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A lenda da guitarra baiana e a invenção do trio elétrico
Ao Music Non Stop, o guitar hero Armandinho rememora como seu pai “criou” o Carnaval baiano
Encontro com Armandinho no aeroporto de Fortaleza, onde dividiríamos um motorista para nos levar até o hotel reservado pelo Festival Choro Jazz. A lenda da guitarra baiana faria um show na mesma noite, homenageando Caetano Veloso. De alma sossegada, o já reconhecido cabelo azul e chapéu, ele para para fotos com fãs antes de enfrentarmos o sol quente, falando sobre futebol nordestino. Ali no banco da frente, estava o cara que testemunhou (além de contribuir muito para) o nascimento do Carnaval baiano. Tudo o que fez com que a festa popular de rua soteropolitana se tornasse a mais importante do país passou pelas mãos e os ouvidos de Armando da Costa Macedo.
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“As primeiras coisas que a gente aprendia em casa eram a música e a forma de tocar. Eu nem tenho como explicar como é isso ou aquilo [tecnicamente]. Foi tudo tão natural que não tem muita explicação. Até hoje não sei ler partitura, é tudo muito intuitivo”, me conta ele, já na noite da apresentação no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
A casa a que Armadinho se refere é a maternidade do Carnaval de Salvador. O músico é filho de Osmar, da dupla Dodô e Osmar, criadora suprema do que hoje é uma imensa e milionária festança popular. Na década de 40, os amigos estavam incomodados com a falta de potência sonora nas celebrações de Carnaval. Osmar então viu, no Cine Guarani, um show do violonista paulistano Benedito Chaves. O cara tinha levado um violão elétrico para se apresentar no teatro. Como era estudante de eletrônica na época, o pai de Armandinho foi pra casa e criou seu “pau elétrico”, uma mistura de guitarra e banjo, com captadores que permitiam ligar o instrumento a uma caixa de som.
O filho assistiu à dupla de amigos criar sua pioneira Dupla Elétrica. A estreia da parafenália amplificada rolou em 1950, quando os dois subiram em um Ford 1929 e desfilaram pelas ruas de Salvador, seguidos por uma turma de foliões encantados com a novidade. Tinha coisa ali. E ambos se dedicaram a aperfeiçoar o instrumento, convidando Temístocles Aragão para se juntar ao que agora se chamava Trio Elétrico.
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Armandinho no Festival Choro Jazz. Foto: Divulgação
“Trio Elétrico era o nome da banda de meu pai, só que logo vários outros músicos começaram a imitar o formato, usando o mesmo nome. Meu pai ficava bravo com isso.”
O que era o nome de um grupo, como The Beatles ou Os Mutantes, acabou se tornando o nome de um movimento cultural e gênero musical, o que não impediu Dodô & Osmar de ganhar fama e reconhecimento como os líderes dessa nova onda. Principalmente quando a fábrica de refrigerantes mais famosa da cidade na época, a Fratelli Vita, emprestou um caminhão todo decorado para que o trio desfilasse pelas ruas da cidade, trepado em sua carroceria. A partir dali, eram oficialmente os maiores do Carnaval. E o pequeno Armandinho estava lá, junto do pai, vendo tudo de camarote.
“Naquele tempo, a música do trio elétrico era só instrumental. Então eu aprendia as letras para solar as músicas, para colocá-las na boca do povo. O instrumental traz muito disso. De cantar com o instrumento.” Tudo o que o guitar hero brasileiro sabe de música, aprendeu naquele ambiente.
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Osmar e Dodô em 1950. Foto: Reprodução
“Tudo o que o trio elétrico me ensinou, eu aprendi com meu pai. Meu pai foi um grande mestre do instrumento [a guitarra]. Ele e Dodô. O Dodô era o cara que eletrizava, e meu pai trieletrizava. Eu aprendi tudo ali, envolvido com eles. Pra mim, aprender a tocar guitarra foi como aprender a comer.”
A partir da festa em cima do caminhão de refrigerante, a cultura do trio elétrico não parou mais de crescer. Armandinho cresceu junto. Primeiro, montou o Trio Elétrico Mirim, com amigos músicos. Se embrenhou pelo rock, primeiro com a banda Hell’s Angels e depois com a lendária A Cor do Som, patrimônio da música brasileira. Armadinho foi se integrando ao grupo do pai. Convidou o amigo Moraes Moreira, nos anos 70, primeiro cantor oficial do trio Dodô & Osmar. Tudo ficou gigante. O trio, os caminhões, Armandinho e Moreira. Afinal, “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.
A música do trio foi para além do Carnaval. Lançaram discos, inventaram gêneros musicais, como o frevoque (misturando frevo com rock’n’roll), frevoxé, e daí por diante. O lance era inventar uma nova moda para a popular festa brasileira.
“Tem momentos da música, em que não é preciso um ritmo, mas sim um clima, um efeito”, filosofa Armandinho, hoje um músico requisitado em festivais de jazz, onde apresenta o estilo único, a guitarra baiana, que desenvolveu em seu instrumento.
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O Ford que gerou o primeiro trio elétrico, usado por Dodô e Osmar em 1950, está exposto no Museu da Música, em Salvador. Foto: Reprodução
Em 2024, nada menos do 173 trios elétricos desfilaram no carnaval de Salvador, reunindo quase três milhões de alegres foliões. Para organizar tamanho tráfego, a cidade estabeleceu três rotas, por onde os caminhões escritos se arrastam, distribuindo sua música. Quer saber o nome de cada rota? Circuito Dodô (Barra-Ondina), Circuito Osmar (Campo Grande) e Circuito Batatinha (Centro Histórico). Batatinha era o nome artístico de Osvaldo Alves da Silva, criador do também tradicional bloco Os Internacionais, e um dos grandes difusores do Ilê Aiyê, contribuindo para a valorização da cultura afro-brasileira no Carnaval.
Durante a noite quente de fortaleza, Armandinho se despede do auditório lotado com a serenidade de quem sabe muito o bem o que fez, o que está fazendo e o que ainda fará. Pelo Carnaval, pela música e pelo Brasil, dedilhando sua “miniguitarra”, filha do pau elétrico, em palcos de todos os cantos. O público o saúda com paixão e carinho. Mais uma noite de missão cumprida, na visão do artista, perpetuando a arte que aprendeu brincando.
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