Fernanda Abreu

Dez DJs entrevistam Fernanda Abreu, que lança disco de remixes para comemorar 30 anos de ótimos serviços ao pop

Por Jota Wagner

Fernanda Abreu lança disco com remixes de suas faixas mais dançantes remontadas por grandes nomes das pistas de dança, lugar que conhece como poucos.

Fernanda Abreu, ao deixar a banda Blitz para uma sólida carreira solo, apostou alto em seu disco de estreia, SLA Radical Dance Disco Club, de 1990. A artista bancou a dúvida da gravadora EMI, que não tinha muita certeza sobre o futuro para um álbum de dance music brasileira. “Não tinha (mercado), vamos inaugurar. Acredita que vai dar certo!”, disse Fernanda ao então diretor da gravadora, Jorge Davidson.

Apostou e ganhou. A partir de SLA, sigla de seu sobrenome Sampaio de Lacerda Abreu, Fernanda ganhou as rádios e as pistas dos clubs fazendo música para dançar fortemente temperada com os ritmos periféricos brasileiros.

Sua guinada para a carreira solo e para as pistas de dança, além de seu aniversário de 60 anos, são celebrados com um disco de remixes que traz interpretações de grandes nomes da dance music brasileira. De Gui Boratto a Meme, seu parceiro de sempre. De Bruno Be a Vintage Culture. O time é estrelado!

 

 

O Music Non Stop convidou dez DJs para uma homenagem em forma de entrevista colaborativa. Afinal, ninguém menos do que os maestros das pistas de dança para compreender e valorizar a importância de Fernanda Abreu para o pop dançante brazuca. Bora participar deste papo entre especialistas e pioneiros do boogie dance disco house nacional. Vem com a gente!

Fernanda Abreu

Fernanda Abreu – foto: Murilo Alvesso

DJ Marky

Eu lembro qdo minha irmã comprou o disco Sla Radical Dance Disco Club e assim que ouvi essa faixa, fiquei completamente alucinado, pois era exatamente o tipo de música que eu sempre amei (soul, funk, disco e breaks). Eu queria saber se foi sua ideia de escolher os samples e sua relação com o Soul a Funky Music (digo Ohio Players, Parliament Funkadelic, Earth Wind & Fire , James Brown….)

Fernanda Abreu – Eu também era apaixonada desde sempre por disco, funk, soul e hip hop e, quando comecei a produzir o primeiro disco “SLA Radical Dance Disco Club”, queria fazer um disco com todas essas referências. O instrumento “sampler”,  que vinha dentro de um teclado/sequencer, antes do AKAI, chegou no estúdio Nas Nuvens quando já estávamos mixando. Foi aí que voltei pro estúdio da EMI e, junto com Sergio Mekler (que também curtia essas referências), nos esbaldamos sampleando Parliament, KC, Michael Jackson, Kool an the Gang, Nenem Cherry, Prince, Madonna, Novos Baianos, Caetano, Gil e etc…

Vintage Culture

Como você se sente com essa nova geração de produtores e djs pegando sua música e transformando ela em algo novo e vendo pessoas que nem nascidas eram quando a música saiu curtindo ela agora?

Fernanda Abreu – Acho sensacional! Desde o início dos anos 90, diferentemente dos artistas que não curtiam ter suas músicas remixadas, eu sempre gostei. Nesses 30 anos de baile, acompanhei essa caminhada musical dos DJs que se tornaram, além de DJs de pistas, produtores dentro de estúdios. Tenho curiosidade de ouvir a contribuição musical que o DJ oferece quando cria um remix, que é uma versão que ele sente que vai funcionar na pista dele.

DJ Marlboro

Desde que começou a sua carreira, Como ela vê a transformação da música no mundo e como ela faz sua seleção de repertório dos próximos lançamentos em meio dessas transformações?

Fernanda Abreu – A transformação foi total e radical! E a maior de todas foi a transição da era analógica para a era digital. Tudo mudou. O jeito de produzir música (produção musical, os estúdios, os equipamentos), a divulgação, a difusão, a comercialização e o jeito do consumidor ouvir música. Como eu nunca fui de seguir padrões, não fico dentro de caixinhas na hora da criação e da produção. Quanto ao repertório, o artista também tem que se sentir totalmente livre de pressões para criar.

Eli Iwasa

Qual o segredo para continuar amando as pistas de dança depois de quase 40 anos de carreira?

Fernanda Abreu – Amar dançar!

Mari Olivetti

Fernanda, respeito muito sua sólida trajetória e desejo sucesso com o lançamento! Bem, posso dizer que o movimento funk no Brasil permeou todo o início da minha vida e de fato moldou minha personalidade musical. O funk carioca é nitidamente parte integrante do seu DNA também. Em que momento e através de quais influências você se conecta com ele?

Fernanda Abreu – Minha conexão com o Funk Carioca vem desde 1989. Desde que eu fui ao primeiro baile, fui totalmente impactada pelo grave, pelo beat, pela dança, pela massa dançando e pela verdade desse movimento autêntico, vigoroso e potente.

