Charllie Chan - desenho animado

Racismo pop em Hollywood – a história de Charlie Chan, o detetive chinês que era representado por atores ocidentais em mais de quarenta filmes

Por Ricardo Giassetti

Em seus bons tempos, Charlie Chan, o detetive mais famoso de Honolulu, foi tão popular quanto Sherlock Holmes e muito menos chinês do que você imagina.

Na estreia de sua coluna mensal, Ricardo Giassetti conta história do icônico personagem criado pelo escritor Ear Derr Biggers, Charlie Chan.

 

No segundo quarto do século 20, o personagem Charlie Chan se tornou uma febre pop que invadiu a literatura popular, os programas de rádio, cinemas, TV, tiras de jornal e até os desenhos animados. Desde a sua criação, em 1925 — estreou na novela A casa sem chave, de Earl Derr Biggers —, e ao longo das décadas seguintes em outras mídias, uma análise rápida desse excêntrico detetive nos revela muitos “atos de bondade” ocidentais da época que hoje poderiam ser classificados como racistas e protecionistas.

Em 2019 tive o prazer de editar esse livro. Uma ação da escola LabPub, da Cássia Carrenho, organizou uma turma inteira de tradutores para um trabalho coletivo, coordenado pela Monique D’Orazio. Essa parceria do Instituto Mojo me deu a oportunidade de editar esse livro, que foi lançado no início de 2022 com uma introdução bastante detalhada escrita a seis mãos, comigo, Renato Roschel e o especialista em cinema Carlos Primati. Essa edição ainda está disponível, mas somente na Amazon. Ainda quero muito editar os outros livros da série de Chan, mas também os mais agressivos e pró-Yellow Peril, incluindo aqueles escritos por Sax Rohmer.

Hoje bem mais discreto em termos de popularidade, Charlie Chan começou sua carreira como um plágio estratégico de Biggers. O criador de Charlie Chan sempre foi um escritor esperto e que sabia fazer dinheiro. Suas escolhas como novelista, roteirista e dramaturgo sempre observaram temas e tramas mais fáceis e vendáveis. Seus livros tinham histórias leves, alguns beiravam a comédia, e obviamente eram escritos para uma audiência menos erudita.

Charlie Chan (Warner Oland)

O ator (sueco!) Warner Oland à direita, interpretando o detetive chinês Charlie Chan – foto: reprodução Youtube

Um detetive

Histórias de detetive eram sinônimo de best-seller na época. Fossem os casos ainda recentes de Sherlock Holmes, lançados desde o final do século 19, ou as histórias da então novata e talentosa Agatha Christie, o início do século passado tinha uma fartura de crimes solucionados por detetives: Maigret, Hercule Poirot, Max Carrados, Padre Brown.

No Havaí

Cenários excêntricos e exuberantes, navios, portos, vulcões e palmeiras, assassinatos com muitos suspeitos, aristocracias decadentes, os “anos perdidos” de 1920, a similaridade entre capangas e gente podre de rica tão criminosa quanto os assaltantes e assassinos da rua. Nada mau como palco para frivolidades e crimes.

Mas que fosse chinês

algo impensável na época, pois os chineses eram retratados na ficção unicamente em dois papeis. Ou era o vilão mais maquiavélico e cruel, traiçoeiro e desumano; ou era um figurante na lavanderia, de trancinha, dentuço e com a pele exageradamente amarelada.

Detetive chinês havaiano = Grande ideia.

 

Assim, Biggers esquadrinhou o cenário de livros de detetive para chegar em algo que talvez se destacasse nas prateleiras das livrarias. Mas sua inspiração não veio de outro lugar senão da vida real. Chang Apana, nascido em 1871, era um detetive da polícia de Honolulu. Sino-havaiano, despertava a curiosidade dos colegas de trabalho e dos turistas por sua origem inusitada e seu jeitão entre sábio e cômico. Naquela época, os chineses em solo estadunidense estavam praticamente imobilizados socialmente devido ao Ato de Exclusão Chinesa (1882), que proibiu a entrada de chineses por dez anos, e ao Ato Imigratório (1924), que restringia a entrada, o trabalho, a liberdade de ir e vir e a possibilidade de ser dono de seu próprio negócio. Até hoje, o Ato de Exclusão é a única lei nos EUA que explicitamente proibiu a entrada de uma etnia específica.

Earl Derr Biggers

Earl Derr Biggers, criador de Charlie Chan – imagem: Wikipedia

Bem, Charlie Chan era um chinês às avessas do que o Império Britânico e as leis racistas da Costa Oeste dos EUA pregavam para as suas populações já havia quase um século. Ele era engraçado, bonachão, simpático, tinha família e filhos e adorava citar poesia em inglês em seu sotaque sofrível. Mas ele era um agente da lei, resolvia os crimes mais complicados com uma invejável (quase irritante) paciência oriental e prendia o bandido no final — geralmente gente rica e gananciosa. Isso dava ao personagem um salvo-conduto para ser uma colagem de trejeitos e estereótipos depreciativos. Ele era chinês, mas tomava refrigerante e não chá; ele não tinha um ou dois, mas sete ou oito filhos; ele morava nos EUA, mas sua casa ficava numa quase-favela em uma chinatown.

O sucesso em Hollywood

A associação de Biggers com Hollywood já havia começado com seu primeiro livro, Sete chaves para Baldpate, de 1913, adaptado para o teatro e para as telas ainda do cinema mudo em 1917. Essa obra seria ainda adaptada para o cinema várias vezes, sempre com sucesso, até os anos 1980. Os estúdios não demoraram a comprar os direitos de Biggers para transportar o sucesso de vendas de Charlie Chan para os cinemas. O sucesso de A casa sem chave se transformou em uma série, com um livro por ano, totalizando seis livros.

Mas no cinema a vida de Chan seria muito mais longa e diversificada. Embora muitos deles tenham se perdido, cerca quarenta filmes foram produzidos, além de seriados para cinema. