Dom Um Romão

Você Precisa Conhecer Dom Um Romão, o baterista brasileiro que criou a Bossa Nova e tocou com a geração de ouro do Jazz americano

Adriana Arakake
Por Adriana Arakake

Nossa especialista em jazz Adriana Arakake desvenda a história do obscuro (no Brasil) gênio Dom Um Romão, pilar da Bossa Nova, do Fusion e membro da geração de ouro do jazz mundial.

Finalmente e com muita honra, vamos falar de um grande músico brasileiro, muito pouco conhecido, mas de uma importância absurda para a música: Dom Um Romão

A primeira vez que ouvi falar nele, foi depois de um show no Sesc Pompeia, em 2003, com João Donato e Ithamara Koorax, a quem eu não conhecia na época e curiosa que sou, fui pesquisar a respeito, voltei a vê-la num outro show incrível, no Festival de Inverno de Paranapiacaba, em 2007, acompanhada de músicos do Azymuth. Ithamara, uma grande intérprete, vencedora de inúmeros prêmios no exterior, apontada como uma das melhores cantoras de jazz pela conceituada revista Down Beat, em 2004, mesmo ano que Dom Um Romão, (que já havia tocado com Ithamara) foi indicado como um dos melhores percussionistas e aqui chegamos a quem é o homenageado da vez neste texto.

Dom Um Romão nasceu em 3 de agosto de 1925, no Rio de Janeiro, seu nome escolhido pelo pai, Joaquim Romão, inicialmente deveria ser DoUm, em homenagem ao terceiro gêmeo de Cosme e Damião. Uma das lendas conta que com a morte de DoUm, Cosme e Damião se tornaram médicos para atender e curar crianças, sempre de graça. Os padres na época não permitiram o registro da maneira original e sugeriram que DoUm então se tornasse então Dom Um, mas essa é apenas uma curiosidade na vida intensa do artista.

O baterista começou sua carreira muito novo, seguindo os passos do pai, que dominava o instrumento na tradicional gafieira do Clube Musical, na Gávea. Na década de 1940, já profissionalmente, tocava em cabarés e bailes pelo Rio de Janeiro, trabalhou também na Rádio Tupi, acompanhando vários intérpretes.

Em 1958, participa de duas faixas na gravação do conceituadíssimo disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, com interpretações de canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, considerado um marco, o álbum contou também com músicos como João Gilberto nos clássicos Chega de Saudade e Outra Vez. As batidas de violão de João e a bateria de Dom Um, foram os acordes que dariam origem à Bossa Nova e ao Samba Jazz. No entanto, o baterista Juquinha Stockler foi o único creditado no álbum na época, Dom Um só teve seu crédito devidamente reconhecido em 1998, graças ao produtor Arnaldo DeSouteiro, quando incluiu Chega de Saudade na compilação A Trip to Brazil, 40 years of Bossa Nova, pela gravadora de jazz Verve Records.

Músico assíduo nas apresentações no Beco das Garrafas, em Copacabana, reduto onde Dom Um conheceu alguns dos maiores músicos com quem trabalhou, foi lá por exemplo que iniciou com o grupo Copa Trio, junto ao gigante pianista Dom Salvador, o que o levou à diversas participações em shows e gravações de álbuns importantes de grandes artistas como Elis Regina (cantora que Dom Um Romão apresentou ao público no Beco das Garrafas) Quarteto em Cy e de sua então esposa Flora Purim. Participou também da gravação de Samba Esquema Novo (1963, Gravadora Phillips) disco de estreia da carreira de Jorge Ben Jor, que contém o primeiro grande sucesso de sua carreira “Mas que nada”, uma das primeiras músicas a fazer muito sucesso no exterior, tendo inúmeras regravações como as de Ella Fitzgerald e Black Eyed Peas. O arranjador deste clássico de Jorge Ben, JT Meirelles, mais tarde iria criar o conjunto Meirelles e os Copa Cinco, com Dom Um Romão na bateria, Luis Carlos Vinhas no piano, Manuel Gusmão no baixo e Pedro Paulo no trompete, todos profundamente ligados à Bossa Nova.

