Chic Show Jorge Ben se apresentando no clube do Palmeiras pela Chic Show. Foto: Divulgação

A magnitude dos bailes black: DJs da Chic Show falam das conquistas e traumas dos tempos de ouro

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Duas das atrações da festa de 50 anos da Chic Show, Grandmaster Ney e DJ Luciano conversam com o Music Non Stop

No próximo sábado, dia 13 de julho, Grandmaster Ney subirá ao palco da festa de aniversário de 50 anos da Chic Show, no Allianz Parque, ao lado dos colegas Luciano Rocha (DJ Luciano), Preto Faria e DJ Puff, além de uma escalação estelar de artistas internacionais. Há tempos um dos mais importantes nomes da discotecagem brasileira, Ney vai dar de cara com tudo o que ajudou a construir e, principalmente, transformar, durante cinco décadas. A sociedade brasileira deve muito à Chic Show e ao movimento dos bailes black.

“Na hora em que eu tocar a primeira música, que foi da época dos bailes no Palmeiras, e a galera reagir… não sei como vai ser. Não sei como o coração vai ficar. Vai ser muito emocionante. Voltar em um festival dessa magnitude, naquele mesmo lugar…” — divaga Grandmaster Ney ao Music Non Stop. “Estou pronto. Só falta ajeitar o traje, fazer a barba e cortar o cabelo.”

O DJ é bom de oratória. Fala com serenidade de príncipe africano, ritmo necessário para enfileirar uma coleção de histórias quase tão grande quando a de discos. Mais do que ninguém, tem nos olhos a porta da alma. É por ali que expressa as alegrias e traumas de uma vida dedicada à música e ao movimento black.

Traumas de uma luta brava. Meu estômago embrulhou ao ouvir os casos de repressão policial e racismo que ele testemunhou. Momentos em que a polícia tinha como plano ação apenas um propósito: acabar com a autoestima dos negros, no caminho para os bailes para que tanto se preparavam no final de semana.

Grandmaster Ney

Grandmaster Ney. Foto: Divulgação

“No auge do movimento soul, imagine… Você pega um ônibus com um grupo de pessoas com cabelo grande, calça pizza, sapato plataforma e camisa colorida. Quem via aquilo ficava em choque. Tinha gente que descia do ônibus, ia num orelhão e ligava para a polícia, que aparecia na hora para nos revistar. O tático móvel cercava o ônibus e tínhamos que descer e passar por uma revista humilhante”, prossegue.

“Me lembro de um evento que fui com uns seis amigos, na Atlética São Paulo. Um amigo meu, Rogério, tinha um bom emprego em agência de turismo. Ganhava bem e eu lembro que, naquele evento, ele comprou uma roupa toda branca (a gente queria andar que nem os americanos). Perto do Clube de Regatas Tietê, fizeram a gente descer do ônibus, o tempo estava de garoa, meio nublado.”

“O policial do Tático Móvel olhou para o cara de branco e se apegou nisso. Nos fizeram deitar no chão, e o Rogério, em cima de uma poça d’água, com a roupa branca. Deitado ao seu lado, eu olhava para a cara dele e via a lágrima correndo”.

Rogério desistiu do baile para que tanto se preparou e decidiu voltar para a casa. Os amigos, em solidariedade, voltaram também. Como o ônibus em que foram abordados era o último, retornaram a pé da Ponte Pequena até o topo da Nova Cantareira, no Tucuruvi.

O caso não foi, nem de longe, o único. A galera dos bailes passava por isso o tempo todo, vítima de uma tática muito clara. Desde que o movimento black power floresceu nos Estados Unidos, a estética visual era uma forma de expressão e de orgulho. Um deslocamento proposital da moda dos brancos.

“Antes do movimento soul, para ir a um baile black, as pessoas tinham de se vestir como os brancos. Terno, saia abaixo do joelho. Os homens tinham que usar uma meia na cabeça para secar liso, as mulheres tinha de secar o cabelo com ferro quente, para alisar também. Era uma repressão fora de série. Eles faziam de tudo para minar o movimento.”

Luciano Rocha, que entrou no movimento dos bailes e na Chic Show no final da década de 80, faz um adendo alarmante: a situação não mudou. “A repressão, o enquadro, sempre vão acontecer porque tem uns pretos juntos. É complicado. Mesmo nesta época, em que essas coisas têm um pouco mais de visibilidade… Sempre foi muito difícil, nunca teve boi e até hoje não tem. A diferença é que hoje o cara filma e todo mundo vê e fala: ‘olha que racista filha da puta!’. Quantos não passaram por isso antigamente e não tinha nem como registrar?”

DJ Luciano Rocha

Luciano Rocha. Foto: Divulgação

Grandmaster Ney viu o tio ser preso na porta da sua casa, voltando de um quitanda com um saco de limões na mão. O enquadro foi tão desproposital e desproporcional, que o tio perdeu a cabeça e agrediu o policial. Desapareceu nos porões do DEIC por 15 dias, e só foi resgatado com vida porque, graças aos bailes que fazia por toda a cidade, a família conseguiu chegar a pessoas influentes, que interviriam em sua prisão.

