Girls Rock Camp Brasil: Entenda por que um acampamento de rock pode mudar a vida da sua filha (neta, sobrinha, enteada…)

Por Claudia Assef

Música e empoderamento feminista para transformação social. É assim que se descreve, em sua bio no Instagram, o Girls Rock Camp Brasil, acampamento de rock voltado para meninas de 7 a 17 anos, que celebrou sua 10a edição em Sorocaba entre os dias 17 e 22 de janeiro.

Ousado demais falar em transformação social para um projeto que dura menos de uma semana e acontece uma vez ao ano? Acredite, não é exagero, não.

Primeiro vamos conhecer o conceito. O Camp foi criado em Portland, nos Estados Unidos, em 2001, e hoje acontece em mais de 40 cidades americanas, além de outras 20 espalhadas pelo mundo. A ideia é sempre a mesma, aonde quer que o Camp aconteça: aumentar a auto-estima e o protagonismo de meninas e adolescentes através da música, da arte e do pensamento crítico.

A atividade propõe uma aventura musical ao longo de seis dias. Para participar, as meninas não precisam ter experiência prévia com um instrumento. Aprender a tocar, formar uma banda, fazer uma composição inédita e apresentá-la num show ao vivo, para os pais, familiares, amigos e toda a comunidade, essa é a superação que o Girls Rock Camp propõe, e, de quebra, são ativados sentimentos como sororidade, empatia, auto-estima, amizade e muito mais.

Voluntária e campista durante aula prática de guitarra no Girls Rock Camp 2022. Foto: Divulgação GRC

No Brasil, o Camp se estabeleceu em 2013 em Sorocaba, interior de São Paulo, e tem à frente a musicista e socióloga Flavia Biggs, que durante a realização do acampamento tem o apoio de dezenas de voluntárias que se dividem entre aulas, organização das bandas e trabalho na cozinha (elas organizam com todo o cuidado e carinho a chegada das marmitas de todas as campistas, colocando etiquetas com nomes para depois, na hora do almoço e do lanche, entregar as comidinhas a cada pequena roqueira). As voluntárias que assumem o papel de organizar e apoiar as bandas no Girls Rock Camp são chamadas de “empresárias”.

Além de Sorocaba, há edições em outras duas cidades brasileiras, Porto Alegre e Curitiba, e também uma versão para adultas, o Ladies Rock Camp, que acontece em julho, também em Sorocaba.

COMO FUNCIONA?

Depois de um ano sem acontecer, por conta da pandemia, o Camp voltou com todos os cuidados e protocolos possíveis em janeiro, acolhendo um número menor de campistas (passou de cerca de 100 para 66 meninas e 45 voluntárias). “Todos os anos é maravilhoso fazer o GRC, mas, desta vez, devido a todos os desafios, incluindo a possibilidade de ele nem acontecer, foi mais especial ainda”, disse Flavia Biggs.

A socióloga e musicista Flavia Biggs, responsável pelo Girls Rock Camp no Brasil. Foto: Divulgação GRC

“Estávamos com medo, claro, mas encaramos as atividades da forma mais segura possível. Foi muito importante fazer o projeto sobretudo num contexto de pandemia, que acentua as desigualdades sociais. Foi uma superação a mais”, ela acredita.

Na prática, as meninas iniciam a semana na segunda-feira, às 9h, já de cara formando uma banda. Vecendo a timidez, procuram se entumar atraídas pelos cartazes com nomes fictícios de bandas que as voluntárias adultas carregam (um tem apelo mais punk, outro, mais fofinho, outro, mais geek e assim por diante). A partir da banda formada, elas seguem para as vivências; aulas de música (práticas e teóricas), defesa pessoal, noções sobre feminismo, serigrafia, fanzine, grafite, história das mulheres na música mundial, performance de palco e, acima de tudo, como criar vínculos e empatia com outras meninas. Praticar e viver a tal sororidade, palavra tão em alta hoje em dia.

