Veja tudo o que rolou no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival 2021, um dos festivais mais bacanas do país

Por Adriana Arakake

Visitamos o Rio das Ostras Jazz e Blues Festival 2021, um dos maiores e mais tradicionais festivais brasileiros, e contamos tudo para nossos leitores

Entre os dias 12 e 15 de novembro, tive o imenso prazer de acompanhar os shows do 17o Rio das ostras Jazz e Blues Festival, com um line up incrível, o maior evento de jazz gratuito da América Latina. Conversei com quase todos os artistas e o sentimento que definiu esta edição foi a emoção. Muitas das bandas estavam em sua primeira apresentação com público, pós pandemia e a saudade de sentir o calor e vibração da plateia foi algo presente em todas as conversas que tive.

A abertura do festival ficou por conta do lendário Azymuth com a participação do DJ Nuts. O trio conversou com esta coluna num papo delicioso, onde me contaram sobre o começo da carreira quando a banda ainda se chamava Seleção e tocava com diversos artistas como Marcos Valle, entre outros. Na ativa desde 1973 e inicialmente formado por Ivan Conti (Mamão) na bateria, Alex Malheiros (baixo) e José Roberto Bertrami (teclados), após o falecimento de Bertrami alguns músicos passaram pela banda e desde 2015. Quem comanda os teclados é Kiko Continentino

Mamão relata que “com a ida de Bertrami, nós tivemos a grande satisfação de ter o Kiko, um grande músico que sacou a onda e já entrou no clima, acrescentou muito”

Kiko Continentino e Alex Malheiros – Azymuth foto Cezar Fernandes

Precursores na mistura de estilos, soul, jazz, funk, samba e até eletrônico (Bertrami já trabalhava com sintetizadores no final dos anos 1960 e a bateria eletrônica, que já era explorada por Ivan Conti, por exemplo), inovou fundindo o que havia na vanguarda mundial com as raízes da música brasileira quando o estilo jazz fusion estava apenas começando a ser reconhecido. “Nós fomos pioneiros não só no Brasil, no mundo né, os caras lá fora também estavam começando experimentar… experiências com muitos instrumentos”.

Durante a pandemia dois discos foram lançados, um da série Jazz is Dead (2020), idealizado pelos produtores Adrian Younge e Ali Shaheed,  e a coletânea Demos (1973-1975)  com várias gravações inéditas resgatas dos anos 1970.

“A roda não parou de girar, ficou meio emperrada, mas girou” – dizem – “a música continua sendo um caminho, não tem como emudecer, é expansiva, ela vai procurando todas as frestas, mesmo com a cortina de ferro que foi colocada ela vai surgir de algum jeito”

O DJ Nuts, com uma longa estrada na discotecagem e culto à música brasileira, a quem o trio se referiu como “da família”, contou como se sentiu com essa parceria:  “esse é um show que eu adoraria ver outro dj tocar com eles, eu só iria criticar (risos), então meu julgamento em cima disso é extremo, estar no palco com esses caras é não atrapalhar, minha intervenção é pra não interferir e sim ter uma conversa, como eu poderia fazer alguma besteira com o Malheiros do meu lado, por exemplo?

O Azymuth lançou dois discos recentemente, um da série Jazz is Dead (2020), resultado do encontro com os idealizadores e produtores Andre Younge e Ali Al Shaheed e a coletânea “Demos”, com maioria de gravações inéditas, resgatadas dos anos 1970.

Esse impacto todo foi só a abertura desse festival incrível. O Azymuth, assistido por uma plateia enorme e um backstage lotado, precedeu o show delicioso do norte americano Keith Dunn, acompanhado pela banda The Simi Brothers. O gaitista que começou tocar com 9 anos de idade e tem em “Alone With The Blues” a marca de primeiro álbum da história do blues a ser gravado com o gaitista tocando  e cantando sozinho, sem overdubs ou músicos convidados. A música de Keith Dunn é melódica com raízes na tradição do blues, entre improvisos e solos emocionantes de gaita, o artista ofereceu ao público, em suas duas apresentações, uma experiência autentica do blues.