A ideia, clara, era impedir que o negro se destacasse. “O que fizeram com o Wilson Simonal foi horroroso. ‘Não podemos deixar esse negão crescer'”, conta Ney, sobre a perseguição que o astro sofreu depois que começou a divulgar o movimento black power e líderes como Martin Luther King.

Os DJs que estarão brilhando na celebração da Chic Show entraram no mundo dos bailes graças às sua famílias. Luciano, pivetinho, já circulava pelo Palmeiras. O pai era ritmista da escola de samba Camisa Verde e Branco. Lá pelos 11 anos de idade, dava rolê com os fundadores da Chic Show, os irmãos Luizão e Kitão, pelos escritórios e programas de rádio da equipe. Com a devida permissão da mãe, claro. Seguro nas palavras e no som, o cara é responsável pela conexão da equipe com as novas gerações, que continua chegando junto e mantendo a Chic Show viva.

Grandmaster Ney é sobrinho-neto de Osvaldo Pereira, primeiro DJ do Brasil e fundador da Orquestra Invisível. Mas sua grande referência, mesmo, é o tio: o DJ e baileiro Zé Carlinhos Vitrola, um dos mais importantes do estado de São Paulo na virada dos anos 70. Vitrola nos deixou cedo, aos 26 anos, graças à tuberculose. Mas não antes de se tornar influência confessa para Luizão.

“Eu já estava inserido na cultura dos bailes por causa do meu tio”, segue Ney. “Mas a galera dele era do jazz, da bossa nova e do sambalanço (que conhecemos como samba rock). Porém, o acervo musical dele era imenso. O que mais me agradava eram os discos de soul music. Ottis Redding, Aretha Franklin, Al Green… Eu já era um garoto muito ligado na cultura soul”.

Após o falecimento do tio, Ney conheceu uma galera que frequentava os bailes. “Era tudo o que eu queria ouvir e dançar.”

A Chic Show foi uma verdadeira faculdade cultural para o jovem negro de São Paulo. E dá para dizer que Grandmaster Ney é pós-graduado. Começou como frequentador, depois montou o grupo de dança Soul Black Thing, em que passou a ser dançarino, e, anos depois, frequentava os escritórios da Chic Show e de outras equipes de baile vendendo discos, ao lado dos amigos Porquinho e Fábio Macari.

Antes de ser “comprado” pela Chic — sim, as equipes compravam os “passes” dos DJs, em esquema parecido com os times de futebol, e com isso, atraíam parte do seu público fiel —, Ney passou passou por algumas das mais importantes equipes de baile da cidade, como a Black Mad e a Kaskatas. Foi o primeiro a apurar as técnicas de mixagem no soul e a inserir a cultura nas discotecagens. Chamou a atenção.

Chegava a tocar cinco vezes por semana, em bailes que batiam três mil pessoas. Já era um dos grandes nomes da noite paulistana quando Luizão botou na cabeça que teria de levar o cara para sua equipe. Fez uma proposta em que dobrava o cachê da rival. Antes disso, ligou diretamente para a mãe de Ney, avisando: “fala para ele não recusar que é coisa boa!”. Quando Grandmaster Ney chegou em casa de madrugada, depois de animar mais um baile da Kaskatas no ABC, a família toda estava acordada, aguardando-o para passar o recado de Luizão e botar ordem na cabeça do DJ. Ele teria de aceitar o convite.

Chic Show

Luizão e Jimmy Bo Horne. Foto: Divulgação

Com Luciano, a coisa foi mais orgânica. O DJ, hoje com 46 anos, nem se lembra direito de como começou a tocar oficialmente na Chic Show. Afinal, já ficava perambulando pelos bastidores da festa desde criança. O que ficou para a história é que de lá nunca mais saiu. Em suas palavras, Rocha mostra reverência e fidelidade à equipe que o formou.

“Eu morava literalmente na esquina do Clube da Cidade [outra casa lendária pra o movimento black paulistano, localizada na Barra Funda]. Quando a porta do baile se abria, o pessoal conhecia meu pai, minha mãe… Quando eu me entendi lá dentro, já era uma coisa muito grandiosa.”

Conversando com os dois, começamos a entender os segredos do sucesso daquela equipe de baile, que se descolou das outras graças à visão do seu criador, Luizão. Uma produtora independente e marginal que, já na década de 70, teve coragem e cacife para trazer nomes como Jimmy Bo Horne, Earth, Wind & Fire e James Brown.

“Quando cheguei para o show do James Brown, em 1978, os portões do Palmeiras já estavam fechados, com a Tropa de Choque na frente. A confusão foi tanta que todos os botões da minha camisa arrebentados e o cabelo black todo amassado. Quando consegui entrar, empurrado pela galera que arrebentou os portões, minhas irmãs (que andavam com itens de costura na bolsa) tiveram que consertar minha camisa e arrumar meu cabelo, para poder dançar”, conta Ney que, dez anos depois, na volta de James Brown ao Brasil, discotecou na abertura do show.

