KoRn no Allianz Parque. Foto: @pridiabr/@30ebr/DivulgaçãoO que funk mandelão, techno melódico e KoRn têm em comum
Edição: Flávio Lerner
A partir do show no Allianz Parque e ampla pesquisa, Estefani Medeiros explica como o nu-metal voltou a lotar estádios
No último sábado (16), o KoRn tocou no Allianz Parque encerrando uma turnê latino-americana que recebeu mais de 200 mil pessoas. Atraindo dos fãs mais oldschool de dread, saia kilt e Adidas aos GenZ que se apropriaram da estética geek do nu-metal, os shows dizem muito sobre o momento de redescoberta do gênero.

Em 2017, na última passagem por aqui, eles tocaram no Espaço das Américas para seis mil pessoas. Corta para 2026 com estádio sold-out; o que aconteceu nesse meio tempo? Tudo o que ouvimos está ficando um pouco mais… distorcido.
Antes um subgênero do metal, amado por muitos e inaudível para a maior parte das pessoas, o nu-metal hoje surfa o cult digital. A prova está na onda de turnês descritas como catárticas de bandas como System of a Down, Deftones, Limp Bizkit e Linkin Park, e na avalanche de vídeos com as principais músicas dentro e fora dos shows nas redes.
Antes que me pergunte se sou fã ou hater, aviso: sou fã. Participo de comunidades no WhatsApp com centenas de membros, acompanho as páginas da fandom. Os comentários sobre o efeito das músicas da banda em neurodivergentes são muito comuns. Centenas de relatos de pessoas que enfrentam traumas, transtornos ou depressão usando a música como ferramenta de regulação.

Isso inclusive já rendeu todo um papo com a minha terapeuta quando tentei entender como, com quase 40 anos, ainda sinto alívio ao chegar em casa depois de entrar em rodas de bate-cabeça. Decidi investigar quais são os efeitos da distorção e dos graves no cérebro e no corpo, e como isso conversa com a ascensão do nu-metal. A primeira resposta é: vai além do talento criativo da banda em soltar as cordas.
O papel do DJ e dos sintetizadores foi essencial para o nu-metal como é hoje
Apesar da mesma característica de peso, grave e melodia, bandas proeminentes como Metallica, Black Sabbath e Iron Maiden são compostas por músicos que aprenderam a tirar sons graves dos instrumentos com estudos de escalas melódicas e pedais. Mesmo em subgêneros mais antigos como o death metal, o parâmetro estava mais na interpretação da violência sonora, muitas vezes sem pausa, marcada por vocal gutural, velocidade e habilidades sobre-humanas de tocar instrumentos na velocidade x3, fora de padrões melódicos convencionais.
Como consequência evolutiva, o industrial de grupos como Nine Inch Nails, somado a veteranos como KoRn, levou a combinação de agressividade e melodia a outro patamar. Essas bandas, além do heavy metal como referência, têm na figura do DJ (caso clássico do Linkin Park e do Slipknot) e nos sintetizadores uma nova forma de distorcer.

Com essa fórmula, o impacto fisiológico vira design sonoro com o uso de texturas, compressão digital, contratempos e a mistura estratégica entre vocais melódicos e gritados, passando por referências que vão da percussão do samba até métricas de beats e voz vindas do hip-hop. Nos anos 90, os solos virtuosos deram espaço para o caos sonoro como estética, junto com o crescimento da internet culture, o arquétipo do hacker millenial, impulsionado pelos games, e em um segundo momento, pelas redes sociais.
O que acontece no corpo a 25 Hz
Para entender o efeito no estádio, usei a plataforma de áudio Analyzer. Em faixas mais graves como Blind e Somebody Someone, os gráficos do app oscilaram entre 25 Hz e 39 Hz. Hz (hertz) é a unidade que mede frequência sonora, ou seja, quantas vezes uma onda vibra por segundo. Em áudio, a medida determina a percepção de graves, médios e agudos. E o interessante aqui é o efeito que isso gera num show.
Segundo o neurocientista Daniel Levitin, autor de This Is Your Brain on Music, a experiência musical envolve não apenas o córtex auditivo, mas também áreas ligadas à emoção, ao movimento e à resposta fisiológica. Isso ajuda a explicar por que frequências graves e sons altamente comprimidos podem ser sentidos corporalmente antes mesmo de serem racionalmente interpretados pelo cérebro. Na faixa dos 25 Hz, o som está próximo do limite inferior da audição humana, numa região em que vibração física e percepção auditiva começam a se sobrepor. Em volumes elevados, baixas frequências chegam ao corpo antes da identificação consciente do som.

