Foto: Tati Silvestroni/ Music Non StopRefúgio autista, salas sensoriais vêm se espalhando nos grandes festivais brasileiros
Neste Dia Mundial de Conscientização do Autismo, contamos como surgiram no Brasil os espaços voltados a quem está no espectro
Por Flávio Lerner e Jota Wagner
Pessoas neurodivergentes, com diagnósticos como autismo, ansiedade e TDAH, também gostam (muito) de música. Têm seus artistas prediletos, consomem seu trabalho e, claro, adorariam estar em alguns de seus shows. Mas como realizar esse sonho em um rolê que chega a reunir cem mil pessoas em um só espaço, como foi o caso do Lollapalooza Brasil 2026, em São Paulo, por exemplo?

Para quem está no espectro do autismo, até pouco tempo atrás, isso era bastante complicado. Aglomeração, som muito alto e excesso de estimulação visual podem ser gatilhos para crises. Felizmente, a situação está mudando, e os festivais estão se tornando mais inclusivos, graças a uma nova tendência nos grandes eventos: as salas sensoriais. No Brasil, Rock in Rio, The Town, Lollapalooza e o Suíça Bahiana, em Vitória da Conquista/BA, são exemplos que já adotaram a prática, que tem tudo para se espalhar ainda mais pelo país.
O que são?

Foto: Reprodução
As salas sensoriais são um ambiente tecnicamente projetado para oferecer um alívio à superestimulação causada pelos grandes eventos. A luz é mais confortável, um isolamento acústico permite um ambiente mais quietinho, e equipamentos sensoriais, como cobertores, elásticos e piscinas de bolinha, ajudam quem tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) a se regular. Se para qualquer pessoa dar um tempo da bagunça e estar em um lugar calmo e confortável é uma delícia, para quem tem autismo, por exemplo, é fundamental.
Além disso, elas contam com profissionais especializados, treinados para auxiliar no acolhimento e ajudar na regulação e garantir o bem-estar. A autonomia, no entanto, é valorizada. Não estou me sentindo bem? Vou lá para minha salinha dedicada, dou um tempo e volto para o festival quando estiver melhor. Também é uma questão de respeito à individualidade do neurodivergente.

Um público “cada vez maior”

Foto: Pixabay/Reprodução
Antes de mais nada, é importante lembrar que o número de pessoas com autismo não “aumentou” nos últimos anos, e sim a capacidade de diagnóstico da medicina e o desejo da população em buscar esse diagnóstico, bem como o interesse do poder público em mapear a neurodivergência.
Para se ter uma ideia, o transtorno só foi incluido no censo do IBGE em 2022. Além disso, o espectro foi ampliado em 2013, quando a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, eliminou categorias até então separadas, como Síndrome de Asperger, Transtorno Autista e Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação, integrando-as todas sob um único guarda-chuva: o do Transtorno do Espectro Autista (TEA), divido em três graus de gravidade/nível de suporte.
Segundo a OMS, cerca de 1% da população é autista. Isso equivale a mais de dois milhões de brasileiros, prontos para frequentar bons eventos culturais, desde que tenham condições para isso.

Luta por inclusão — e o futebol antes da música

A sala sensorial do Allianz Parque. Foto: Reprodução
Graças ao maior conhecimento sobre o tema, à quantização de sua representatividade e à luta de coletivos autistas, o acolhimento a esse público, recentemente, vem se consolidando no país. O conceito das salas sensoriais foi desenvolvido em clínicas, hospitais e escolas, até “pular” para grandes eventos.
Antes da música, veio o futebol. A partir dos anos 2020, diversos grupos passaram a batalhar por mais representatividade nos estádios. Depois da pandemia, torcedores mais observadores começaram a reparar nos jogos pela TV em faixas de torcidas como a Autistas Alviverdes (Palmeiras), Autistas Alvinegros (Corinthians), Autistas Rubro-Negros (Flamengo), Autistas da Ilha (Sport) e Autistas Colorados (Internacional).
Em 2023, inspirados pelo movimento e também tendo como referência projetos internacionais, como as arenas esportivas dos Estados Unidos, times como o Londrina, o Goiás e o Grêmio foram pioneiros em inaugurar espaços específicos voltados aos seus torcedores que fazem parte do espectro.

Em fevereiro de 2024, o Palmeiras marcou a transição para um modelo institucional e escalável com a sala sensorial do Allianz Parque. Logo depois, a “moda” se espalhou para outras grandes arenas e estádios, como o Engenhão (Botafogo), a Neo Química Arena (Corinthians), o Beira-Rio (Internacional) e a Arena MRV (Atlético Mineiro). No final de 2025, o Maracanã também inaugurou suas próprias salas, fazendo com que praticamente toda grande partida do futebol brasileiro seja contemplada com uma.
No mundo da música, o primeiro grande festival a implementar um espaço sensorial estruturado foi o The Town, voltado a autistas e outras pessoas com “deficiências não visíveis”, ainda em 2023. O Rock in Rio 2024 — que já tinha sala sensorial em Lisboa — veio na sequência. A última boa nova foi o Lollapalooza Brasil, que já vinha disponibilizando kits sensoriais e estruturas básicas adaptadas, como banheiros, mas que inaugurou uma sala sensorial na edição deste ano.
E foi um sucesso. Segundo relatos ao Music Non Stop de terapeutas ocupacionais que trabalharam neste Lolla, não faltou gente para dar um tempo e relaxar no ambiente.

Todo mundo pode?

Sala sensorial no The Town. Foto: Victor Rangel/Reprodução
Apesar de terem sido projetadas levando em consideração as necessidades dos que têm hipersensibilidade sensorial, as salas podem ser usadas — segundo as pesquisas de regulamento que fizemos nos sites dos próprios festivais — para quem não está se sentindo bem. Tanto que, em alguns rolês, gestantes e idosos são admitidos no local. Quem estiver acompanhando o neurodivergente também é bem-vindo. Além disso, muita gente pode estar no espectro e ainda não saber disso. Sentir o bem-estar em um desses espaços pode até ajudar em um futuro diagnóstico.
Para evitar que folgados usem o local como lounge, os profissionais presentes cuidam de um acolhimento inicial para identificar a real necessidade de cada pessoa. Em alguns casos, quem comprou ingressos precisa fazer um cadastro prévio para garantir o acesso. Mas a admissão, pelo menos neste momento inicial, passa principalmente pela sensibilidade dos terapeutas especializados presentes.
Uma boa notícia para todos

Sala sensorial inaugurada no Lollapalooza Brasil 2026. Foto: Reprodução
Dia 02 de abril é o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Ver salas sensoriais se espalhando e se tornando uma prática de acessibilidade é uma notícia gostosa de dar. Sabemos que grandes festivais puxam tendências em vários setores da sociedade, e suas práticas se espalham até mesmo para eventos públicos.
Em abril de 2027, esperamos voltar para te contar que a prática ficou tão comum que se refletiu em aumento de público nos rolês culturais.



