Mulheres pioneiras Foto: Reprodução

10 mulheres que moldaram o mundo das artes

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Neste Dia Internacional da Mulher, destacamos dez potências femininas responsáveis por criações primordiais da música, da pintura e do cinema

Hoje é dia de aula de história — principalmente para o machão que curte tirar onda na cabine de DJs de uma casa noturna badalada porque se acha mais preparado do que as mulheres que estão trabalhando do seu lado.

Muito botão que você está apertando foi desenvolvido por artistas e cientistas mulheres. Muita coisa que conhecemos nas artes não estaria aqui sem a sensibilidade feminina.

A Bienal de Artes de São Paulo, por exemplo, não existiria se não fosse a batalha da grande Yolanda Penteado, embora todos os créditos tenham sido dados ao marido Ciccillo Matarazzo (essa história, ainda vamos te contar em detalhes aqui no Music Non Stop).

Neste Dia Internacional da Mulher, preparamos mais uma revisão histórica para nossos leitores, colocando em evidência dez garotas que mandaram ver em suas áreas, em tempos em que eram obrigadas até mesmo (no caso de Chiquinha Gonzaga, por exemplo) a assinar suas criações com pseudônimos masculinos. Vem com a gente!

Daphne Oram (1925–2003)

Mulheres pioneiras

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Alô, produtores musicais e DJs! Sabem aquela onda gráfica que vocês veem no CDJ, com a representação musical dos sons de uma música? Foi a britânica Daphne Oram, conhecida como “a mulher que desenhou a música”, quem inventou. A técnica Oramics, desenvolvida por ela em 1959, se tornou padrão na indústria musical.

Compositora e estudiosa da música concreta, a Diva com “D” maiúsculo também é reconhecida por compor a primeira peça da história a combinar orquestra ao vivo com manipulação eletrônica em tempo real (1949).

Em 1971, mandou essa em seu livro An Individual Note of Music, Sound and Electronics: “Entraremos em um estranho mundo onde compositores irão se misturar com capacitores, computadores controlarão ritmos e, talvez, a memória, a música e o magnetismo nos levarão em direção à metafísica”.

Delia Derbyshire (1937–2001)

Mulheres pioneiras

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Também da prolífica turminha da música concreta na Inglaterra, Delia Derbyshire criou o primeiro tema de TV totalmente eletrônico da história, para a série Doctor Who.

Mais importante que a música em si foi o método: ela não usou sintetizadores prontos, mas técnicas pioneiras, manipulando e colando fitas magnéticas, gravando e processando sons individuais (como ondas senoidais e ruídos) para construir a melodia do zero.

Foi a primeira a provar que se podia criar uma orquestra inteira com sons eletrônicos, nota por nota.

Mary Hallock-Greenewalt (1871–1950)

Mulheres pioneiras

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Pianista e inventora, a libanesa Mary Hallock-Greenewalt criou o Nourathar (“essência da luz”), um sistema de música visual. Para viabilizá-lo, inventou e patenteou um reostato não linear que permitia variações suaves de intensidade luminosa em 267 níveis, algo inédito.

A patente foi tão fundamental que ela processou e venceu a General Electric por infringi-la. Além disso, produziu os mais antigos filmes pintados à mão de que se tem conhecimento, um precursor direto dos visualizadores de música. Tudo isso enquanto trabalhava como solista das sinfônicas da Filadélfia e Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Ada Lovelace (1815–1852)

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Clássico caso de filha de pai famoso ausente (o escritor Lord Byron, que largou a família quando ela tinha um mês de vida), Ada Lovelace não quis nem mesmo o sobrenome Byron. Aprofundou-se na matemática e publicou livros que estudavam desde algoritmos para serem usados por máquinas ainda não inventadas (ela viveu no século 18) até um estudo sobre a construção de asas postiças para seres humanos, inspiradas na anatomia dos pássaros.

Quando suas anotações sobre como usar a “máquina analítica” do amigo Charles Babbage foi republicada em 1953, a comunidade científica ficou de queixo caído. A mulher havia criado o primeiro programa de computador da história. Hoje, a londrina é o nome de um prêmio que incentiva prodígios femininos da computação. E uma linguagem de computador, ADA, foi batizada em sua homenagem.

