Caetano Veloso - Transa Imagem: Reprodução

Por que ‘Transa’, de Caetano, é tão importante para a música brasileira

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Álbum de 1972 ganhará documentário dirigido por Renato Terra, que já comandou outro filme sobre Caetano Veloso

Um dos mais importantes álbuns da música brasileira — embora tenha sido composto e gravado lá na distante Londres, afogado em saudade da terra natal de seu criador, Caetano Veloso —, Transa ganhará um documentário. A empreitada partiu da esposa e empresária do cantor, Paula Lavigne, e será dirigido por Renato Terra, o mesmo que já comandou outro doc sobre Veloso, Narciso em Férias, cobrindo o episódio de sua prisão pelos milicos durante a Ditadura Militar brasileira.

Previsto para ser lançado no final de 2026, o longa-metragem utilizará as sete faixas musicais do disco de 1972 para retratar a experiência de Caetano no exílio em Londres, uma época em que tentou aplacar a tristeza se inserindo no cenário cultural da cidade, em especial com a comunidade jamaicana.

Gilberto Gil, parceiro de vida e companheiro de exílio, lidou melhor com as férias forçadas na capital cultural do mundo em sua melhor época. Para Caetano Veloso, a coisa mais difícil. Deprimido, agarrou-se à música como única salvação possível para a saudade.

“Sempre admirei o rock britânico, que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres, eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia. Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador”, disse o cantor ao The Guardian, em 2010.

Transa tem o aroma de Londres, mas de forma alguma deixou de ser um disco de música brasileira.

O novo documentário é mais um tijolo no memorial a um dos álbuns mais icônicos e cultuados de Caetano Veloso, levemente esquecido pelo público após o retorno do ídolo ao Brasil. Sob o crivo do próprio artista e seu staff, será um dos filmes obrigatórios para quem gosta de música.

Por que Transa é tão especial

Caetano Veloso se sentia vivo caminhando pela Portobello Road, em Londres, ouvindo reggae pelas ruas. Assim cantou em Nine Out Of Ten, segunda faixa de Transa, lançado em 1972 e gravado no ano interior, produzido por Jards Macalé e com participações de Gal Costa e Angela Ro Ro.

De fato, o reggae ajudava a manter Caetano vivo, muito longe de casa. Ao lado do amigo Gilberto Gil, se enfiou na comunidade jamaicana local, em uma época em que Bob Marley, papa do gênero, ainda não tinha conquistado repercussão mundial.

Transa faz parte do universo dos discos que envelheceram bem. Não traz nenhum superhit, a ponto de suas faixas terem sido deixadas meio de lado nos shows que o músico voltou a fazer no Brasil, depois da volta para casa.

O álbum maturou, e foi mais um lançamento brasileiro que teve seu valor reconhecido graças ao culto aos grooves raros que tomou conta do país na década passada, comandada por DJs e colecionadores de vinil. Hoje, é obrigatório em qualquer lista de melhores discos nacionais de todos os tempos.

É, também, um LP para ouvir inteiro, do começo ao fim (raridade hoje em dia). Suas faixas são coesas e sugerem uma viagem pela cabeça de Veloso e os quadris de Macalé, durante uma época de exílio, quando o compositor refletia sobre si e a terra natal 24 horas por dia.

De cabo a rabo, traz a experimentação cosmopolita exigida na Londres do começo dos anos 70, principalmente quando os artistas eram estrangeiros. Apesar de oculto nos acordes e percussões, o reggae está presente na forma de existir; no jeito de poetizar as dores da alma.

Caetano Veloso assume — e isso é uma das maiores qualidades da obra — o valor da música brasileira. E a contribuição cultural causada pela mistura com a fuligem das calçadas londrinas.

A gravação, feita no formato jazzístico, em sessões majoritariamente ao vivo, traz uma profundidade gigantesca a Transa. O faz orgânico, de forma que passeia pelos diversos cantos do cérebro de quem o escuta com a devida atenção. Nos coloca dentro do estúdio. Ou, melhor, coloca o músico e sua banda dentro de nós.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.