Foto: Alex Litvin [via Unsplash]Jovens querem homens mais vulneráveis nos filmes e séries, diz pesquisa
Estudo feito pela Universidade da Califórnia revela que as novas gerações anseiam por um novo padrão de masculinidade na ficção
Dentre as inúmeras mudanças trazidas pelo mundo digital para a indústria do cinema, está a rapidez para se ouvir a reação do público, seja em comentários em redes sociais ou em pesquisas feitas com rapidez e custos nunca antes vistos. Uma delas, realizada pela Universidade da Califórnia, a UCLA, apresenta uma prova de que os jovens estão em busca de outro tipo de masculinidade heróica nas telonas.

Focada em jovens de 10 a 24 anos e voltada para os alunos de seu curso de roteiro, ela conclui que a molecada está sentido falta de vulnerabilidade nos homens, algo que os acompanha nessa fase da vida. Os 1.500 entrevistados pedem por mais personagens que, por exemplo, “estão curtindo a paternidade” ou “mostrando amor por seus filhos”. A audiência, segundo os pesquisadores, quer esse tipo de sensação não apenas em uma história enolvendo pais, mas na relação da masculinidade com a sociedade. Está cansada de super-heróis.
O estudo funcionará como guia para os alunos da UCLA que, um dia, se tornarão roteiristas para séries e filmes. Está repercutindo, no entanto, a quem já está atento para essas mudanças.
“Por décadas, a mídia está presa ao ‘provedor estóico’ ou ao ‘herói distante’ como o padrão da masculinidade adulta. Nossos dados mostram que ao mostrar homens em posições de poder e força física, estão ignorando os valores das novas gerações, definidas por empatia, paciência e disponibilidade emocional”, diz o relatório da pesquisa, que pode ser lida na íntegra aqui.

Novos tempos
Desde que se popularizou nos Estados Unidos, a indústria do cinema se dividiu ao criar protagonistas cativantes, oferecendo o que as pessoas queriam ver e o que os estúdios queriam que elas vissem, segundo seus ideais sociais e seus projetos de país. Desde os tempos dos filmes no Velho Oeste, por exemplo, um grupo de pessoas era salvo por aquele que tinha coragem de pegar em armas e ir à luta, em defesa “do bem”.
O inimigo também se moldava ao contexto da época. Indígenas cruéis e forasteiros sem escrúpulo nenhum. Com o passar do tempo, apenas a roupa do herói mudou. De cowboy, virou fuzileiro naval, cidadão do bairro, piloto de avião. O importante era ter serenidade, coragem e um revólver.
Quando as primeiras famílias endinheiradas europeias começaram a chegar aos EUA para comprar empresas e transformar estadunidenses em funcionários, o antagonista era travestido de monstro (Drácula era um conde do Leste Europeu). Quando veio a Segunda Guerra Mundial (e depois a Guerra Fria), o monstro virou o alienígena invasor — que falava outra língua, vinha de fora e, claro, não tinha coração ou sentimentos.
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E quando os estrangeiros já haviam imigrados para o país, vivendo em condições precárias e executando serviços que a classe média não queria mais colocar a mão, fizeram-nos como zumbis. Feios, sujos, maltrapilhos, sem cérebro. Para todos eles, um “americano” alto, bonito, fortinho, bondoso e cheio de coragem estava pronto para liderar o grupo de pessoas que sofria por não tem culhões para ir à luta.
Embora essa estratégia siga em curso no mundo da ficção, a virada do milênio trouxe algumas mudanças. Antes, havia a globalização do público para filmes feitos em Hollywood. Hoje, temos a globalização da produção cinematográfica. O fluxo de informações da era do streaming também ajudou muita gente a conhecer outras formas de se contar histórias.
Em Cidade de Deus, por exemplo — eleito um dos dez melhores filmes da história por usuários do Letterboxd, majoritariamente estadunidenses —, quem pega em armas sãos os sujeitos mais asquerosos da história. Traficantes e policiais corruptos. Ao herói, uma câmera fotográfica.

As coisas estão realmente mudando.