Meu interesse pelo Funk ultrapassa a questão musical. Vejo inventividade não só na música, mas também no comportamento, na dinâmica da linga e das gírias que revelam o dia a dia das favelas e periferias e que também são alvo de marginalização e criminalização. O pano de fundo do preconceito contra o Funk é o racismo estrutural.

Adriana Arakake

A ligação do pop com o hip hop e o funk era inédito no país, até que você decidiu juntar tudo na sua música. Como foi a reação inicial dos músicos à sua volta com esta mistura? Você sentiu resistência das pessoas?

Fernanda Abreu – Foi realmente um jeito diferente de fazer música pop dançante naquele momento. Passei a usar nas produções em estúdio baterias eletrônicas, sequencers, samples e programações. Mas sempre curti misturar com o som orgânico que os músicos apresentavam. Então acredito que essa mistura fez a galera entender que era possível misturar beat eletrônico com pandeiro, Bumbo de 808 com surdo de samba e etc…

fernanda abreu 30 anos de baile

Capa do disco 30 Anos de Baile

DJ Memê

Você se lembra do ponto de virada onde o Brasil deixou a “Fernandinha da Blitz” de lado para entender o novo trabalho?

Fernanda Abreu – Definitivamente foi com o lançamento do meu primeiro disco solo, “SLA Radical Dance Disco Club”. Como cheguei propondo algo totalmente diferente do que eu fazia na Blitz, a comunicação foi imediata. Até eu me surpreendi como a chave do público virou de cara. Um exemplo foi que, em nenhum show que fiz nesses 30 anos de carreira solo, me pediram pra cantar musicas da Blitz.

Benjamin Ferreira

A vinheta de abertura do seu primeiro disco solo, repleta de samples de clássicos da disco, era o prenúncio de uma carreira repleta de influências desse estilo. Essas influências sempre estiveram com você? Caso afirmativo, como foi lidar com elas na Blitz e nos anos 80, numa cena dominada pelo rock?

Fernanda Abreu – Sim! Eu sempre curti black music desde pequena porque sempre curti dançar. Nada se compara ao suingue da música negra. Comecei ouvindo Jackson Five, Stevie Wonder, Tim Maia, James Brown, samba e bossa nova através dos meus pais. Depois veio a Disco, depois o hip hop, depois R&B… Na era Disco eu gostava mesmo da vertente black da Disco, o que chamamos Disco-Funk com artistas como Cool and The Gang, Chic, Parliament, Rick James , Taste of Honey, Sister Sledge…

Mari Rossi

Gostaria de saber 3 músicas suas que você acha que mais te representam, e 4 que mais te influenciaram!

Fernanda Abreu – Difícil eleger 3. Vou com “Rio 40 graus”, “Garota Sangue Bom”, “Veneno da Lata”, “Katia Flavia”, “Baile da Pesada”, “A Noite” e “Você pra mim”.

Das influências também é difícil eleger quatro, mas vou de “I wanna be your lover “(Prince), “Got do Be Real” (Cherryl Lynn) , “Rock with you” (Michael Jackson), “September” (Earth Wind & Fire), “Sex Machine” (James Brown), “The message” (Grandmaster Flash), “Mais que nada” (Jorge Ben), Tim Maia Racional. E por aí vai…

DJ Maravilha

Fernanda, em todos esses anos de carreira ficou evidente como a música eletrônica e a disposição pro experimento influenciam sua obra. Sabemos também o quanto o mundo dos remixes caminha lado a lado com o universo da cultura DJ.  Como você percebe a relação desse universo com seu trabalho?

Fernanda Abreu – A conexão é total! Desde do meu primeiro disco, em 1990, essa cena da pista e do baile e claro, dos DJs, sempre estiveram ao meu lado. Sempre admirei a curiosidade musical dos DJs. Irem em busca de sons e musicas novas pra tocar na pista. E como eu sempre curti beats eletrônicos e a utilização de tecnologia na produção musical, com certeza essa linguagem nos aproximou.

Nana Torres

Como você vê a indústria da música que você trabalhou lá atrás, como enxergar o papel das mulheres atualmente e o que como uma das pioneiras acha que poderia fazer para ajudar inserir e mostrar o talento das mulheres no mercado?

Fernanda Abreu – As mulheres estão cada vez mais presentes, compondo, cantando, produzindo e tocando. Somos guerreiras e vamos à luta. É necessário aquele velho pé na porta porque o mundo da música ainda é majoritariamente masculino (produtores, engenheiros de som, iluminadores, empresários, executivos da indústria, agentes de show e etc…). Mas como em todos os setores da sociedade estamos cada vez mais fortes e presentes! O volume 2 do projeto “Fernanda Abreu 30 Anos de Baile” será um álbum de remixes produzidos apenas por mulheres.

 

Fernanda Abreu

Fernanda Abreu – foto: Murilo Alvesso

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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