As campistas Luna e Céu mostram camisetas de suas bandas, serigrafadas por elas. Foto Claudia Assef

Este ano, foram formadas 13 bandas, como nomes que as próprias campistas criam depois de algumas reuniões entre elas e suas empresárias. Dali saíram grupos como nomes como Thunder Force, Las Brujas, Eclipse, Power Rockers, Revolucionárias, Garotas do Futuro etc. Cada banda tinha um objetivo de compor uma música autoral, com letra, fazer a estampa e serigrafar a própria camiseta, criar o poster para divulgar o show, um fanzine e, claro, o ápice, se apresentar numa casa de shows diante de uma plateia de verdade.

 

Como de costume, o GRCBR 2021 rolou num espaço emprestado, uma escola pública de Sorocaba, com várias salas para as práticas e um amplo espaço ao ar livre. Assim como no resto do mundo, o evento é realizado no Brasil de forma independente e sem fins lucrativos. Pra se ter uma ideia do quanto ele é democrático, todas as meninas pagam uma taxa de inscrição no valor de R$ 475, que dá direito a todas as atividades do camp – exceto à comida, que deve ser trazida de casa diariamente ou paga à parte pelo valor de R$ 150 para a semana toda.

Mais uma manhã de empoderamento no Camp! Foto: Divulgação/GRC

“A música fez uma diferença total na minha vida, me formou como cidadã. Esse projeto traz a possibilidade de se enxergar da forma mais ampla, de ver seu potencial. Pode parecer algo simples, mas na verdade é aí que as potências surgem, através de uma vivência que seja transformadora e empoderadora, com várias meninas de diversos lugares, com diferentes histórias. É sobre superar o desafio de se conhecer, superar conflitos. É como se fosse um treinamento pra vida, enfrentar as dificuldades e também romper com o ciclo da violência. No Camp a gente não se cala, é um momento de energia muito intenso. É acreditar no poder transformador de cada uma de nós”, resume Flávia.

Crachá da empresária Ramona, que cuidou da banda Thunder Force

A empresária Ramona Regina Moura da Silva, que trabalhou com a banda Thunder Force, da qual minha filha Luna era tecladista, resumiu como foi para ela o trabalho voluntário no Camp. Fora do Camp ela é bordadeira e criadora da marca de Dona Ramona Patches.

Com certeza o que mais me motivou a voluntariar foi a oportunidade de incentivar meninas a descobrir suas potencialidades. Eu nunca tive nenhum tipo de incentivo artístico ou me senti valorizada quando criança. Quando soube do Camp vi a oportunidade de fazer alguma diferença. Na vida de algumas pelo menos. Com certeza vale a pena quando eu vejo o crescimento pessoal e a segurança delas quando entram no palco e arrasam. E elas mandam muito bem em apenas uma semana. Tem algumas que nunca tinham tocado instrumento algum. É lindo ver a transformação. A minha criança ferida interior se contempla. Eu fiquei arrepiada do começo ao fim no dia da apresentação

QUERO VIR TODO ANO

Céu, de 7 anos, aprendeu bateria e fez seu primeiro show no Girls Rock Camp 2022. O aprendizado e o calorzinho no coração também se estendem aos acompanhantes na aventura, normalmente pais e mães que se deslocam de outras cidades para passar uma semana em Sorocaba com suas filhas. Acompanhando a filha, o jornalista e DJ Camilo Rocha ficou tocado com a experiência. “O Girls Rock Camp é uma vivência muito estimulante pras meninas. Por meio da música, constrói autoconfiança e espírito de equipe. Não importa se sua filha pretende seguir uma carreira musical, o GRC é uma escola da vida”, disse.

