Oscar 2021

Enfim uma cerimônia do Oscar completamente diferente de todas as outras. E isso é ótimo!

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Por Yasmine Evaristo

Diversidade, posicionamento, atitude. A Academy of Motion Pictures Arts and Science provou, em 2021, ser uma associação de trabalhadores da indústria do cinema e não um clube de empresários. Entenda porque.

A cerimônia do 93ª Oscar, no ano de 2021, provocou reações diversas no público. Desde o início da apresentação pode-se observar as redes sociais em polvorosa comentando desde os visuais até o formato da celebração.

A premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas precisou se adaptar ao contexto da pandemia e foi mais contida, na quantidade de apresentadores e convidados presentes. Dessa maneira todo aquele glamour conhecido do tapete vermelho à decoração foi substituído por uma festa mais intimista. O início da apresentação já deixou a dica de que não veríamos uma cerimônia semelhante à das últimas décadas.

Um Oscar diferente do que estamos acostumados

A atriz e diretora Regina King foi acompanhada pela câmera ao longo da Union Square (estação de metrô de Los Angeles), com um Oscar na mão. Ao seu redor os créditos de abertura do espetáculo eram apresentados. Para cumprir os protocolos de segurança o evento não aconteceu no tradicional Dolby Theater A direção desse “filme” ficou nas mãos de Steven Soderbergh.

Inegavelmente, estamos todos querendo conhecer o responsável pela montagem, pois a alteração da ordem das apresentações foi sem dúvidas a responsável pelo maior desconforto do espectador. Acostumados ao encerramento com a apresentação das categorias mais importantes (Atriz, Ator, Direção e Filme), fomos todos surpreendidos com a reordenação dos anúncios. A cerimônia pareceu ser mais acelerada que o comum. A parte mais emocionante que é o in memorian foi tão agitada que nem parecia um obituário. 

De fato algumas escolhas desgostosas para alguns que acompanham o Oscar. Encontramos reclamações sobre a ausência de cenas dos filmes durante os anúncios e também sobre a falta da pompa e do estilo das roupas dos presentes. Entretanto um encontro mais reconfortante condiz melhor o momento em que nos encontramos. 

Discursos sobre indivíduos que integram um coletivo 

Sergio Lopez-Rivera, Mia Neal and Jamika Wilson, vencedore na categoria de Melhor Cabelo e Maquiagem por “A Voz Suprema do Blues” – foto: divulgação

O Oscar é um veículo de manifestações sobre questões sociais, culturais e humanitárias. Só para ilustrar, em 1973, o ator  Marlon Brando recusou o prêmio de Melhor Ator, por O Poderoso Chefão, devido à má representação de nativos americanos por Hollywood. 

O tom do que seria dito na edição de 2021 foi dado no momento em que Regina King disse que calçou botas, em vez de saltos, para marchar. Sua fala fez referência aos protestos do Black Live Matter e ela ainda completou afirmando que por ser mãe de um garoto negro, conhece esse medo. 

A primeira premiada da noite, Emerald Fennel, agradeceu ao bebê por esperar mais alguns dias para nascer. De maneira semelhante, o dinamarquês  Thomas Vinterberg dedicou sua vitória à sua filha, falecida em um acidente de carro pouco antes do início das filmagens.  

Kaluuya agradeceu aos pais por terem transado o que possibilitou ele estar ali. O ator também citou as pessoas representadas em Judas e o Messias Negro, ao dizer que foi “Inspirado pelo que as pessoas fazem e pelo que elas são.” Trevor Free, vencedor pelo curta em live-action Dois Estranhos relembrou a violência policial que é abordada em seu filme e pediu “Não sejam indiferentes ao nosso povo.”

Zhao, vencedora em direção agradeceu por ter encontrado bondade nas pessoas. A chinesa dedicou seu filme aos que “têm fé e coragem de ver bondade em si e nos outros”. Alice Doyard, produtora do documentário em curta metragem Collete, dedicou sua vitória a todas mulheres que têm coragem de denunciar injustiças. 

Em suma, todos agradecimentos e discursos que mostram as particularidades de cada um daqueles indivíduos, mas também o quanto suas expectativas, anseios e angústias representam outras pessoas. 

Prêmios humanitários

Tyler Perry – foto: divulgação

Os vencedores dos Prêmios Humanitários do Oscar nesse ano foram a Motion Picture Television Fund e para Tyler Perry.

