Fique por dentro do Berlin Atonal, o festival que definiu a Berlim que conhecemos hoje. E vai ter cobertura do MNS!

Por Amanda Foschini

O Berlin Atonal não é um festival de música. Nem uma rave. Nem uma maratona de dança. Nem nada que caberia em uma definição seca e estreita. O próprio nome do evento já dá a letra do que esperar: “atonal” se refere à uma nota desarmônica, fora do tom ou escala, que cria uma inesperada sensação sonora. Ou seja, o Berlin Atonal rompe com a “normalidade” (mas, afinal, o que é a normalidade mesmo?) para criar novos sons e explorar novas fronteiras audiovisuais. Estranheza é a palavra que vem à cabeça. Cadências nem sempre confortáveis ao princípio, mas que abrem novas portas e geram novas percepções. Música entendida – e sentida – de uma nova maneira.

O line-up do Atonal é feito por gente que entende de música que tem como missão passar sensações das mais diversas

A história do Atonal vem grudada no calcanhar da história de Berlim. Em 1982, a primeira edição do evento, realizada no mítico clube SO36 em Kreuzberg, reuniu a vanguarda da música experimental local (inclua aqui um jovem Depeche Mode e Einstürzende Neubauten) com suas inovadoras formas de expressão e fez a cidade olhar para si mesma de uma outra maneira. Ali nascia boa parte da Berlim plural e avant-garde que conhecemos hoje. O Atonal foi a seta que indicou para muita gente o caminho a seguir.

O festival continuou por 10 anos, e a chama acesa ali serviu de combustível para outro importante movimento cultural que redefiniria outra vez o panorama berlinense: a cena techno. Sintonizado com os desdobramentos culturais e impactado pela queda do muro, Dimitri Hegemann, fundador do Atonal, decidiu suspender o evento por tempo indeterminado para focar toda sua atenção em sua nova empreitada: o Tresor Club, hoje conhecido como um dos templos mundiais do techno.
 
PLAYLIST BERLIN ATONAL 2017



Corta para 2013. Vinte anos mais tarde, Dimitri decide retomar o Atonal em uma nova cidade que ecoava novos sons. Mas como reproduzir o conceito do festival de antes em uma Berlim que em nada lembrava a cidade de 20 anos atrás? Entendendo que o bichinho inquieto da inovação funcionava de outra maneira na atual geração, o criador do Atonal passou o bastão para Laurens von Oswald, Paulo Reachi e Harry Glass e deixou a curadoria da nova versão do festival nas mãos dos três jovens que têm hoje a mesma idade de Dimitri ao começar a escrever a história do festival lá em 1982.

O Berlin Atonal acontece no Kraftwerk Berlin, gigantesca usina de energia elétrica desativada

O novo Atonal ganhou nova cara e novo endereço: o Kraftwerk Berlin, uma antiga usina elétrica de 8 mil metros quadrados usada para abastecer a Berlim Oriental. A brutalidade e a rigidez da arquitetura do espaço são o cenário perfeito para um festival que desafia e questiona as barreiras musicais. A altura do vão interno e as colunas espalhadas por todos os lados propagam o som à sua maneira, com eco e impulsos próprios, como em uma catedral. O Kraftwerk Berlin é também objeto musical, e o Atonal não poderia existir sem ele. A reverberação do som nos diversos pontos da usina produzem diferentes sensações dependendo de onde você estiver. O som escapa por onde pode e percorre novos caminhos que só existem neste espaço.

O line-up do Atonal é um manifesto contra o mainstream e fazer o dever de casa é mandatório se a intenção é entender o que se passa ali dentro. As apresentações dos cinco dias de evento se dividem em lives, DJ sets, espetáculos audiovisuais e espetáculos comissionados pelo próprio festival. Os gêneros musicais também escapam aos rótulos e definições. Há a “rytual system music” do novo projeto audiovisual ALTAR, que será apresentado pela primeira vez pelos artistas Roly Porter e Paul Jebanasam, o “future basement jazz” do duo sueco Roll the Dice e as “mutated tribalistic patterns” do Pact Infernal. Cabe também piano, guitarras e até hip hop desde que a tônica seja sempre “quebrar padrões”.

