Lonnie Smith e Iggy Pop

Hora de atualizar sua playlist! Selecionamos novos artistas que estão renovando o soul e o jazz.

Por Adriana Arakake

O novo sempre vem! Hora de conhecer novos artistas que estão mandando muito bem no soul e no jazz.

 

Muita gente me pergunta o que estou ouvindo agora, quais as novidades, ou diz que não tem nada novo que valha a pena. Resolvi escrever a coluna de hoje principalmente para contradizer a última afirmação. Têm sim e como tem, muita coisa boa, pra mostrar um pouquinho do que ando ouvindo, segue um pequeno apanhado de sons muito bacanas no soul e no jazz lançadas recentemente.

 

 

Jazz is Dead

Jazz is Dead 4 - Azymuth

Imagem: Jazz is Dead 4

Já comecei essa lista com uma coleção de sete discos para vocês verem que não estou brincando. Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge, multi instrumentistas e produtores ligados principalmente ao Hip Hop, se uniram em 2017 para produzir uma série de shows com algumas lendas do jazz. Os shows viraram discos, lançados em 2020, tornando Jazz is Dead um selo. Recomendo todos, mas destaco algumas músicas, são elas: Conexão, em parceria com João Donato; o jazz psicodélico de Apocalíptico, com o genial Azymuth; Isso é que eu sei, com Marcos Valle,  Lions Walk, com Doug Carn e Distant Mode, com Gary Bartz. Os brasileiros absolutamente arrasaram e se eu for obrigada a escolher um só, seria Azymuth.  A ironia no nome é, claro, proposital, o Jazz não está nem perto de estar morto e Jazz is Dead (1 a 7) estão aí para provar isso.

Mulatu Astake & Black Jesus

Mulatu Astake & Black Jesus

foto: divulgação

Em parceria com o coletivo Black Jesus Experience, formado por cantores, rappers e jazzistas do Marrocos, Austrália, Zimbábue e Etiópia,  o multi instrumentista e compositor veterano lançou o disco To Know Without Knowing, em 2020, pela Agogo Records. O álbum, flutua numa boa entre o antigo e moderno, groovado, tem a pegada ethio jazz típica de Mulatu, mas não é só isso. Os vocais, além de lindos, são hipnotizantes e o disco é temperado com rock, funk e hip hop numa alquimia deliciosa.

Conde Favela Sexteto

Conde Favela Sexteto

foto: Fernando Lago

O álbum Temas para Tempos de Guerra, lançado em 2020, surgiu em resposta à morte de uma família alvejada com 80 tiros pelo exército, no Rio de Janeiro. O sexteto nasceu no ABC paulista e, influenciados pelo bebop, hardbop e freejazz, transitam entre o samba jazz, o jazz espiritual, o improviso e o erudito com criatividade, rebeldia e muita beleza.  Formado por  Alex Dias (baixo), Diego Estevam (guitarra), Mabu Reis (trombone), Harlem Nascimento (sax tenor), Rafael Cab (bateria), Edson Ikê (trompete), a banda lançou recentemente, pela plataforma Sesc, o vídeo performance Jazz Pra Que? Com reflexões sobre o jazz, suas origens,  legado e claro, trechos do álbum novo.

Sou muito fã do Conde Favela, depois de 11 anos de carreira, o lançamento de Temas para Tempos de Guerra, é um dos melhores discos atuais e vem pra firmá-los de vez nessa estrada.

Nubya Garcia

Nubya Garcia

foto: divulgação

Após dois EPs de sucesso (Nubya’s 5ive, em 2017 e When We Are, 2018), a saxofonista e compositora finalmente lançou, em 2020 o disco Source e é lindo: faz jus ao título e mistura tudo muito bem, num molho delicioso de cumbia, dub, jazz, soul e eletrônico. O sax de Nubya é o equilíbrio do disco todo.

Entre os músicos que colaboram  estão Joe Armon Jones, tecladista do Ezra Collective, que lançou o álbum de estreia You Can’t Steal My Joy, em 2019) e a trompetista Sheyla Maurice Gray , líder da banda Kokoroko e integrante do septeto Nérija, coletivo formado majoritariamente por mulheres, que também lançou disco, em 2019, Blume, pela Domino Records, com belíssimas melodias marcadas pelos metais, indico muito, adorei esse disco.

Bufo Borealis

Bufo Borealis

foto: divulgação

Pupilas horizontais, o disco de estreia do Bufo Borealis, formado por Rodrigo Saldanha (Amigos Invisíveis) e Juninho Sangiorgio (Ratos de Porão), lançado em maio de 2020, é surpreendente, o punk que vem na bagagem dos músicos, dá a nota a esse ótimo disco de jazz, recheado de participações legais como Edgard Scandurra (Ira!), Rodrigo Carneiro (Mickey Junkies), Roger Martins (Hurtmold) e Fernanda Lira (Crypta), entre outros.

