Foto: Lorena Dini/DivulgaçãoStacey Kent: entre notas, palavras, silêncio e amor pela música brasileira
Edição: Flávio Lerner
Com sua delicadeza particular, artista americana conversou com Adriana Arakake na esteira do lançamento do novo álbum, A Time For Love
Existe uma delicadeza muito particular na maneira como Stacey Kent ocupa a música. Num momento em que quase tudo parece disputar atenção o tempo inteiro, ela continua cantando baixo, deixando silêncio entre as notas e fazendo discos que parecem respirar no próprio tempo.

Há também uma identificação muito forte entre ela e o público brasileiro. Não apenas pela bossa-nova, pelo jazz ou pelo repertório em português. Tem algo na maneira como ela sente a música que conversa profundamente com a nossa tradição musical mais íntima.
E conversar com essa grande artista por causa do lançamento de A Time For Love, seu novo disco, acabou sendo exatamente como ouvir seus álbuns: uma experiência calma, leve e cheia de pequenos silêncios confortáveis no meio das frases.
Teve uma hora da entrevista em que comecei a entender por que tanta gente aqui sente que Stacey Kent não parece uma estrangeira cantando música brasileira. Me contou sobre quando ouviu música brasileira pela primeira vez, aos 14 anos. E se lembra da cena em detalhes.
“Não são todas as coisas na vida que eu posso lembrar exatamente onde eu ficava ouvindo uma música pela primeira vez. Mas isso eu lembro.”
No dia seguinte, foi até uma Tower Records em Nova Iorque e mergulhou numa enorme seção de discos brasileiros. Saiu dali levando João Gilberto, Elis Regina, Edu Lobo, Caymmi e uma curiosidade que, décadas depois, continua completamente viva. Naquela época, Stacey ainda não falava português.
“Mesmo sem compreender palavra por palavra, você pode ouvir simplesmente a emoção da voz de alguém.”
E acho que aí está uma das chaves para entender a relação dela com a música brasileira. Nunca se aproximou desse repertório tentando soar especialista em MPB ou reproduzir nossa estética perfeitamente. O que pegou primeiro foi sentimento.

Foi engraçado quando contou que, anos depois, ela e o marido, o saxofonista e produtor Jim Tomlinson, decidiram aprender nossa língua. Os dois eram tão apaixonados pelo nosso universo musical que começaram a ficar preocupados com uma possibilidade real: descobrir o significado das letras e perceber que nada daquilo correspondia emocionalmente ao que tinham imaginado.
“O que vai acontecer se a história não for como nós imaginamos?”, me disse, rindo. Depois completou: “Mas foi mágico. Continua a ser mágico hoje”.
O jeito como Stacey Kent fala português é uma coisa muito bonita de ouvir. Procura palavras com calma, muda o caminho da frase no meio quando acha necessário, ri quando sente que ainda não encontrou exatamente a expressão certa. E talvez por isso exista tanta verdade quando canta no idioma. Não soa como alguém reproduzindo fonemas decorados, mas como se tentasse alcançar exatamente o sentimento que quer dizer.

Foto: Sara Pettinella/Divulgação
Em vários momentos da conversa, voltava para essa ideia. Quando perguntei sobre o minimalismo do novo disco e sobre como sustenta uma música tão silenciosa num mundo cada vez mais acelerado e barulhento, a resposta veio imediatamente: “O mundo cheio de barulho não me vai bem”.
Disse isso quase sorrindo, como uma constatação simples da própria personalidade.
Stacey contou que sempre foi a pessoa mais quieta da família. Cresceu em NYC cercada de gente confortável no caos, no excesso, no movimento constante. Ela não. “Eu não faço por propósito. Eu sou essa pessoa.”
Faz sentido quando você ouve os discos dela. Tudo parece construído para deixar espaço. Espaço para o silêncio, para o ar, para a respiração da música. Em determinado momento, começamos a falar justamente sobre esse silêncio dentro do jazz.

“Os espaços entre as notas são tanto importantes quanto as notas.”
Depois, explicou que ela e Jim costumam deixar pausas intencionais nos arranjos para que a plateia tenha tempo de refletir e permanecer um pouco suspensa, “em vez de algo muito, muito, muito rápido”.
Na hora, lembrei de uma entrevista do animador Hayao Miyazaki dizendo que usa silêncios inspirados no jazz nos filmes do Studio Ghibli, e Kent imediatamente entendeu o que eu queria dizer. A música funciona assim também. Não empurra emoção para ninguém. A emoção aparece sozinha.
A conversa ficou ainda mais bonita quando entramos em Carinhoso, canção de Pixinguinha que ela claramente ama performar: “Essa saudade, esse desejo que sentimos na música brasileira sempre me chamou”. Contou que a primeira versão que ouviu foi a de João Gilberto sozinho ao violão. Depois vieram outras que ama também, como as de Paulinho da Viola e Marisa Monte.
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E aí aconteceu uma das coisas mais belas da entrevista. A artista disse que sempre explica para o público o significado de Carinhoso antes de cantá-la: “É uma alegria ser capaz de compartilhar um pouco disso como estrangeira, fora do Brasil, com outros estrangeiros”.
Formada em Literatura Comparada, também falou sobre como estudar literatura de outros países ajudou a perceber que os sentimentos humanos mudam muito menos do que a gente imagina: “Amor, medo, saudade. São as mesmas coisas”.
A relação com Marcos Valle também apareceu naturalmente, com um carinho muito evidente: “Ele é uma pessoa incrível. Um coração enorme”. Contou que Marcos e Patrícia Alvi (esposa e parceira musical de Valle) frequentam sua casa, e descreveu a colaboração mútua como um encontro de sensibilidades parecidas. E realmente faz sentido. Os dois parecem interessados na mesma coisa: música sem excesso. Música que respira.
Quando a entrevista terminou, Kent me agradeceu pela conversa de um jeito muito delicado. “Que prazer falar contigo”, disse, com aquela calma que permeou todo nosso papo. E talvez por isso eu tenha terminado a conversa com uma sensação rara de intimidade emocional, dessas que a música às vezes cria entre duas pessoas que nunca se encontraram antes.
Fiquei com a impressão de que Stacey Kent canta do mesmo jeito que conversa: sem pressa, sem excesso e deixando espaço para respirar antes de ir embora.



