Nick Cave

Esperança e atitude. Histórias de celebridades que estão fazendo a diferença na pandemia com atos de solidariedade e empatia

Por Jota Wagner

Grandes artistas e grandes exemplos. Reunimos histórias de celebridades que estão fazendo a diferença na pandemia com atitudes sublimes

Com ou sem pandemia, o feriado que envolve a Sexta- feira Santa, o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa traz um significado bastante metafórico –  explicado pela primeira vez pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel – escondido sob as reuniões familiares, o consumo de chocolate e até mesmo as celebrações nas igrejas.

Em sua dialética chamada Sexta-Feira Santa Teórica, Hegel discorre sobre o verdadeiro significado do feriado para a humanidade:  compreender que o ciclo de todos os seres vivos consiste em surgir a partir de um todo perfeito, conhecer o caos, evoluir e retornar a este universo primordial.

Conforme ficamos velhos contando aniversários, vamos colecionando pessoas em nossa vida cujas atitudes diárias nos fazem perceber que alguns tipos de pessoas entendem perfeitamente esta metáfora. Não só compreendem que de um todo vieram e a ele voltarão, como o fazem várias vezes na vida. Ou todo dia. Ou várias vezes ao dia.

Chegar, perceber o caos, evoluir, voltar.

A atitude deste tipo de pessoa, que com sorte vemos atravessar nossas vidas, parece mostrar que atingiram um nível de conhecimento das regras do jogo tão perfeito que a fazem não temer a morte, mas compreender seu porquê e a amá-la.  O sentido da vida, portanto, é saber que ela acaba. E recomeça. E tá tudo bem.

A existência deste tipo de ser humano fica clara, por exemplo, para quem teve o privilégio de ler a carta póstuma que Ennio Morricone deixou aos familiares. Escreveu seu próprio obituário junto com a exigência de um funeral discreto e simples. “Não quero incomodar”, escreveu com humor e leveza, no manuscrito que começava assim: “Ennio Morricone está morto. Anuncio a todos os amigos que sempre estiveram próximos de mim e também aos que estão um pouco distantes e os saúdo com muito carinho”.

Ao ter a clareza do quanto somos devedores e credores deste todo perfeito (você já entendeu que pode chamá-lo como quiser), certas pessoas também começam a perceber que o bem estar de todos são tão importantes quanto o seu, o da sua família, o do seu bairro, do seu planeta. Ou melhor dizendo, das famílias, bairros e planetas, pois nada é “seu”. E dessa compreensão vem a atitude.

Atitude de verdade, não o post lacrador ou o story exemplar.

Grandes celebridades são, além de exemplo (bom ou mau) para muita gente, também objetos de atenção constante. Suas vidas são acompanhadas de perto por fãs, haters, paparazzis, com a emoção de quem assiste a uma peça de teatro. Chegam a desejar alguma emoção, seja em forma de treta ou conquista, quando a história está muito chata.

Vivemos temos bem difíceis, e não só para os sonhadores. Lutamos a pior das guerras, pois fomos confrontados à nossa própria ignorância e egoísmo. Para nós brasileiros, que por vontade própria decidimos validá-las nas urnas, a barra ficou muito pesada. A mais dura do planeta.

Porém, há algumas formas de se nutrir com energia para se manter em pé. Uma delas é a de contemplar e reverenciar àquelas pessoas que praticam, que atuam, que fazem acontecer.

Para tirar nossas desculpas da frente, vamos falar primeiramente aqui neste feriado tão importante de gente que não precisou doar metade sua fortuna, ou criar uma fundação, ou bancar eventos beneficentes para mudar as coisas. Falamos gente que dedicou algo que eu e você temos: tempo.

E vamos combinar, numa pandemia de mais de um ano, tempo é o que não faltou.

Como a roda gira em torno da grana, também citaremos ao final quem usou seu tempo para juntar dinheiro emprestando sua inflûencia, ou até mesmo se desapegando de pares de tênis raríssimos, como fez o rapper Eminem.

A mão vermelha de Nick Cave

Nick Cave

Nick Cave – foto: reprodução Youtube

No final do ano passado contamos a história de Nick Cave e seu projeto The Red Hand Files. Sem shows para fazer por tempo indeterminado, o ídolo do rock alternativo mundial se dedicou a responder pessoalmente e à mão cartas com perguntas de fãs que chegavam de todo mundo. As publicou em um diário online. A qualidade das respostas, claro, segue o padrão Cave de sofisticação, elegância e uma sincera disponibilidade. Ao responder perguntas sobre a morte, a perda do filho de apenas 14 anos ou a libertação do vício em heroína, Nick afaga não só o coração de quem formulou a pergunta, mas de tantos outros leitores que passam por dificuldades análogas.  O ídolo australiano também faz parte do time dos católicos apostólicos agnósticos –  uma casta meio calabresa, meio mozarela que gera pensamentos deliciosamente produtivos – ao lado de nomes como Jack Kerouac, George Harrison ou Bob Dylan.

Big Beach Cafe

Entender o poder meditativo simples na lida com as tarefas mais básicas do ser humano, além de ser uma longa inspiração de Kerouac, foi o sinal enviado por Fatboy Slim. Dono de um café em seu bairro, o Big Beach Cafe em Hove Lagoon (Brighton – UK), decidiu manter os funcionários em casa durante os momentos mais duros da pandemia e botar a mão na massa ao lado dos filhos cozinhando, servindo o balcão de take away ou entregando na casa dos clientes.