O jazz sempre esteve presente nas vitrolas do duo, que cozinhou a ideia e a vontade de colocar em prática um álbum no estilo por anos, editaram, gravaram, conceberam tudo sozinhos, o resultado desse entusiasmo e envolvimento é perceptível no disco.  Punk e Jazz tem suas similaridades, não na melodia, mas na postura, na busca por liberdade, a mistura não é novidade e acho que tudo começa lá nos anos 1960 com Ornette Colleman entrando no estúdio com outros músicos e saindo com uma peça revolucionária de 37 minutos, mas isso é assunto para outro texto.  Bufo Borealis é punk, é jazz e é muito bom.

Archie Shepp

foto: divulgação

 

O lendário saxofonista se une a seu sobrinho Jason Moore, mais conhecido como Raw Poetic nos vocais, Damu The Fudgemunk na bateria e vibrafones, contribuintes de sensibilidades e histórias completamente diferentes, resultam em um álbum delicioso de hip hop jazz. Shepp, um dos pioneiros do Free Jazz, hoje com 84 anos, conta que realizar esse projeto ao lado desses jovens músicos já é por si só absolutamente maravilhoso. Não fosse só isso, o disco de 66 minutos ainda é vigoroso,  com improvisações cruas numa mistura suave, onde dá para sentir a assinatura de cada artista com naturalidade, o respeito e admiração pelo mestre é notável, algumas faixas chamam Professor Shepp’s Agenda e são puro deleite de free jazz.

Dinamite Combo

Dinamite Combo

foto: divulgaçao

Desafio vocês a colocar o som do novo single lançado pela banda de Curitiba e conseguirem continuar sentados. Afaste os móveis que Danger Zone, produzido com maestria pelo DJ Hum, é uma quebradeira total. Em 2019, a banda lançou o compacto Blow Thy Horns/Life is Hard com composições próprias, agora em 2021, Danger Zone, letra de Willie Dinamite, que também faz os vocais da banda e composição em parceria com Dj Hum, tem como tema principal a pandemia que infelizmente estamos vivendo. O sexteto composto por Caetano Zagonel (baixo), Anderson Limax (guiyarra), Menandro Souza (trompete), Rodrigo Nickel (sax), Yuri Vasselai (bateria), e Willie Dinamite já citado, faz um soul de respeito, acabou de lançar o single e a gente já quer um álbum inteiro sim!

Dr Loonie Smith

Lonnie Smith e Iggy Pop

Lonnie Smith (direita) e Iggy Pop – foto: divulgação

Por último, escrevo essas palavras com um misto de tristeza e alegria.  Tristeza pelo recente falecimento deste mestre do groove, alegria por ele ter nos deixado este último presente. E que presente! O disco Breathe, o terceiro, do aclamado organista, pela Blue Note Records, combina faixas de estúdio e ao vivo, abre e fecha com a participação de Iggy Pop no vocal dos covers do hit soul de Timmy Thomas, Why Can´t We Live Togheter (1972) e o de Donovan , Sunshine Superman (1966).

O álbum foi cuidadosamente produzido pelo presidente da Blue Note, Don Was e apresenta também, algumas músicas gravadas durante a celebração de 75 anos de Smith, em 2017, mesma semana que ele entrou em estúdio pelo aclamado álbum All in My Mind.

Breathe é lindo, ouvi emocionada pelo dinamismo deste mago do Hammond B3, especialmente em Bright Eyes, composição de Smith que ficou conhecida com George Benson e aqui é uma mistura bem elegante de jazz e soul; destaco também Epistrophy, composta por Thelonious Monk e Kenny Clarke em 1941, executada neste álbum com uma roupagem funk incrível.  Entre lamento e agradecimento por uma obra tão maravilhosa, ouçam Dr Lonnie Smith no último volume. Boa Viagem.

 

 

Poderia escrever mais várias e várias linhas sobre cada uma das citações acima e também indicar mais um monte de coisas ótimas sendo lançadas esse ano, ou que saíram recentemente. Tem muito mais: Kamasi Washington lançou Sun Kissed Child; Amaro Freitas com o lindíssimo e aprimorado Sankofa;  William Parker com o intenso Mayan Space Station, ou o delicioso Take Root Among The Stars, do Roots Magic que saiu em 2020, e por ai vai…

Foi meio difícil escolher só algumas, mas as escolhas que fiz foram pensadas com muito carinho, algumas pelo jazz como estilo de vida, sangue, suor, lágrimas e muito amor pela música, principalmente aqui no Brasil, principalmente agora, diante de um governo que desencoraja qualquer forma de arte, para dizer o mínimo.

Salve quem faz a música acontecer, quem mantém o jazz e o soul vivos e olha, pela lista aí de cima, estão mais vivos do que nunca.

 

 

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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