A altura do vão interno e as colunas espalhadas por todos os lados propagam o som à sua maneira no Kraftwerk Berlin

O Atonal também honra a tradição da música eletrônica experimental sem cair na vala da nostalgia barata. A noite de abertura irá recriar a instalação sonora OKTOPHONIE, uma composição eletrônica criada em 1991 por Karlheinz Stockhausen. Na obra original, Stockhausen utilizou oito canais para reproduzir o som caótico da modernidade em três dimensões, envolvendo o público em um “cubo musical”. A nova versão do projeto será apresentada por Kathinka Pasveer, antiga colaboradora de Stockhausen.

Outra reverência ao passado será a reunião de alguns membros do BBC Radiophonic Workshop, grupo de compositores, músicos e engenheiros de som que, na década de 50, deram os primeiros passos da música eletrônica experimental. No campo audiovisual, Shackleton e Anika apresentarão o álbum Behind the Glass, em parceria com os artistas Strawalde e Pedro Maia. O produtor inglês Powell e o premiado fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans também irão apresentar pela primeira vez seu projeto A/V.

É difícil saber o que esperar de um festival que não quer se prender à nada além da exploração sonora em sua forma mais pura. Embarcamos para o Atonal em agosto para ver de perto de perto tudo isso e tentar contar tudo por aqui na volta.

O Atonal Berlin acontece entre os dias 16 e 20 de agosto e ainda há ingressos disponíveis. Veja o line-up que foi anunciado até agora – ainda tem mais nomes a serem revelados.

Main / Regis (live – world premiere)
Roly Porter + Paul Jebanasam present ALTAR (live – world premiere)
Powell + Wolfgang Tillmans (A/V – world premiere)
Shackleton + Anika present Behind the Glass with Strawalde + Pedro Maia (A/V – world premiere)
BBC Radiophonic Workshop (live – German premiere)
Pan Daijing presents Fist Piece (live – world premiere)
Mick Harris presents Fret (live – world premiere)
Roll The Dice (A/V – world premiere)
OKTOPHONIE: Karlheinz Stockhausen
Iancu Dimitrescu, “Piano High Energy” (live – world premiere)
Ana-Maria Avram, “KLAVIERUTOPIE” (live – world premiere)
Demdike Stare + Michael England (A/V – world premiere)
Emptyset (A/V)
Renick Bell + Fis (A/V – world premiere)
Damien Dubrovnik present Great Many Arrows (A/V – world premiere)
Puce Mary presents A Feast Before the Drought (live – world premiere)
Ena + Rashad Becker (Oktophonic – world premiere)
PYUR presents Oratorio for the Underworld (Oktophonic – world premiere)
Varg presents Nordic Flora (live – world premiere)
Pact Infernal (live – world premiere)
Anthony Linell + Kimberly Ihre (A/V – world premiere)
LCC with Pedro Maia (A/V – German premiere)
Inga Mauer (live – world premiere)
Abul Mogard (A/V – world premiere)
Pact Infernal (live – world premiere)
The Lefty (live – European premiere)
Killer Bong (live – European premiere)
Belief Defect (live – world premiere)
Lemna presents Sediment (live – world premiere)
Wolf Eyes (live)
Hypnobeat (live)
Belong play October Language (live)
Carla del Forno (live)
Broken English Club (live)
Crossing Avenue (live)
Equiknoxx (live)
Rob Lowe (live)
CoH (live)
Goner (live)
DJ Stingray
Trevor Jackson
Richard Fearless
Errorbeauty
Mark Reeder
Compuma
Yousuke Yukimatsu
DJ Yazi
Apeiron Crew
Anastasia Kristensen
JASSS
Iueke

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