Fatboy Slim

Fatboy Slim em seu café – foto: reprodução Instagram

Se Norman Cook (o Fatboy Slim) passar um café ou assar um muffin com a mesma qualidade com que mixa seus discos, certamente o Big Beach Cafe vai ganhar uma estrela Michelin. Sem contar que o Dj esbanja simpatia. Um verdadeiro “buena onda”.

Razões para acreditar

Por outro lado, David Byrne, ex líder do Talking Heads, parceiro de Brian Eno, compositor de primeira e até mesmo dançarino em sua super live feita para a TV britânica, resolveu fazer sua parte mexendo com os dedos no inconciente coletivo. Criou uma revista online que tem a missão de diminuir a divisão entre as pessoas, provocada pela crescente onda de polarização que resultou nos mais bizarros resultados de eleições da humanidade desde o pós primeira guerra.  A Reasons to be Cheerfull, é um dos braços do projeto colaborativo We Are Not Dividedum oásis de notícias de todo o mundo que transmitem esperança na raça humana.

Se futebol é arte, jogador é artista

Este editorial,  que começou usando o termo “artistas” na chamada, foi então alterado para “celebridades” que fazem a diferença graças ao exemplo do jogador de futebol egípcio Saad Samyr. Mas se futebol é arte para quem curte o esporte, então a celeuma está desfeita. Como se o lockdown já não fosse ruim o bastante, diversas regiões egípcias sofreram com inundações e tempestades. Sabendo disso, Samyr doou cestas básicas para as famílias necessitadas, mas não parou por aí. Tuitou a doação desafiando dois outros esportistas a fazerem o mesmo e então replicarem o desafio. A corrente do bem rendeu 450 mil dólares em alimentos doados.

Seu dinheiro de volta ou comida para quem precisa

Ao se deparar com o cancelamento de todos os shows de sua turnê, o Nine Inch Nales de Trent Reznor resolveu provocar a solidariedade dos fãs em vez de simplesmente devolver o dinheiro de todos os tickets vendidos (e eram muitos).  Propôs que o valor pago com os antecipados fossem entregues a instituições que entregavam comida a famílias em dificuldade devido à pandemia em cada cidade onde tocariam na turnê.  Se ainda assim o fã preferir o dinheiro de volta, bastava solicitar.

Nine Inch Nales

A cara é de mau mas o coração é enorme – foto: reprodução Youtube

Com isso, uma significativa quantidade de dinheiro, não revelada pela banda ou produtores, foi repassada à instituições locais. Em vez da barulheira eletrônica, o Nine Inch Nales entregou refeições.

Do restaurante para o morador de rua

Uma das ideias mais empáticas deste período foi a do Machie Gun Kelly. Colson Baker, nome real do rapper, decidiu doar 40 mil refeições para famílias necessitadas da área de Cleveland, sua terra natal, comprando-as diretamente de 12 restaurantes locais, que estavam fechados devido ao lockdown.  A atitude deu respiro aos empresários, aos empregados dos restaurantes e alimentou quem estava impedido de trabalhar devido à pandemia.

Exemplos de doações de insumos rolaram aos montes nestes tempos sombrios, mostrando que o conceito de “giving back” esteve presente em  muita gente no mundo da música. Madonna doou 100 mil máscaras para presidiários, Fka Twigs montou um fundo para ajudar prostitutas e outros profissionais do sexo que estavam impedidos de trabalhar durante a pandemia, Post Malone doou 40 mil máscaras para profissionais de saúde, o rapper Watsky juntou dinheiro para distribuir entre músicos, Duff McKagan, baixista do Guns’n’Roses, doou mil máscaras a hospitais americanos, Billy Ray Cyrus doou 20 mil máscaras para comunidades indígenas, Shakira doou respiradores e máscaras a hospitais colombianos. Eminem, além de rifar pares de tênis para angariar fundos para doação, distribuiu pratos de macarronada cozinhados por sua mãe para moradores de rua vizinhos.

No Brasil, artistas também deram o exemplo, compartilhando com suas comunidades o que tanto receberam como pagamento à seu trabalho artístico.  Kondzilla, por exemplo, doou mais de 10 toneladas de alimentos em regiões carentes de São Paulo. Xuxa Meneghel doou 1 milhão de reais para o SUS, nosso amado Sistema Único de Saúde,  Milton Nascimento direcionou a arrecadação de suas lives aos membros de sua equipe, cujos trabalhos foram cancelados, em exemplo seguido por diversos outros grandes artistas. João Gordo, líder da banda Ratos de Porão,  e sua esposa Vivi Torrico criaram o programa Solidariedade Vegana para entrega de refeições a moradores de rua em São Paulo. Começou com uma ideia de Vivi de distribuir o estoque do Central Panelaço, que ficaria fechado devido ao lockdown, e resultou em um dos esforços mais legais da cidade.

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Se mover, agir, doar. Devolver ao universo todo e perfeito algo que você realmente não vai levar quando voltar aos seus braços. Ou, voltando a citar Hegel, coisas que você não vai usar depois do Domingo de Páscoa. Que tal?

Que o Music Non Stop, ao compartilhar estes exemplos, aqueça os corações de quem estiver meio chateado com a raça humana. E que coisas simples, como dedicar seu tempo em trabalhos manuais que ajudem a outros (servir café, fazer uma macarronada e distribuir, ou se comunicar pessoalmente com gente que precisa ser ouvida), sirvam de inspiração para dar aquela movimentada fora das redes sociais.

Porque afinal, se você está lendo este editorial é porque já chegou, já conheceu o caos (que caos!!)  e está buscando fazer o melhor deste rolezinho chamado vida. Daqui a pouco vai voltar de onde veio: ao barro, à terra, às cinzas, ao paraíso, a outro planeta, ao mundo dos gatos… a escolha é sua. E tá tudo bem!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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