Urban Dance Squad Foto: Reprodução

A banda que encarnou o sonho de um ‘mundo livre’ — e que, como o sonho, desabou

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner


Leo Vinhas conta a história do Urban Dance Squad (UDS), grupo pioneiro na mistura de rap e rock e que trouxe esperança em tempos de guerra

E se eu te disser que, 40 anos atrás, surgiu uma banda que se antecipou à ideia de uma Europa sem fronteiras, e que misturava rap, jazz, rock, experimentações tecnológicas e soul em um som surpreendentemente acessível? Mais ainda: que vinha de um país sem tradição nenhuma na música pop mundial, tinha formação multiétnica, influenciou meio mundo e foi especialmente importante para um país em guerra? O problema é que essa mesma banda também viveu anos debaixo de uma guerra interna, porque, como muitas coisas na vida, era uma ideia boa e rentável demais para se abrir mão, mas o custo emocional para cada envolvido era altíssimo. E, em uma nota especialmente triste, foi tratada como obsoleta pelos fãs e pela crítica diante da comparação com outros artistas que eles próprios influenciaram. Estamos falando do Urban Dance Squad (ou UDS, para os aficionados).

A coisa toda começou em 1986, em Utrecht, cidade localizada na parte central da Holanda. Ali, quatro caras subiram ao palco da De Vrije Vloer, uma casa noturna com programação de música autoral, para fazer uma jam. O vocalista Rudeboy Remington (Patrick Tilon), natural do país, era negro, assim como o baixista surinamês Silly Sil (Silvano Matadin).

O guitarrista Tres Manos (René van Barneveld) havia nascido e se criado na Índia, enquanto o baterista Magic Stick (Michel Schoots) era um garoto de classe média alta que tocava em uma banda de funk de branco chamada DIV. A eles logo se somou DNA (Arjen de Vreede), um DJ que vinha da cena do punk e dos squats (prédios abandonados que eram ocupados por desempregados, artistas, imigrantes e toda sorte de enjeitado social).

Cada um queria fazer uma coisa. Tres Manos era fissurado na Magic Band de Captain Beefheart e tinha o ideal de fazer uma banda nos mesmos moldes, ou pelo menos usar sua guitarra para preencher todos os espaços possíveis; Magic Stick queria se aventurar pelas então pouco exploradas possibilidades de misturar percussão com os beats e scratches de um DJ, ao passo que DNA queria trazer o ethos punk para a cena do hip-hop. Rudeboy buscava espaço para crescer e ter fama como rapper, enquanto o lance de Sil era construir pontes entre a música sul-americana com a europeia.

Ao mesmo tempo, todo mundo gostava de Beastie Boys e dos Red Hot Chili Peppers (então conhecidos como uma banda de funk pesadão, e não de pop praiano radiofônico).

A cara do futuro

Essa mistura toda apareceu muito bem-condensada no primeiro disco de estúdio dos caras, Mental Floss for The Globe (“Fio mental para o mundo”, em um trocadilho com “fio dental”). Lançado em 1989, bateu legal em vários países, especialmente nos EUA, na Austrália e na terra natal, e em todos puxados por Deeper Shade of Soul, um pop malemolente e groovado que se notabilizou pelo clipe num bowl ensolarado.

Não era só esse hit — No Kid e Fast Lane também tiveram sucesso e viraram clássicos da banda, e Mental Floss… se sustentava bem como álbum. O lance é que Deeper Shade of Soul consolidou uma imagem que parecia perfeita para aqueles tempos. No ano de seu lançamento, o Muro de Berlim, símbolo maior de um mundo dividido pela Guerra Fria, viria a cair; dois anos depois, seria o fim da União Soviética; e logo no começo da década de 1990, tiveram início as conversas diplomáticas que levaram à criação do Euro (em 1999) e a livre circulação entre cidadãos europeus de diversos países.

“Globalização” era entendida como um jeito de unir as pessoas e flexibilizar as fronteiras para imigração e turismo, e não como uma ferramenta do capitalismo para megacorporações explorarem mão de obra de países em desenvolvimento para venderem itens de consumo a preço alto em outras terras. 