Chic Show

James Brown se apresentando no clube do Palmeiras pela Chic Show. Foto: Divulgação

As sacadas da Chic Show não pararam por ai. A equipe soube usar o poder das rádios a seu favor, agigantando sua marca. Programas como o Black in Love trouxeram respeito e repercussão nacional à equipe e seus DJs. Davam picos de audiência e giravam um roda em que os programas divulgavam os bailes. E os bailes bombavam os programas.

A visão aguçada de Luizão também foi responsável, ao lado de outras importantes equipes de baile da cidade, pela ascensão de outro movimento musical negro e periférico de São Paulo — o do pagode. O chefão da Chic Show sempre esteve de olho no samba, e incluiu o gênero em seus programas de rádio. Assim como os DJs, as equipes tinham seus grupos prediletos. Graças aos bailes, bandas como Exaltasamba e Negritude Júnior viraram febre nacional.

A rivalidade entre as equipes de baile que se formaram desde os anos 70 torna a história da Chic Show e suas coirmãs ainda mais incrível. Em uma época em que a única forma de se obter uma música era através dos discos de vinil, o garimpo das melhores músicas era imprescindível. Ao descolar uma cópia exclusiva, um determinado hit só poderia ser ouvido nos bailes da equipe que o possuía. As melhores músicas se tornavam um segredo guardado a quatro chaves. Afinal, se o rival soubesse qual o nome do artista e do som, poderia correr atrás de uma importadora e descolar uma cópia.

Graças ao imenso valor que o repertório passou a ter em uma festa, as equipes compravam e mantinham suas coleções de vinil, e não os DJs, como é comum hoje em dia. Ney saía na frente. Como vendia discos para todas, tinha acesso prioritário ao que chegava no Brasil. E, claro, as melhores ficavam na equipe de baile em que trabalhava. “DJs como o Kitão e Natanel, da Chic Show, ditavam os sucessos da época e era isso o que eu também queria fazer.”

Chic Show

Foto: Acervo Chic Show

Sempre atrelada ao movimento negro, aquela onda se tornou gigantesca entre os anos 70 e 80, a ponto de haver festivais de equipes de som com bailes que reuniam vários times diferentes, inclusive recebendo o pessoal de outra cidades, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.

“Hoje fala-se do hip-hop e do funk carioca, mas o movimento soul foi o mais abrangente da cultura black no Brasil, e quiçá no mundo. Era um grito de libertação, não só com a cultura da música, mas visual também” — Grandmaster Ney.

“Naquela época, os festivais de equipe reuniam o pessoal do Rio de Janeiro, como a Grand Prix, Cash Box e Furacão 2000. Black Minas, de Belo Horizonte… As equipes não só vinham para cá, como o pessoal de São Paulo também ia para outras cidades. E o bacana é que cada grupo trazia o seu sistema de som. Eram carretas viajando, cheias de caixas de som. Em cada canto do salão, montava-se um P.A.”, continua.

É tanta história, mas tanta história reunida, que até o Metrô São Bento, berço da cultura hip-hop brasileira, entrou na festa. Na estação, a empresa vai vender ingressos com desconto para seus frequentadores chegarem na edição de 50 anos da Chic Show. Em cinco décadas, várias gerações já passaram pelos rolês. Luciano tem plena consciência disso:

“Nos anos 90, teve uma geração que ferveu muito. E muita gente dessa época vai estar lá para curtir no sábado. Muitas músicas e muitos shows tiveram uma importância muito grande, e essas músicas vão ser ouvidas na festa de aniversário. Vai ter uma mistura muito louca, de gente que ouvias as músicas lá de trás, com fãs da Lauryn Hill, de Kendrick Lamar…”.

Em seu line-up no mesmo Palmeiras — não mais o clube social, mas o atual estádio do time —, a festa terá ninguém menos do que Lauryn Hill, Wyclef Jean, YG Marley e a volta de Bo Horne, além de Mano Brown, Criolo, Rael, Sandra Sá e, é claro, os três DJs da Chic Show. Coisa grande. Gigante.

O que veremos no Allianz Parque neste sábado será muito mais do que uma celebração de 50 anos de vida (por si só, grandiosa). Será um encontro, um reencontro e um manifesto de tudo o que o movimento dos bailes black proporcionou e transformou na cultura brasileira.

Serviço

Chic Show 50 anos

Data: 13 de julho de 2024 [sábado]
Horário: A partir das 13h45 [abertura dos portões: 11h]
Local: Allianz Parque: Avenida Francisco Matarazzo, 1705 – Água Branca, São Paulo/SP
Atrações: Lauryn Hill, Wyclef Jean, YG Marley, Mano Brown, Criolo, Jimmy “Bo” Horne, Rael, Sandra Sá, DJ Luciano, DJ Preto Faria, DJ Grandmaster Ney e DJ Puff
Ingressos: Via Tickets On

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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