KoRn no Allianz Parque. Foto: @pridiabr/@30ebr/Divulgação
Entre os efeitos físicos mais relatados estão vibração no corpo, pressão no peito, vertigem leve, sensação de peso no ambiente e até mesmo leve dissociação. Musicalmente, o nu-metal é conhecido (e amado) por alternar explosões de tensão com momentos de alívio. Graves intensos, distorção e ritmos acelerados colocam o corpo em estado de alerta, enquanto trechos atmosféricos e vocais limpos reduzem momentaneamente essa pressão, num ciclo de descarga emocional semelhante à adrenalina de um filme de terror.
João Maluf, psicólogo e musicoterapeuta em formação, explica do ponto de vista da psicologia e neurociência:
“A resposta clássica do psicólogo é que cada sujeito é um sujeito e cada um responde ao estímulo de uma maneira diferente. A nossa reação à música pesada não depende só da intensidade ou do volume do som, mas de como esse estímulo é percebido e organizado internamente pelo ouvinte. Aaron Copland, autor de Como ouvir e entender música, fala que a gente ouve música em três planos: o sensorial (impacto físico), o expressivo, como a gente expressa as emoções, e o plano musical, que é a percepção da estrutura”.
“Em Psychology of Music, Carl E Seashore explica que o ouvinte não percebe as ondas sonoras de forma isolada, mas um design musical total, que é como a música é organizada na cabeça do sujeito a partir da memória, do ritmo, da intensidade e da percepção auditiva. Mesmo músicas distorcidas podem ser percebidas pelo cérebro como coerentes por conta da repetição e da previsibilidade estrutural. No exemplo do KoRn, no primeiro contato o sujeito pode entender o som como ameaça. Mas, como são músicas estruturadas e bem-feitas, ele começa a antecipar o padrão, o ritmo, a construção. A música te prepara para o impacto, e isso gera uma tensão menor com uma descarga emocional maior”, complementa.