Diante disso, aquela garotada do clipe era perfeita: bonita, multiétnica e cheia de vida. Negros, brancos e amarelos; homens e mulheres; todo mundo junto com ar de espontaneidade e verdadeira integração, e não com cara de propaganda da Benetton ou panfleto de diversidade corporativa. A música refletia tudo isso: um riff entre o africano e o caribenho, samples, uma voz crua e “rappeira”, beats orgânicos e sintéticos, um sax puxadão pro afrobeat fazendo um solo no final. Que mundo lindo parecia estar a caminho!

Sonho autossabotado

O segundo álbum saiu em 1991, e era apropriadamente intitulado Life ‘n’ Perspectives of a Genuine Crossover. Nunca o UDS seria tão UDS quanto nesse disco, para o bem e para o mal. Routine juntava jazz e psicodelia, Bureaucrat of Flaccostreet antecipava o indonoise do Asian Dub Foundation em muitos anos, Duck Ska era o que o nome dizia (um ska ‘grasnado” e cheio de efeitos. Tinha groove, tinha peso, tinha… Bem, talvez tivesse um pouco de tudo. Um pouco demais.

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Não se engane: é uma obra notável, mas também excessiva, composta inteiramente em estúdio por um grupo que não admitia uma liderança e que havia feito um contrato sem precedentes com a gravadora Arista, garantindo total liberdade criativa. O resultado foi que o LP ficou longo e com elementos em excesso, mas, passados mais de 30 anos, ainda retém muito de seu brilho.

Só que ser uma banda pioneira e autoconsciente na Holanda dos anos 1990 não era muito bom para a saúde financeira de ninguém. O quinteto passava mais de 200 dias em turnê, geria a si próprio e a todos os seus aspectos (do design gráfico à gestão financeira) e não fazia quase nenhuma concessão ao que consideravam um desvio de sua arte: recusava playbacks, evitava ao máximo fazer clipes em plena era MTV, e não lançou nenhum single para Life ‘n’ Perspectives…. Os executivos norte-americanos da Arista não tinham muita paciência com essa postura, e fizeram corpo mole para promovê-los.

Some isso ao fato de que todos se sentiam desiludidos com a engrenagem da fama. Diziam que os músicos eram o elo mais frágil e pior remunerado na cadeia musical, e não ajudava quando iam nas turnês e se deparavam com colegas dos EUA, como o pessoal do Red Hot, vivendo em mansões milionárias. Rudeboy também passou a ser criticado pela cena underground do rap de onde emergiu, e isso o frustrava bastante. Além disso, todos se admiravam mutuamente como músicos, mas tinham personalidades e bagagens culturais e sociais muito diferentes.

Durante uma turnê em que abriam para o U2 (!), DNA ficou de saco cheio e pulou fora. A banda rompeu com a Arista, assinou com a Virgin e mandou Persona Non Grata (1994), um disco pesadão, influenciado por Rage Against the Machine e pelo som pesado que era bastante presente na primeira metade dos anos 1990. Bacana, até, mas muitos passos atrás para quem havia andado tantos para frente.

Esperança em tempos de guerra 

Persona Non Grata teve o segundo maior sucesso do Urban Dance Squad, Demagogue. Mesmo que o LP não tenha sido um grande êxito comercial, essa bateu forte nas paradas europeias — e além. Ainda que a letra fosse mais sobre liberdade lírica e musical, ela chegou em zonas de guerra. Isso, somado aos anárquicos e intensos shows e à sua formação multicultural, criou uma aura libertária em torno do projeto, especialmente nos países europeus afetados pelos muitos conflitos que tomaram a última década do século passado.

Em 1996, veio Planet Ultra, cuja turnê chegou aos países da antiga Iugoslávia. Ali, o UDS criou seu público a partir de disc-jóqueis de rádios pirata e do circuito alternativo, que tentavam veicular música diferente durante os períodos de guerra. O fato de ser uma espécie de “banda-irmã” do Mano Negra — que uniu a polirritmia ibérica e latina ao punk, e também tinha formação multicultural e uma ética anarquista — só facilitou o diálogo.

