Beck - Odelay Imagem: Reprodução

“Odelay”, o álbum que renovou o rock alternativo, faz 30 anos

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Misturando rock, rap e folk, segundo álbum de Beck projetou o músico como um dos maiores de sua geração

Dia 18 de junho de 1996, a então nova sensação do rock alternativo, Beck, estava com o coração na boca. Ainda não sabia que, em poucas semanas, seu segundo álbum, Odelay, se tornaria em um diamante na boca dos críticos, um sucesso de público e em um dos mais importantes discos da década, renovando a estética do rock alternativo estadunidense.

A obra transformou um garoto que era uma promessa em um artista amado, um dos maiores de sua geração, ajudando a roubar alguns holofotes do cenário grunge que ainda dominava o país naquele momento.

Quando lançou seu álbum de estreia, Mellow Gold, em 1994, o grunge estava no auge de sua popularidade nos Estados Unidos. Dá-lhe melancolia, tristeza e desilusão. Mas o mano era da Califórnia e não fugiu às suas raízes. Lançou um trabalho independente, obscuro e muito experimental, mas que tinha três faixas com uma pegada um pouco mais palatáveis: as dançantes e festeiras Loser e Beer Can, e a balada loucaça Pay No Mind.

A primeira foi um sucesso estrondoso e inesperado na carreira de Beck. Ficou em primeiro lugar na parada Modern Rock Tracks (atual Alternative Airplay) e em décimo lugar no Billboard Hot 100, além de bater cartão em diversas outras listas internacionais.

Um presente e um fardo. A partir dali, todo mundo esperava muito daquele garoto. Sua gravadora, a Geffen, queria um segundo disco para fincá-lo no topo do rock alternativo. Pressionado, o cara chegou a gravar um LP seguindo a mesma linha, mas que depois de pronto, ficou na gaveta. Chamar-se-ia Beck and the Black Velvet Underground. Ficou conhecido pelos fãs como “o disco perdido”.

O próprio artista não gostou do resultado. “Eu estava totalmente quebrado. Não conseguia escrever nada que não soasse como uma tentativa frustrada de repetir Loser”, contou à revista Spin em 1996.

Salvo por Nova Iorque e pelos Beastie Boys

Odelay chegou às lojas chocando todo mundo pela sua qualidade, e trouxe na mochila um pacote de hits que se tornaram eternos nas festas alternativas: Devil’s Haircut, Lord Only Knows, The New Pollution, Novacane, Jack-Ass, Where It’s At… Pelo menos metade era puro sucesso.

Festeiro, divertido, ainda experimental, mas pop. Consumível em meio à barulheira de estúdio que se tornou sua característica no início da carreira. Uma mistura de folk, hip-hop e rock de garagem. E os elementos que salvaram a vida de Beck estavam do outro lado do país, em Nova Iorque.

Em 1989, o músico entrou num ônibus para Nova Iorque com apenas oito dólares no bolso e um violão. Chegou na Big Apple no mesmo ano em que os Beastie Boys lançaram o icônico Paul’s Boutique. Retornou em 1991 para sua cidade natal, ainda mais pobre do que quando partiu. Mas valeu a pena.

Quando precisava de uma saída para a composição de seu segundo álbum, o garoto se lembrou de John King e Mike Simpson, os Dust Brothers, dupla responsável pela muralha sonora de Paul’s Boutique. Após compartilhar seus dramas, soube que eles tinham dezenas de batidas prontas, originalmente pensadas para um projeto próprio.

Beck ouviu o material e propôs uma parceria diferente: “Em vez de eu trazer canções prontas, vamos construir as músicas em cima desses beats”, como relembrou Simpson em entrevista à Rolling StoneAs sessões, realizadas entre o estúdio caseiro da dupla em Glendale, The Bomb Shelter, e o Conway Studios, foram um laboratório de bricolagem sonora.

O cantor e compositor improvisava letras e melodias sobre colagens de samples que iam de discos educativos dos anos 1970 a raridades de soul, samba e rock de garagem. O processo era tão livre que muitas faixas nasceram em questão de horas. “A gente gravava vocais com ele sentado no chão, comendo cereal”, disse King ao The Guardian em 2016.

Deu muito certo, e a influência do álbum mais celebrado dos Beastie Boys é claramente reconhecível em Odelay, embora este tenha trilhado um caminho diferente. O artista assumiu sua veia pop e se tornou um baita de um frontman. Sua apresentação icônica no MTV VMA em 1997 é uma prova do que Odelay fez com Beck, e do que Beck fez com a gente, a partir dali.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.