistas intrinsecamente ligados a esse movimento cultural.
Mas o popwashing (inventei essa?) imperou. Novamente, a categoria foi descambando para artistas criados sob uma outra ótica, com uma outra função dentro da indústria musical, que sequestra as fórmulas certeiras da pista de dança para validar seus grandes projetos de dominação do circuito de grandes shows. E dá-lhe Beyoncé (2023) e Charli xcx (2025). Eles não se aguentam!
Atualmente, a régua para definir quem é indicado para a categoria voltou a ser flexível. Basta chamar um produtor mais antenado com a tendência atual das pistas, divulgar que seu álbum é mais “eletrônico” e, bingo, temos uma indicação!

Ah, eu quero ser raver!
Vivemos em uma época em que diversos artistas vêm declarando que querem ser vistos como pertencentes ao core da música eletrônica, e isso se reflete no Grammy. Charli xcx (com seu BRAT), Madonna (Confessions on a Dancefloor 2 está chegando aí), Lady Gaga, Billie Eilish e, lá atrás, Britney Spears (Toxic também levou um Grammy de “Melhor Gravação Dance/Eletrônica”) são exemplos de popstars que anunciaram aos quatro ventos que são do rolê.
Todo mundo quer ser raver em 2026. Novamente, não há o que se questionar sobre a qualidade dos trabalhos de cada um dos invasores. São fortes e entraram para a história do pop. Mas ao admitir a cooptação da linguagem, os nomes que inventaram a estética vão ficando para trás, perdendo para quem simplesmente as usa.
Um movimento cultural que inventou centenas de subgêneros, que trouxe ao mundo gênios como Juan Atkins, Larry Heard, Aphex Twin e Air, merecia mais acurácia, conhecimento e justiça cultural e histórica nas indicações. Assim como fazem com o jazz e o R&B.
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