Quando o nu-metal vira referência no pop
Ainda que o nu-metal seja o foco da pesquisa, o uso de sons graves, compressão e distorção não são exclusividade do gênero. Trap, phonk e funk mandelão também bebem de distorções pesadas e desorganizadas, usadas para deixar o som quebrado e dançante. Onde se ouve também faz diferença. A cultura de customização automotiva, que valoriza o grave no subwoofer, pede produções com graves mais baixos, e o mesmo vale para a compressão pensada para fones de ouvido e plataformas digitais.
No hip-hop, o grave também virou experiência física. Em Mamacita, do Travis Scott, os subgraves descem até algo entre 30 Hz e 40 Hz. É aquele tipo de frequência que faz o ambiente, peito e até o chão vibrarem, especialmente em sistemas grandes de som. Não é incomum que shows em grande escala façam a terra tremer de gente pulando. Scott e o produtor Mike Dean trabalham muito essa sensação de pressão contínua para criar a impressão de dark ambient.
No pop, artistas como Billie Eilish exploram a vertente em faixas como you should see me in a crown e xanny, construídas em torno de subgraves profundos e sensação constante de pressão. Já Charli xcx leva clipping, distorção e bass agressivo ao limite em Vroom Vroom e Click, enquanto Arca experimenta frequências graves em músicas como Rakata e KLK.
Na música eletrônica, graves intensos e distorção também não são novidade e bebem de veteranos como Prodigy. Em muitos gêneros atuais, especialmente no techno melódico, produtores usam subgraves, compressão extrema e clipping — uma estética moldada tanto por festivais imersivos quanto pela lógica das redes sociais e do consumo rápido de conteúdo. Artistas como Anyma, Reinier Zonneveld e Skrillex representam diferentes vertentes dessa tendência, explorando desde subfrequências físicas e sound design cinematográfico até distorções digitais mais agressivas.
Voltando ao efeito KoRn, Elizabeth Zharoff, cantora lírica e vocal coach, observa que não é só uma questão de peso, mas de como o vocalista Jonathan Davis usa a voz para expressar emoções complexas. Na análise de Freak on a Leash, ela aponta que os sons não verbais de Davis, como o icônico “boom na da noom”, funcionam porque o cérebro processa emoção e intenção antes mesmo da linguagem racional.
Como o algoritmo jogou o KoRn de volta ao mainstream
O Korn teve dois momentos de viralização, e as músicas dizem muito sobre como esses cortes destravaram a banda para uma nova leva de ouvintes. A resposta também está nos graves, drops e distorção. O primeiro viral é dos primeiros segundos de Blind. O algoritmo recompensa break marcado e resposta da música em até três segundos, o que impacta a retenção. O hit responde diretamente a essa lógica pelo chamado de “Are you ready?” seguido do drop rápido, gerando uma onda de cortes em situações cotidianas: mãe cantando no carro, corredora em #ragerun, esportes de impacto.
A segunda leva veio com Freak on a Leash, com a artista pop Zara Larsson, também conhecida como criadora da dancinha que fez o grupo viralizar de novo. Com ela, o KoRn virou uma banda pra GenZ dançar.
O viral de Freak on a Leash mostra como plataformas como o TikTok transformaram músicas em elementos modulares da internet, constantemente reinterpretados por ritmo, estética e contexto. A força do mashup veio justamente do encaixe inesperado entre a dinâmica musical do nu-metal e a lógica visual da plataforma, reativando uma faixa de 1999 não por nostalgia, mas por compatibilidade algorítmica e sensorial.
Quando alguns criadores refizeram a ideia, começou o efeito de repetição, o verdadeiro motor da cultura de remix do TikTok. Com as ferramentas de criação e edição de áudio por IA ampliando o acesso, mais criadores de música têm viralizado essa estética. Um bom exemplo é o caso do phonk chicleteiro Passo Bem Solto, com 62 milhões de views, e que nada mais é do que duas frases de música em diversas escalas de distorção e baixa frequência.
Essa lógica aparece ainda no uso crescente de graves intensos, distorção e cortes bruscos em vídeos curtos. Em TikTok, Reels e YouTube Shorts, produtores frequentemente exageram em subgraves, compressão e breaks para atravessar o áudio limitado do celular e interromper a atenção automática do usuário. O resultado é uma estética de hiperestimulação sonora: sons fisicamente mais impactantes, mais densos e mais “urgentes”.
“Tem uma hipótese de que os ambientes digitais estão alterando nosso limiar de estimulação cerebral. A gente está exposto o tempo todo a esses conteúdos, notificações de celular, TV, sons curtos, graves, mudanças rápidas, músicas repetitivas, e isso vai captando a atenção imediata do sujeito e treinando o usuário para esses estímulos”, explica João Maluf.
“Não existe consenso de que a gente realmente precise desses estímulos, mas já há estudos falando sobre como estamos sendo moldados por esses ambientes hipersaturados, e looping.”
E se eu colocar essa música num churrasco de família?
A chance de todo mundo sair correndo é alta. Por ouvir essas músicas, muitas vezes fui considerada a freak, e muitos dos fãs também. Daí vem um consenso da comunidade e uma das suas principais frases de reconhecimento e pertencimento. Buscando uma resposta além do gosto de cada um, a classe científica ainda não estabeleceu sobre o que nos leva a gostar ou não suportar. O que têm surgido são pesquisas segmentadas buscando o efeito não só do nu-metal, mas do heavy metal no geral, em neurodivergentes.
Uma delas é a Extreme Metal Music and Anger Processing, da Frontiers in Human Neuroscience, que aponta que músicas extremas podem funcionar menos como gatilho de agressividade e mais como ferramenta de processamento emocional e regulação fisiológica para fãs do gênero.
Já a Psychosocial risks and benefits of exposure to heavy metal music with aggressive themes, publicada pela Springer, reúne evidências de que sons intensos, repetitivos e altamente emocionais podem gerar sensação de catarse, organização emocional e validação psicológica.

“Quando as pessoas descrevem heavy metal ou hardcore como músicas reguladoras, o conforto não vem da ausência de intensidade, mas de como o indivíduo construiu uma relação emocional e estrutural com aquela música”, segue João.
“Quando o corpo está treinado para ela, em vez de entrar em hipervigilância e hiperestímulo, vai gerar um estado de excitação regulada. Esse aumento da sensação subjetiva de controle gera maior descarga emocional e conexão.”
Ainda há muito a ser explorado nesse campo. Enquanto as pesquisas seguem surgindo, o nu-metal e os gêneros que usam frequências mais graves continuarão gerando interesse da audiência, shows com telas pro alto e uma nova onda de distorção, agora gerada por IA. A estética do nu-metal vive uma nova era, catapultada por ouvintes novos, estética sci-fi, novos feats e parcerias das bandas. Para quem é fã da caixa esquerda, é um bom momento pra ouvir e também criar. E pra fandom que atravessou os 30 anos de banda, o resumo é mais simples: still a freak.



