Imagem: ReproduçãoO que são espaços liminares, inspiração para o filme “Backrooms”
Edição: Flávio Lerner
Novo tipo de horror pós-pandemia, distopia do vazio apresenta medo mais realista do que vampiros e zumbis
Você está em um hotel, lava o rosto, escova os dentes e se prepara para o café da manhã normal. Se arruma, pega a chave do quarto e sai no corredor extenso, cheio de portas, janelas, guiado apenas por um tapete antigo com grafismos. As portas não têm sinalização. Você não sabe por onde entrar ou sair. No começo, pela curiosidade, se pergunta o que aconteceu. Observa detalhes e vê que algo não está normal.
Abre a primeira porta, uma sala com outra porta. Você acessa e vê mais três portas, duas normais e uma pequena; busca acesso, perde a noção espacial, acessa mais um ambiente, um corredor idêntico. Se sente perdido. Tenta correr para sair. Entra em mais uma sala, um móvel fora do lugar e sem função. Vê uma sombra, não acha rastro. Começa a sentir medo. Bem-vindo a um espaço liminar.
Com base na referência visual acima, o universo de Backrooms, baseado na lenda digital de espaços liminares, surgiu em 2019 a partir de uma imagem anônima publicada no 4chan. Kane Parsons, criador de conteúdo e hoje diretor de cinema, viralizou três anos depois com uma série de vídeos no YouTube (veja acima), no auge da pandemia, com uma história sobre caçadores desses liminal spaces.
A série fez sucesso e deu origem a um filme com mesmo nome, nos cinemas desde 31 de maio. Backrooms: Um Não-Lugar já arrecadou mais de 212 milhões de dólares, sendo considerada uma das estreias de maior sucesso da produtora independente A24, e responsável por levar o horror da internet para as telonas.
Mas o que é um espaço liminar? Compartilho abaixo uma pesquisa que passou por diversos grupos no Reddit, onde muitos dos fãs estão concentrados, além de referências na antropologia. na arquitetura, na psicologia, até chegar ao que conhecemos hoje na cultura pop e de internet. Várias portas, e sim, alguns spoilers.
A principal resposta sobre espaços liminares está conectada à estética sombria de ambientes vazios, na descrição mais simplista do termo. No Reddit, as comunidades compartilham teorias, padrões, buscam formas, sombras, perspectivas e disfunções de espaço que comuniquem que há algo de liminar ali.
Mas, uma das características que torna Backrooms interessante é que ele é um mosaico de referências diversas sobre liminaridade que vão além das imagens.

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Os espaços liminares do ponto de vista da arquitetura
Alguns teóricos ajudaram a materializar ou interpretar o que é um espaço liminar. Para o holandês Aldo van Eyck, um dos principais humanistas da arquitetura no pós-guerra, a experiência arquitetônica também acontecia nos espaços intermediários. Ele emprestou do filósofo Martin Buber o conceito de das zwischen (o entre, ou in-between). Para o filósofo, o entre não é vazio, e sim um espaço existencial.
Outro conceito importante para entender essa discussão é o de “não-lugar”, desenvolvido pelo antropólogo francês Marc Augé. Para ele, aeroportos, rodovias, hotéis e shoppings são ambientes de passagem onde as relações humanas tendem a ser transitórias e impessoais. Embora não sejam a mesma coisa que espaços liminares, o conceito frequentemente se cruza na estética de Backrooms.
Não é à toa que espaços liminares famosos, como no próprio filme Backrooms ou na série Ruptura, remetam a essa estética. Corredores com muitas portas, geometria perfeita, ambientes amplos. O mais interessante é que o vazio, por si só, comunica desconforto, justamente porque estamos diante de lugares projetados para receber pessoas e cumprir uma função social. Isso ajuda a explicar por que a tendência cresceu tanto durante a pandemia, quando pela primeira vez, globalmente, aeroportos, shoppings e escolas foram vistos completamente vazios. Sem propósito social, os ambientes perdem sua função, se tornam inóspitos.

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Ao contrário de obras do terror psicológico clássico como O Iluminado ou A Bruxa de Blair, do novo sci-fi, como Stranger Things, ou do survival horror, como Resident Evil e The Last of Us, que tratam de psicose, assassinos ou cenários pós-apocalípticos em que monstros ou a natureza tomam esses ambientes, o horror de um espaço liminar está ligado à percepção humana do vazio. Para que um desses ambientes se transforme em uma estética sombria na cultura de internet, ele precisa comunicar algo ligeiramente errado e provocar uma sensação de estranhamento.
Nos corredores da mente
Apesar de Carl Jung, um dos principais nomes da psicologia analítica, nunca ter escrito diretamente sobre espaços liminares, seus estudos sobre sonhos e inconsciente dialogam bastante com o tema. Portas, pontes, escadas e labirintos aparecem frequentemente em suas interpretações simbólicas, muitas vezes associados à passagem entre o conhecido e o desconhecido, entre estados de consciência ou compreensão.
Como humanos, sempre buscamos significado, e um espaço vazio faz com que projetemos perguntas ou respostas sobre o motivo daquele lugar ter perdido sua função. O ambiente em si não mudou, mas a ausência de pessoas faz com que busquemos uma nova interpretação.