Os shows nos países da região foram lendários, mas em Belgrado, duas noites impactaram a juventude e a cena cultural da Sérvia. Puxada por Demagogue, a popularidade do grupo estava em alta por lá, e as entrevistas para a imprensa local só contribuíram para o clima de esperança: Tres Manos dizia que o “planeta Ultra” do disco recente tinha “tudo a ver com a possibilidade de escapar para algum lugar, para longe do sofrimento”, enquanto Rudeboy cravou que era o lugar para onde ir “quando as coisas ficam chatas, vazias ou insuportáveis; é um lugar que transcende a vida do dia a dia”.

Isso apelava demais aos sérvios naquele momento. O presidente genocida e criminoso de guerra Slobodan Milosevic havia perdido as eleições, então simplesmente decidiu anulá-las. A população, frustrada e emputecida, foi às ruas. E quatro mil pessoas, especificamente, foram ao SKC, então o maior espaço para shows na cidade, ver o UDS tocar.

A conexão foi descomunal. “A interação com o público foi tão intensa que a banda se emocionou com a liberação repentina de tanta energia. Lembro que Rudeboy teve que enxugar as lágrimas do rosto ao sair do palco”, lembraria décadas mais tarde a jornalista Ana Davidovic, que entrevistou o quinteto e foi aos dois dias de show.

As apresentações influenciaram rádios dissidentes, movimentos estudantis e boa parte do rock alternativo da Sérvia. Deu esperança ao país em um tempo difícil e de mudança. É difícil “medir” a importância disso, porque os anos subsequentes foram terríveis. Infelizmente, Milosevic só saiu do poder em 1999, depois de muito derramamento de sangue, violações de direitos humanos, atrocidades e bombardeios da OTAN que praticamente destruíram a infraestrutura do país. 

Um fim simbólico e profético

Os shows na Sérvia foram registrados no álbum Beograd Live (1997). Essa turnê reenergizou o Urban Dance Squad, trouxe de volta o DJ DNA e garantiu gás para fazer o último disco, Antarctica (1999) — que, como Planet Ultra, recuperava a polirritmia. Dois excelentes álbuns, e do último, um pequeno hit europeu com Happy Go Fucked Up. Mas já era tarde. Em 1999 mesmo, encerraram suas atividades.

Que o grupo tenha conseguido se manter unido por quase 15 anos (saída de DNA à parte) já seria um feito. Mas o final do UDS veio por conta das dificuldades financeiras, do desprezo que sua terra natal lhe reservou (eram vistos como ultrapassados, e a militância de Rudeboy nas letras era ridicularizada) e do fator que causa o fim de muitas bandas: para se tornar um meio de vida viável, passa a ter que lidar com marketing, imprensa, mercado.

Como disse um agoniado Rudeboy no excelente documentário Five Years of Disorder (1991): “estou lidando com coisas como ‘críticos’, ‘seguidores’, ‘indústria musical’. Como alguém pode dizer que eu só tenho que lidar com a música?” Merdas desse tipo acabam comigo, então é como se a música estivesse acabando comigo”.

Todos continuaram envolvidos com a música, sempre em empreitadas de menor repercussão — exceção feita aos anos em que Rudeboy passou com o pioneiro do trance e do big beat Junkie XL e com Silly Sil integrando o P18, projeto do ex-Mano Negra Tom Darnal que foi seminal na mistura de música eletrônica com ritmos latinos (especialmente os caribenhos).

Hoje em dia, o UDS é mais lembrado por aficionados, embora Remington e DNA tenham se juntado a outros músicos para continuar tocando o seu repertório.

É um esquecimento triste: o Urban Dance Squad se antecipou na crítica à maxicomercialização da música, à excessiva personalização do artista e à polarização ideológica. Tentou sustentar uma utopia artística e coletiva — e pagou o preço pela ousadia, sim, mas ajudou a sedimentar as bases da união entre o rock e o rap e, o mais impressionante de tudo, conectou-se com pessoas de diversas idades em países assolados por guerra.

Talvez enquanto espécie, o ser humano nunca tenha sido muito entusiasta da união e da diversidade mesmo. Mas a crença nisso pode produzir arte notável e vivências poderosas. O UDS conseguiu os dois. Ninguém ali ficou rico, mas se isso não é sucesso, não sei o que poderia ser.

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Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi corresponsável pelo Festival Conexão Latina.