Os pais da campista Céu, Camilo Rocha e Juliana Roberta, esperando a hora de ver a filha em ação no show de encerramento do GRC. Foto Claudia Assef

A mãe da nova baterista, a atriz e comediante Juliana Roberta, concorda. “Que experiência incrível pra minha filha: vivenciar por um semana um monte de mulheres foda comandado tudo. É feminismo e empoderamento na prática. Tudo feito com emoção, carinho, força e muita competência para que as crianças formem suas bandas, passando por todas as etapas de criação. A superação e a autoestima que as crianças adquirem nesse processo farão parte da vida delas”, resume a atriz.

Céu, de 7 anos, aprendeu bateria e fez seu primeiro show no Girls Rock Camp. Foto: Divulgação/GRC.

A própria Céu, de 7 anos, que nunca tinha tocado um instrumento, disse que quer voltar todo ano. “Eu gostei de fazer o fanzine, porque eu gosto de desenhar. Gostei do ensaio e também gostei quando a gente apresentou pras outras bandas antes do show. Na hora (do show) não fiquei nervosa. Vou querer todo ano. Daria nota 10!!! Eu também gostei de fazer o videoclipe, a minha empresária, Ellen, era bem legal”, disse a pequena baterista da banda Eclipse, que, apesar de estreante, surprendeu com boas viradas com as baquetas durante o show de encerramento.

EXPERIÊNCIAS DO GIRLS E LADIES ROCK CAMP

1. Aprender um instrumento (guitarra, baixo, bateira, teclado e voz)
2. Montar uma banda só de mulheres ♥
3. Fazer uma composição autoral inédita!
4. Tudo em meio a diversas oficinas de empoderamento feminino
5. Fazer um show ao vivo!

A cada final de tarde, as meninas voltavam para casa mais confiantes e mais entrosadas com as novas amigas. A expectativa para a apresentação final, que aconteceu no sábado (22), no Clube 28 de Setembro, em Sorocaba, só crescia. Os shows são uma espécie de trabalho de conclusão de curso, e a banca examinadora é composta por familiares e amigos das campistas, empolgadíssimos!

“Foi bem legal estar no palco com as minhas amigas, a minha banda fez uma música que misturava rock e rap”, disse Maia, minha filha de 9 anos que participava de seu segundo Girls Rock Camp. A sensação de alegria e alívio se nota nos rostinhos das meninas depois de deixarem o palco: elas se abraçam, pulam, vibram, fazem planos para o ano seguinte. Com certeza saem diferentes das meninas que entraram no acampamento na manhã de segunda-feira.

Logo depois do show, pegamos o carro para voltar pra São Paulo. Na minha cabeça revejo cenas da semana e escuto o hino do Girls Rock Camp, que todos os dias as garotas cantam junto com as voluntárias, emocionando os pais e mães que as esperam na saída. Com certeza já temos programa as férias de janeiro de 2023.

Conheça o hino do Girls Rock Camp Brasil

 

COMO AJUDAR

Ao longo de 10 anos de atividades, foram  formadas 85 bandas e mais de 500 campistas passaram pelo Girls Rock Camp Brasil. Desde 2019, o instituto mantém uma sede em Sorocaba para dar continuidade às oficinas de música ao longo do ano. Para isso, o instituto criou um esquema de financiamento coletivo mensal, com inuito de cobrir os custos de cerca de R$ 5.000, usados para pagar aluguel, contas fixas e manutenções estruturais. As atividades como oficinas de instrumentos musicais são mantidas ao longo do ano e são abertas a toda comunidade e idades.

Para se tornar um contruibuinte mensal do Girls Rock Camp basta entrar neste link e escolher o valor da contruibação. Atualmente, arrecadação tem ficado abaixo de R$ 2.000 mensais. Vamos fortalecer?

VEJA MAIS MOMENTOS DO GIRLS ROCK CAMP 2022

Claudia Assef

http://www.musicnonstop.com.br

Autora do único livro escrito no Brasil sobre a história do DJ e da cena eletrônica nacional, a jornalista e DJ Claudia Assef tomou contato com a música de pista ainda criança, por influência dos pais, um casal festeiro que não perdia noitadas nas discotecas que fervilhavam na São Paulo dos anos 70.

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