Beatles Foto: Don Paulsen/Getty/Reprodução

Os Beatles e sua capa de álbum proibidona

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Em junho de 1966, “operação de guerra” para mudar arte de disco atrasou o lançamento de Yesterday and Today em uma semana

Uma das grandes qualidades dos Beatles é que, ao alcançarem a fama, jamais tiveram medo de ousar. Sabedores de que venderiam discos de qualquer jeito, graças à febre que se formou em torno de sua carreira, a banda apoiada pelo produtor George Martin se sentia livre para levar o pop para outro patamar. Foi assim quando mergulharam na cultura psicodélica, quebraram todos os limites com o lendário álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e até mesmo quando decidiam que era hora dizer “não”, como quando pausaram a carreira para passar semanas em retiro espiritual na Índia, ou quando decidiram que não iam mais se apresentar ao vivo.

A doideira também se transferia para as capas dos discos. Loucura artística total, tanto para entregar um álbum com uma capa absolutamente misteriosa (caso do próprio Sgt. Pepper’s), ou quando resolveram que não teriam “capa nenhuma”, como o também famoso álbum branco. Mas toda ousadia, às vezes passa do limite.

Foi assim com a arte do álbum do álbum Yesterday and Today, lançado dia 20 de junho de 1966, após ser recolhido das lojas há exatos 60 anos, dia 14 de junho. A ideia era bonitinha. Queriam tirar uma onda com essa idolatria dos ídolos pop, dos quais eram as principais vítimas naquele ano. Com a encomenda de criar uma arte que os distanciava da imagem de rostinhos bonitos do rock, convidadaram o artista maluco Robert Whitaker, que se inspirou nos surrealistas Salvador Dalí e Luis Buñuel pra compor sua ideia: fotografar os quatro Beatles com roupas de açougueiro, pedaços de bonecas de plástico e nacos de carne crua no colo e no no pescoço. A ideia era mesmo chocar e desconstruir. Não era o que se esperava de um banda amada.

Em 1987, Witaker explicaria à revista Beatlefan: “Eu queria fazer um sacrilégio pop. Era uma crítica à forma como a fama os transformava em pedaços de carne”.

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A capa original de “Yesterday and Today”. Foto: Reprodução

Chocou demais. Quando Alan Livingston, presidente da gravadora Capitol, viu a arte, ficou horrorizado, mas cedeu a John Lennon, que amou. O problema é que, no começo de junho de 1966, 60 mil cópias já haviam sido prensadas e enviadas para a imprensa, formadores de opinião e compradores. Os próprios lojistas avisaram que não iriam colocar aquela aberração em suas prateleiras e vitrines. Outras 680 mil cópias estavam prontas, no estoque da gravadora. E agora?

Após receber feedback da grande imprensa da época, que classificou a capa como de “extremo mau gosto”, Livingston resolveu tomar uma decisão emergencial. Pegou uma outra foto tirada na mesma sessão por Whitaker, sem pedaços de carne ou bonecas quebradas, mandou imprimir um adesivo e solicitou que ele fosse colado por cima da capa original, inclusive para alguns lojistas que já haviam recebido os primeiros pedidos. A operação de guerra contra o “mau gosto” atrasou o lançamento oficial de Yesterday and Today em uma semana e criou um mito. Até hoje, a obra é muito mais conhecida por “the butchers album” (“o álbum do açougueiro”) do que pelo seu nome original.

Os LPs com a capa original (alguns sobraram no planeta, sem a adesivagem da nova capa) hoje são vendidos por mais de 30 mil dólares. Muita gente também usou técnicas a vapor para retirar o adesivo e manter a imagem oculta. E o mais curioso é que a nova capa também gerou uma lenda urbana.

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A capa oficial e adesivada de “Yesterday and Today”. Foto: Reprodução

Na nova arte, Paul McCartney é o único que está sentado à frente de um baú aberto, remetendo a ideia de um caixão. Para os fãs conspiratórios, era uma prova dada pela banda de que ele realmente havia morrido em um acidente de automóvel e substituído por um sósia. A notícia falsa foi publicada em 1969 por um jornal sensacionalista contando que McCartney morreu justamente no ano de 1966, quando Yesterday and Today foi lançado.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.