Bruno Mars - The Romantic

The Romantic

Bruno Mars

Pop | 2026

7.9/10

Jota Wagner
Por Jota Wagner

 

Bruno Mars acaba de lançar seu quarto álbum, The Romantic, dez anos depois de 24k Magic. Nesse espaço de tempo, viajou o mundo, conquistou países inteiros com acertadas estratégias de relações públicas, lotou arenas e viu seu país escorregar para um buraco de escândalos, autoritarismos, rejeição e, em uma tentativa de obnubilar tudo isso, guerras que estão demolindo continentes inteiros.

Quando começou a compor e gravar as nove canções de seu novo trabalho, não imaginou que ele seria lançado no ápice dessa rejeição. O disco chegou em 27 de fevereiro, uma sexta-feira. No dia seguinte, os Estados Unidos começaram a investir contra o Irã, em ataques coordenados com Israel. O simpaticão sempre evitou posicionamentos políticos muito fortes (apesar de saber-se ser democrata e apoiador dos direitos dos imigrantes). A ideia era que The Romantic caísse como uma bomba no mundo da música. Mas outras, mais traumatizantes e literais, tomaram os noticiários.

O que Bruninho já sabia, no entanto, é que um porto-riquenho havia se aproveitando da onda antiestadunidense para ganhar o mundo, levantando a bandeira do orgulho de suas raízes do continente americano, unindo povos e ganhando a simpatia de jovens de todos os cantos do planeta. Um posição que era dele, logo após o final da pandemia. E no mundo do do show business, não tem santinho. Ninguém quer ser o vice-campeão. Para o álbum inédito, a estratégia de Mars e seu excelente time de comunicação foi clara: resgatar o poder da música estadunidense.

Embora comece a obra com uma canção altamente influenciada pela música ranchera mexicana, Risk It All, o artista apostou no poder do soul americano como ferramenta de união e resgate. Um cartão postal afetivo, pronto para mostrar ao mundo o outro lado do país estampado em seu passaporte. Recorreu a Stevie Wonder, cuja voz se parece cada vez mais com a de Mars, conforme envelhece, Michael Jackson e até mesmo Carlos Santana, em novo afago ao povo mexicano (onde Bad Bunny reina).

Something Serious, a sétima faixa, é uma reinvenção de Evil Ways, popularizada pelo guitar hero mexicano em 1969 (embora composta um ano antes por Clarence “Sonny” Henry e gravada por Willie Bobo, sejamos justos). Poderia se chamar Evil Ways Part 2.

The Romantic tem momentos sublimes. A trinca God Was Showing Off, Why You Wanna Fight? e On My Soul (trazendo o melhor do artista, o Bruno Mars no pelo) é uma sopa de soul e R&B impecável. São as músicas que estarão no setlist de seus próximos shows, responsáveis pela parte mais quente do baile. E baile é uma coisa que o cara sabe fazer.

Não fosse o terrível timing do lançamento do álbum, a briga de Bruno (que desfila com um chapéu de cowboy no material visual do álbum) com Bunny seria um divertido faroeste artístico, gostoso de ver e de assumir um lado para torcer. O ícone porto-riquenho é o personagem do colonizado que se revolta. O havaiano, o do que participou da colonização do seu país, partindo de quando tudo era canto do México para uma miscigenação com os escravizados, donos da raiz musical negra dos EUA. Essa sim, uma guerra divertida, pronta para trazer superação artística e muito groove bom no universo pop.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.