
9.7/10
O terapeuta de Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, o Baco Exu do Blues, merece o próximo GRAMMY. Afinal, ajudou-o a fazer o melhor álbum de sua carreira, uma obra de arte. HASOS (18 de novembro) é um trabalho sublime, que merece (e precisa) ser ouvido sozinho, em concentração máxima, de ponta a ponta, para a perfeita assimilação de todos os instrumentos, do blend de soul brasileiro, rap, trap e pitadas de jazz (sem contar o delicioso forró de Sertão Sem Flor). Principalmente, é preciso mergulhar nas letras, um divisor de águas tanto no hip-hop nacional, quanto na própria existência do artista. Um colar de pérolas literário, no qual Baco promove um batalha entre o homem que foi e o homem que é.
Se tiver um divã em casa, deite-se nele para apreciar a obra. Segundo o próprio artista, é um disco cunhado em sessões de terapia, a mais profunda cura que todo ser humano deveria se presentear. O resultado final são versos que permitem ao ouvinte diversas interpretações diferentes, resultado de toda a boa poesia.
HASOS trás 14 músicas e 4 interlúdios, pequenos diálogos entre um personagem e seu terapeuta. E é difícil para mim separar aqui nessa resenha quais os versos mais incríveis do álbum todo. Baco duela consigo mesmo em canções sobre seus traumas, desilusões amorosas, a fama e, principalmente, o autoconhecimento. Compreender seus erros é abrir as portas para o futuro.
Novamente, o LP é uma obra de arte, já começando pela capa, uma das melhores dos últimos tempos, criada pelo artista visual baiano Brendon Reis. Se a pintura original estiver à venda, me avisem.

O álbum começa com o artista compreendendo o uso da marra como proteção: “Sou filho do sertão dos pecados, pessimista como Saramago. Filhos do sol, gladiadores de areia”.
Rima sobre jazz, sobre raiva, sobre banho de mar para lavar a alma. Um belo cartão de visitas, como a abertura de um filme. Segue soul jazz na segunda faixa, em que nos brinda com “eu espero ser pai de menina para desenvolver empatia pelo mundo”. Meu Deus.
Na mais destoante faixa, o rapper nos mostra como seria a soulful house, se inventada no Brasil. Uma viagem sobre a confusão de uma balada com sua garota. É como se ele se despedisse da noite, do seu antigo “eu” — o pré-terapia —, preparando-nos para a revolução interna que virá a partir daqui.

É o que nos vem na profunda quinta faixa, Garçom da Ausência. Regada pela tristeza de violinos e invocando Hyldon, Baco Exu do Blues confessa: “me falta coragem para ficar sozinho”. Reflete sobre a própria função como artista de antes, que ele corrige com maestria nesse álbum. Festa para esconder o silêncio. “Não quero que meus olhos continuem sendo garçons da ausência que eu crio, das pessoas que uso”. Segue na mesma reflexão em Fugindo do Espelho.
“Virei mostro para não me assombrarem”, canta em Deu Meia Noite, falando sobre abusos infantis e como lidar com algo que não pode ser mais mudado. “Isso é sobre meninos e lobos.” Verdadeiramente monstruoso, e divino no momento em que os tambores emulam uma rajada de metralhadora. Palmas para a produção de Marcelo Delamare, Marcos Maurício, Dactes e JLZ.
Bem no meio está a mais bela entre as belezas do disco, Mar de Guerra, recuperando Dorival Caymmi (“é doce morrer no mar”), mas trazendo-o para nos lembrar dos navios negreiros, em uma de muitas interpretações. Explica, por A+B, a devoção mística e a casca que o negro precisa desenvolver para sobreviver a tanta violência: “Não posso ser um Dom Quixote transformando esquinas em moinhos”; “que a Tenda dos Milagres não caia”; “nosso sangue é de água salgada, banquetes na encruzilhada”.
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Decido interromper a resenha neste momento. Não quero mais entregar o álbum inteiro, que conta com colaborações de Teto, Mirella Costa, Sued Nunes, Joyce Alane, Zeca Veloso, Vanessa da Mata, Ivyson e Carol Biazin. Fique com esse aperitivo para aproveitar melhor a segunda metade, que segue com canções ainda melhores, desilusões amorosas, síndromes de herói, e muito, muito mais. HASOS é de uma profundidade sem tamanho.
Aceite o apelo do Music Non Stop. Ouça o novo de Baco Exu do Blues com a atenção que ele merece. E faça terapia!