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Um autor famoso que também explorou o tema foi Aldous Huxley, autor de Portas da Percepção. Assim como em Backrooms, em que a confusão do protagonista é amplificada pelo alcoolismo, Huxley descreve como a experiência com a mescalina altera os filtros habituais da percepção. A substância faz com que objetos comuns ganhem intensidade, volume e significado incomuns. Uma sala deixa de ser apenas uma sala. Formas, texturas, sombras e luzes passam a ocupar o centro da atenção. No filme, a psique também é uma característica importante. Quem tenta resgatar o vendedor da loja de móveis do labirinto de salas é sua psiquiatra.
Creepypasta e o estado de transição digital
Backrooms tem como referência diversas obras do terror contemporâneo, mas o que comunica a cultura de internet é o gênero creepypasta. Creepypastas nada mais são que um foclore digital. Em fóruns, versões contemporâneas de lendas urbanas são criadas a partir de fotos sem contexto e a dúvida se aquela história é real. Elas misturam ficção e elementos aparentemente reais para produzir medo, desconforto ou dúvida. Os monstros digitais não são obra de um diretor aclamado ou efeitos especiais, mas surgem a partir de cocriacões comunitárias.
Backrooms e o limite entre físico e digital [alerta de spoilers de Backrooms: Um Não-Lugar a partir daqui]
Ainda que os monstros não sejam o principal gatilho do filme, eles são como um AI slop dos personagens principais — aquele erro na imagem ou vídeo que comunica que o conteúdo foi produzido artificialmente (como um sexto dedo em uma pessoa). Ao atrair os personagens, esses monstros tentam reproduzir cenários das suas casas, suas aparências, suas memórias e traumas, dentro dos espaços liminares. Para o espectador, vira uma caça de easter eggs e conexões.
Como a minha IA é treinada para estudos de novas tecnologias, e a cada dia evolui em aprendizado de memória, após a sessão de cinema, fiz perguntas sobre Backrooms conectadas ao ambiente digital, que mostraram que também estamos estamos em um espaço de transitoriedade entre o eu físico e o eu digital.
O gatilho do questionamento foi especificamente sobre o papel de um dos personagens do filme, o cientista na sala de controle estudando como as backrooms se transformam, e os monstros que absorvem a aparência e memórias humanas.

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Pergunta: Qual a relação entre os monstros de Backrooms e as criações digitais?
“Uma leitura possível é que os monstros não sejam criaturas independentes, mas manifestações do próprio processo de reprodução imperfeita do backrooms. Nesse sentido, ele se aproxima da lógica do scraping e dos modelos generativos: absorve enormes quantidades de informação sem necessariamente compreender o significado original daquilo que coleta.
Essa sensação é muito parecida com o que hoje chamamos de AI Slop. Uma IA pode analisar milhões de imagens de um shopping e aprender que ele possui vitrines, escadas rolantes, pisos brilhantes e corredores extensos. Porém, se ela não compreender que a função daquele espaço é promover circulação, encontro, consumo e convivência, poderá gerar um shopping visualmente convincente, mas vazio de propósito.
Por isso os monstros podem ser interpretados como o equivalente humano de um erro de geração. Assim como uma imagem produzida por IA às vezes apresenta mãos com seis dedos ou janelas impossíveis, os monstros seriam falhas surgidas quando o backroom tenta reproduzir pessoas a partir de memórias incompletas. O horror não está apenas na criatura, mas na percepção de que algo está tentando imitar a realidade sem realmente entendê-la.”

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Pergunta: E como o cientista, o personagem aparentemente mais racional, se relaciona com o uso humano da tecnologia?
“O cientista funciona como o contraponto racional da história. Enquanto outros personagens vivem o medo, a perda ou a memória, ele tenta transformar o fenômeno em conhecimento. Sua missão é catalogar, medir e explicar o backrooms, acreditando que qualquer sistema pode ser compreendido se houver dados suficientes.
Ele representa uma confiança moderna na capacidade da ciência e da tecnologia de decifrar qualquer mistério. O filme sugere que esse método encontra um limite quando confrontado com algo que não é apenas um lugar, mas um processo vivo de reprodução e aprendizado. Assim como os modelos de IA aprendem observando enormes volumes de informação, o backrooms aprende observando seus visitantes. O cientista acredita ser o observador e estar no controle, mas aos poucos percebe que também se tornou parte do experimento.”
Enquanto novas teorias e lendas urbanas surgem na internet, é certo dizer que a liminaridade vai seguir ganhando espaço nas telas como recurso de suspense tecnológico — seja como exploração fotográfica, discussão filosófica sobre real e imaginário, consciente e subconsciente, ou humano e não humano. Um novo medo ensinado na pandemia, impulsionado por comunidades curiosas por mistérios digitais e que mostra que, no mundo atual, a distopia do vazio apresenta um terror mais realista do que um palhaço assassino ou apocalipse zumbi.