Keith Dunn foto: Cezar Fernandes

O segundo dia do evento contou com a participação de Nico Rezende interpretando canções de Chet Baker; Delvon Lamarr Organ Trio, com seu soul jazz de roupagem vintage, que fizeram o público dançar muito; o britânico Jon Cleary, tem em seu piano a alma de New Orleans, cidade adotada de coração por Cleary, com um jazz, aliado ao rythm & blues, blues e ritmos latinos, fez um show contagiante, o versátil baixista Cornell Williams foi uma atração a parte neste belíssimo espetáculo.

Delvon Lamar Organ Trio

Delvon Lamarr Organ Trio Foto: Cezar Fernandes

Domingo, terceiro dia do festival, foi a vez de Hamilton de Holanda com a companhia luxuosa de Chris Potter, apresentar um espetáculo absolutamente emocionante, entre composições próprias de Hamilton e interpretações, fiquei particularmente comovida com a execução de Chega de Saudade, música composta por Vinicius de Moraes e Tom Jobim e gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso, em 1959, foi cantada em coro pelo mar de gente que lotou o gramado do Festival e foi uma das coisas mais bonitas que já presenciei.

Roosevelt Collier foto: Cezar Fernandes

Em seguida foi a vez do simpático Roosevelt Collier, o guitarrista norte americano impactou o público com o som saído de seu pedal steel que mistura gospel, blues, rock e funk, a participação de Eric Gales foi o auge da apresentação.

Pra fechar a noite a Black Rio, de quem sou muito fã, fez um show absolutamente delicioso interpretando os clássicos da banda, o som colocou todo mundo pra dançar; especialmente nos bastidores, fizemos uma festa inesquecível, produção, músicos eu e a Bruna Guedes, minha colega de trabalho aqui do Music Non Stop, que se tornou uma grande amiga me acompanhando nessa viagem maravilhosa, caímos no suingue da tradicional  big band carioca, foi memorável.

Banda Black Rio foto: Adriana Arakake

Eric Gales foi o grande showman do festival, com duas apresentações levou o público ao delírio em ambas, com shows super interativos. Na noite de sábado, 13, na metade do espetáculo, o norte americano desceu do palco e tocou no meio da plateia repleta de gente; no encerramento do festival, na ensolarada tarde de segunda-feira, 15 pediu à produção que abrisse os portões do Palco na Lagoa do Iriry, para que todo o público que estava na parte de fora pudesse entrar, abriu o show com as tradicionais notas da capoeira, a mesma base usada por Gilberto Gil na introdução de Parabolicamará, já deixando todos eufóricos. Considerado um dos melhores guitarristas da atualidade, extremamente carismático, Gales fez shows de uma energia impressionante, sua esposa LaDonna Gales é percussionista da banda e nós, ficamos todos apaixonados por esse casal.

O Festival todo teve produção impecável, foi dinâmico e de um astral maravilhoso, ver uma cidade toda respirando música, vivendo este evento, foi algo bem mágico, várias bandas locais se apresentaram também e agradaram muito, aplaudo aqui esta iniciativa tão importante, de apoio a bandas independentes, que sofrem com a falta de espaço.

Eric Gales

Eric Gales – foto: Cezar Fernandes

Este sábado, 20.11, começa o Niterói Jazz e Blues Festival, com apresentações de Roosevel Collier, Azymuth & DJ Nuts, Keith Dunn & The Simi Brothers, Hamilton de Holanda & Chris Potter, entre outros, a entrada é franca. A Black Rio faz shows de lançamento do disco em tributo ao mestre do soul brasileiro Gerson King Combo, com a participação de Carlos Dafé  nos dias 20.11, sábado, na Concha Acústica de Niterói e dia 21.11 no Pavilhão de Convenções do Anhembi. Os amanates da black music ainda podem se deleitar com o show da Black Up, que tem entre seus integrantes alguns dissidentes da Black Rio, na Praça do Patriarca, RJ.

O ano começou sem sabermos direito o rumo que as coisas iriam tomar, felizmente, com a vacinação avançando cada vez mais, podemos novamente desfrutar desses momentos tão prazerosos que a música nos proporciona, em uníssono, todos os artistas que conversei falaram dessa emoção da volta aos palcos, e os estrangeiros, do amor que sentiram pelo Brasil, pelo público brasileiro e por sua recepção extremamente calorosa. Sensações que vão ficar pra sempre na memória de quem esteve nesta edição do Rio das Ostras Jazz e Blues Festival. Inesquecível.

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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