A Motion Picture foi agraciada com o prêmio por sua atuação durante a pandemia. A instituição de caridade oferece assistência aos integrantes das indústrias de cinema e televisão e suas famílias, incluindo serviços como assistência financeira temporária e moradia.

O produtor e diretor, foi premiado por sua influência cultural dentro e fora dos bastidores. Durante a quarentena, Tyler transformou o estúdio privado um espaço que possibilitou o trabalho de artistas durante a quarentena. Só para ilustrar mais alguns de seus feitos ele paga as compras de supermercado de idosos e as despesas de educação de jovens.  

Em seu discurso, recusou as ações e práticas de ódio: “Recuso-me a odiar alguém porque é mexicano ou porque é preto ou branco, ou LGBTQ. Recuso-me a odiar alguém porque ele é um policial. Recuso-me a odiar alguém porque é asiático. Espero que nos recusemos a odiar.”

Diretores mexicanos, diretores asiáticos… qual será a próxima era? 

Bong Joon-ho e Chloé Zhao – foto: montagem/divulgação

Nesse ano a edição foi considerada a mais diversa da história do Oscar, contando com muitas mulheres, afro-americanos e asiáticos, tanto em indicações quanto em premiações. Seria isso um reflexo dos anos anteriores ou uma prévia do que pode acontecer após as novas regras?

Na década de 2010 ao observarmos os vencedores da categoria de Melhor Direção podemos destacar três diretores mexicanos. Em 2014 e 2019, Alfonso Cuarón, em 2015 e 2016, Alejandro González Iñárritu e em 2018, Guillermo Del Toro

Como resultado, após a vitória do sul-coreano Bong Joon-ho no ano passado e da chinesa Chloe Zhao em 2021, podemos esperar maior destaque de produções asiáticas e de descendentes de asiáticos nos próximos anos. Nesse sentido o destaque em uma premiação tão importante pode ampliar a discussão acerca de mais uma forma de racismo, contra pessoas amarelas, que vem sendo propagada nos Estados Unidos e no mundo.

Considerando essas mudanças e as novas regras, que visam maior representatividade no Oscar, o que estimamos são cada vez mais indicações de representantes do áudio visual que mostrem a diversidade da indústria cinematográfica. 

E por falar em tensões raciais essa edição também ficou marcada por uma grande presença de artistas e realizadores negros. Alguns levaram algumas estatuetas como Daniel Kaluuya e H.E.R., bem como Mia Neal Jamika Wilson que fizeram história ao serem as primeiras mulheres negras a vencerem na categoria de Maquiagem e Cabelo. Junto de Sergio Lopez-Rivera, agradeceram aos ancestrais que não desistiram. Contudo o final da cerimônia provocou descontentamento em alguns espectadores. 

Encerramento embaraçoso

Chadwick Boseman e Anthony Hopkins – foto: montagem/divulgação

Porém boa parte do público se decepcionou com a última categoria apresentada. Diante da vitória no Globo de Ouro e Sindicato dos autores, a maioria das pessoas acreditava que a categoria de Melhor Ator seria de Chadwick Boseman, entretanto o prêmio ficou com Anthony Hopkins, pelo drama Meu Pai.

 
 
 
 
 
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A vitória não foi injusta, o que provocou essa frustração foi a expectativa. Sobretudo após ser fomentada por um roteiro de apresentação que deixou para o fim um dos prêmios mais aguardados da noite. Ao fim tivemos que lidar com um anuncio morno, apresentado por Joaquim Phoenix. Bem como as outras apresentações que velozmente citava os indicados e anunciava os vencedores. A reação nas redes contra a vitória de Hopkins são sobrepostas pelo seu agradecimento, prestando homenagem à Chadwick e pela defesa dos familiares do finado ator.

 

Em entrevista ao TMZ o irmão de Chadwick, Derrick Boseman,  defendeu o vencedor. Ele comentou que  “a família não está chateada de forma alguma por Chadwick não ter sido chamado no final da cerimônia do Oscar”. Assim a família deixa uma mensagem àqueles que dizem que o irmão foi desdenhado pela premiação, para Chadwick “um Oscar teria sido uma conquista, mas nunca foi uma obsessão”. 

Nessa edição as cenas “pós-créditos” foram mais interessantes que o fim anticlimático e abrupto.

Yasmine Evaristo

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.

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