O que isso tem a ver com a música? Tudo. Os softwares são a base da produção musical de hoje em dia, e seus estudos foram o girino do primeiro software de prudução musical inventado, também por uma mulher.

Laurie Spiegel (1945)

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Trabalhando com computação gráfica nos laboratórios da Bell, Laurie Spiegel criou o Music Mouse, o primeiro software de composição musical interativa.

Na década de 1970, nos laboratórios da empresa estadunidense, desenvolveu programas que permitiam aos compositores manipular algoritmos musicais em tempo real. Sua música Harmony of the Worlds (1977), uma adaptação de dados de Kepler, foi selecionada para ser incluída no Disco de Ouro da Voyager, tornando-a uma das pouquíssimas artistas com uma mensagem musical representando a humanidade no espaço.

Vovó Moses (1860–1961)

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Em 1938, um colecionador de arte entrou em uma farmácia na pequena Hoosick Falls (NYC, EUA) e se impressionou com uns quadrinhos muito bem-pintados de paisagens rurais estadunidenses. Comprou todos por cerca de cinco dólares cada, pegou o endereço da artista e foi até sua casa, encontrando Anna Mary Robertson Moses — uma senhora com artrite que, após ter criado dez filhos, começou a pintar aos 78 anos porque “era mais fácil do que assar bolo em forno quente”, dadas as suas limitações físicas.

No ano seguinte, a Vovó Moses estava exibindo sua coleção no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Foi a primeira de muitas, com direito a capa da Time Magazine e um quadro vendido em leilão na Christie’s por mais de um milhão de dólares.

A artrite fez com que Moses desenvolvesse um estilo único para pintar. Em seu obtuário, o New York Times mandou essa: “Ela era capaz de capturar a alegria da primeira neve de inverno, dos almoços preparados no Dia de Ação de Graças e dos primeiros verdes da primavera”.

Chiquinha Gonzaga (1847–1935)

Chiquinha Gonzaga é a autora da primeira marchinha de Carnaval

Chiquinha Gonzaga. Foto: Arcervo Edinha Diniz/Divulgação

Essa não podia ficar de fora da nossa lista. Compositora, pianista e maestrina, Chiquinha Gonzaga foi a primeira maestrina brasileira de todos os tempos. Em 1884, regeu a opereta A Corte na Roça, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.

Além disso, compôs Ó Abre Alas (1899), considerada a primeira marchinha carnavalesca da história. Sua obra dialoga com ritmos populares brasileiros numa época em que a música erudita europeia dominava os salões. A artista carioca também foi pioneira na luta por direitos autorais no país.

Anita Malfatti (1889–1964)

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Pintora paulistana, Anita Malfatti foi a primeira artista a introduzir no Brasil as linguagens do expressionismo e das vanguardas europeias. Sua exposição de 1917, em São Paulo, é considerada um marco precursor da Semana de Arte Moderna de 1922, chocando o público conservador da época com suas pinceladas expressionistas e figuras distorcidas.

Ela foi essencial para a renovação das artes plásticas no país, abrindo espaço para o ascenção de uma outra brasileira incrível, que é…

Tarsila do Amaral (1886–1973)

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Tarsila do Amaral foi a criadora do movimento Antropofágico ao lado dos escritores Oswald de Andrade e Raul Bopp. Sua famosa tela Abaporu (1928) deu origem ao movimento, propondo uma primeira síntese teórica e estética entre as vanguardas europeias e a cultura brasileira.

Natural de Capivari/SP, Tarsila foi pioneira ao desenvolver uma linguagem visual que “devorava” influências externas para criar algo genuinamente nacional.

Carmen Santos (1904–1952)

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A primeira grande produtora de cinema do Brasil, a Vita Filmes, só saiu do papel graças ao trabalho da atriz e produtora Maria do Carmo Santos Gonçalves, ou simplesmente Carmen Santos. A portuguesa veio ao Brasil criança, e se estabeleceu também como uma das primeiras roteiristas e diretoras da indústria cinematográfica brasileira.

A Fox Filmes, depois rebatizada de Vita, foi responsável pela produção de inúmeras obras do cinema mudo, e foi crucial para o desenvolvimento dos filmes falados no país.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.