Dom (segundo, da esquerda para a direita, no grupo Weather Report – foto: arquivo pessoal

Foi no Beco das garrafas que também conheceu Sergio Mendes e a convite dele, com o Sexteto Bossa Rio, foi fazer parte do grandioso time que se apresentou no Carnegie Hall, no lendário Festival de Bossa Nova, em 1962, onde se apresentaram também Tom Jobim, João Gilberto, Milton Banana, entre outros inúmeros nomes de grandes músicos brasileiros. Na plateia lotada, estavam sentados alguns dos maiores nomes do jazz, como Dizzy Gillespie, Miles Davis, Gerry Mulligan entre vários outros, tamanha era a ascensão da nossa música no exterior que muitos desses artistas foram recepcionar o time de brasileiros no aeroporto. Depois dessa noite a Bossa Nova nunca mais foi a mesma e não poderia ser diferente, tornando se uma grande influência no jazz na época e vice-versa.

Firmando residência nos EUA e ainda ao lado de Sergio Mendes, Dom Um também integrou o Brasil 66, gravando o primeiro disco do grupo, Fool on the hill  (1968, A&M Studios), com a música  título composta por Lennon e Mccartney e lançada no EP Magical Mystery Tour (1967, Parlophone Records), o disco traz ainda composições de Simon & Garfunkel, Edu Lobo, Baden Powell em interpretações magistrais numa fusão maravilhosa de samba e jazz, absolutamente original naquele momento, originalidade essa que fez com que subissem ao topo da parada de LPS de jazz mais vendidos da Billboard.

Dom Um Romão, não à toa e muito merecidamente, cai nas graças dos músicos gringos e grava em diversos álbuns com artistas de peso, para citar alguns: Tony Bennett, Ron Carter, Herbie Mann, Cannonball Adderley, em Cannonball’s Bossa Nova (1962, Riverside Records); Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim  1967, pela United Western Records), disco vencedor do Grammy como melhor do ano. Participou também do álbum Wave, de Antonio Carlos Jobim, 1967, gravado no Van Gelder Studio, que, pra quem não se lembra, é o mesmo estudio onde John Coltrane gravou A love supreme. Em 1965, fez turnê com Stan Getz e Astrud Gilberto pelos Estados Unidos e Europa; nos anos 1970, gravou discos com os pioneiros do fusion o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, substituindo Airto Moreira, outro importantíssimo baterista brasileiro, que gravou o primeiro disco, mas precisou sair da banda para cumprir a turnê com Miles Davis e seu cultuado disco Bitches Brew.

Em 1972, o baterista chama a atenção da Muse Records, que propõe a gravação do primeiro disco solo Dom Um Romão, de 1974. Ao lado de músicos brasileiros e norte americanos com diferentes trajetórias como Dom Salvador, João Donato, Sivuca, Stanley Clark e Loyd Mcneil, lançam também Spirit of the Times, de 1975. Em 1976, lança o disco Hotmosphere, pela Pablo Records. Este, dentre os  solos, é meu predileto. Veja bem, não que eu não ame os outros, mas podemos aqui desfrutar de sua maneira sui generis de comandar as baquetas e da grande influência da música regional brasileira, numa união perfeita entre samba, baião e jazz. A interpretação de Caravan, composta por Duke Ellington, é uma verdadeira obra prima. Gravou ainda Saudades, em 1993, Rhythm Traveller, em 1998, Lake of perseverance, e2001, pela Irma Records, um dos maiores sucessos do artista na Europa. Sua discografia já seria suficiente para credenciá-lo. Mas mais que isso, Dom Um participou e ajudou a firmar grandes movimentos da música no Brasil e no exterior, como a Bossa Nova e o Fusion Jazz.

Dom Um Romão

Dom Um Romão foi absolutamente essencial, mas, infelizmente, não é tão conhecido no seu país de origem. Esse foi apenas um apanhado geral, na tentativa de apresentar uma vida que se funde com a história da música brasileira e norte-americana, a liga perfeita dos nossos ritmos com o clássico do jazz resultaram em um som único e tão devidamente cultuado por músicos de todos os cantos. Com certeza faltaram dados porque também faltariam páginas para falar de um legado tão imenso quanto o dele. Para o produtor e “maior descobridor de talentos nacionais” Armando Pittigliani, Dom Um influenciou todos os bateristas surgidos depois dele. “não há realmente um baterista jovem que não tenha um pouco de Dom Um no seu ‘jogo de pratos’, na sua acentuação do grande bombo, na marcação do contratempo no prato-de-pé e sobretudo naquele contra ritmo, com a baqueta esquerda cruzada sobre a caixa, que é, diga-se de passagem, um dos fortes do fabuloso drummer”. Espero que este texto desperte a vontade de ouvir as batidas deste mestre e suas contribuições na criação de algumas das melhores e mais lindas músicas de todos os tempos. Viva Dom Um Romão pra sempre!

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