Martir Luther King discursando

Martin Luther King e o Jazz. Como uma geração inteira de músicos foi encorajada a lutar pelos direitos civis graças à influência de Dr King

Por Adriana Arakake

Conheça a história da profunda ligação entre Martin Luther King e o jazz, a ponto de inspirar toda uma geração de artistas a lutar pelos direitos civis.

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Alguns leitores devem estar se perguntando o que Martin Luther King tem a ver com jazz, a resposta é: tudo. Nosso homenageado de hoje desta coluna tinha uma relação muito próxima com músicos e com a música. Na verdade, é bem difícil separar o jazz da luta pelos direitos civis norte americanos, do qual King foi um dos líderes mais expressivos. 

A Música, na visão de King, é algo que “fala pela vida fora da opressão”. Em meio ao que poderia ser apenas dor e sofrimento, o jazz trazia dignidade e respeito, palavras de identidade e significado, fluíam pelas vozes e instrumentos, foi abraçado pelo movimento, assim como abraçou-o intensamente.

Um dia para Martin Luther King

Todo ano, na terceira segunda-feira de janeiro, é comemorado nos Estados Unidos o Martin Luther King Day (MLK Day), o feriado, próximo ao dia do nascimento de King (15 de janeiro de 1929), foi instituído em 1983 e é como se fosse o Dia da Consciência Negra para nós. Um dia para refletir sobre o legado de King, sua luta pelos direitos civis e para celebrar sua calorosa e recíproca relação com o jazz. 

São muitos os artistas que engrossaram o coro ao lado deste líder, são inúmeras canções que tratam da vida, das dores e da beleza do negro norte americano. King dizia que “o negro é chamado para ser a consciência da nação” e em nenhum lugar, essa chamada foi tão clara quanto o jazz, a música cujas maiores estrelas eram negras, em um país tomado pela opressão. 

King discursa no Festival de Jazz de Berlim

Cartaz do Festival de Jazz de Berlim

Em 1964, a convite dos organizadores, Dr King abriu o Festival de Jazz de Berlim com um belíssimo discurso, um resumo perfeito desse acordo entre a luta e a arte que forneceu suporte emocional e crítico ao movimento, num tempo em que os artistas perceberam que suas vozes e instrumentos não poderiam servir apenas para entreter o público, fingindo que tudo estava bem, mas sim que tinham o dever de falar, de pedir por inclusão e respeito, de se opor às condições brutais a que eram submetidos. O evento foi o primeiro de uma série de festivais que ajudaram a consolidar a importância do jazz no mundo todo. 

Já falei aqui, em meus textos anteriores, das músicas Alabama, de John Coltrane ou Mississippi Goddam ,de Nina Simone, e também de uma primeira versão do lendário discurso de King “Eu tenho um sonho” que foi declamado na notória Marcha de Detroit, organizada pelo pai de Aretha Franklin, mas são inúmeros os artistas que fizeram coro com King e a luta à qual dedicou sua vida. O saxofonista Ben Branch, por exemplo, se apresentava, com a orquestra que dirigia, nos comícios e eventos beneficentes promovidos por King.

 

 

O jazz na luta pelos direitos civis

Em 1957, um decreto do então governador do Arkansas quis impedir a integração de 9 estudantes negros à escola. A indignação de Charles Mingus com o caso resultou na composição “Fables of Faubus“, que apareceu pela primeira vez sem letras, pois a gravadora Columbia considerou os versos tão incendiários que se recusou a gravá-los.

Mingus, no entanto, regravou a canção no ano segunte pela Candid Records. A atitude da Columbia demonstra bem o que os artistas passavam, alguns nomes do jazz na época abstiveram-se de fazer declarações contra as injustiças sociais e foram duramente criticados.

Charles Mingus ajudou a romper a barreira e tradições antigas de depender do público branco e não querer desagradá-lo. Em 1962, o escritor e crítico musical Amiri Baraka usou as palavras perfeitas para definir o que nortearia o trabalho dos jazzistas “’Se você não gosta, não ouça”. O proprietário da Candid Records, Nat Hentoff, crítico de jazz e colunista de longa data do Village Voice, não fez apenas ecoar o protesto vocal de Mingus em Fabus, mas também lançou em 1960, o álbum de Max Roach , We Insist! Freedom Now Suite , que trazia em sua capa uma foto em um balcão de lanchonete, remetendo ao “sit in” que pregava o fim da segregação nos estabelecimentos e ao protesto de King, que se sentou com outros 51 ativistas em um restaurante “para brancos” em Atlanta e todos acabaram presos como invasores. Em 1963, Sonny Rollins grava pela Riverside Records, o álbum The Freedom Suite, uma declaração de liberdade musical e racial. Ella Fitzgerald foi uma das muitas artistas que homenagearam postumamente o Dr. King com seu single “He Had A Dream”. 

capa do disco We Insist de Max Roach

Capa do disco de Max Roach

King entendeu a influência do jazz para todas as audiências

Enquanto a conexão entre a música e o ativismo se fortaleciam, Jazzistas tocavam e falavam abertamente sobre quem eram ou o que pensavam, causando nos racistas desde repulsa à atos de extrema violência. Mas no palco havia liberdade e sem dúvida, devia ser uma imagem poderosíssima, esses artistas incríveis, comandando lugares lotados de ouvintes atentos.

Sob acordes lindos e comoventes, não era nada difícil encontrar discursos de resistência, de libertação e até de raiva, “muito do poder de nosso Movimento pela liberdade nos Estados Unidos veio da música” eram os dizeres de King. 

A política está em todos os lugares e ações, desde a escolha do que comemos e vestimos até ser isento, ou não. Tudo é política, mesmo que a pessoa não saiba disso. Na arte, não poderia ser diferente e o jazz, obviamente, não pode ser retirado dessa premissa. O estilo nasceu nos campos onde negros escravizados trabalhavam, e não a toa, séculos depois se tornou o grito contra indivíduos e governos que tentavam silenciar a voz negra. Os artistas da época perceberam que tinham que falar com o mundo ao seu redor, e o mundo ouviu, como disse King o jazz precisava ser exportado, precisava ser ouvido e foi. 

Harry Bellafonte e Martir Luther King

Harry Bellafonte arranca gargalhadas de Martir Luther King, neste belíssimo registro nos bastidores do NY Majestic Theatre em 1965 – foto: reprodução Youtube.

Gritos de liberdade que ecoam até hoje na música

A música ainda desempenha um papel importante nas lutas de hoje. Um som diferente, mas você ainda pode sentir o poder e a coragem que essas vozes deram e dão à movimentos. Termino este texto de aclamação a Dr King e à igualdade e ao respeito pelos quais o jazz luta, com um pequeno trecho do poderoso discurso no Festival de Berlim. 

…O jazz fala pela vida. Os Blues contam a história das dificuldades da vida e, se você pensar por um momento, perceberá que eles pegam as realidades mais difíceis da vida e as colocam na música, apenas para sair com alguma nova esperança ou sensação de triunfo.

Esta é uma música triunfante…

E agora, o Jazz é exportado para o mundo. Pois na luta particular do Negro na América há algo semelhante à luta universal do homem moderno. Todo mundo tem o Blues. Todo mundo anseia por significado. Todo mundo precisa amar e ser amado. Todo mundo precisa bater palmas e ser feliz. Todo mundo anseia por fé.

Na música, especialmente nesta ampla categoria chamada Jazz, existe um trampolim para tudo isso.

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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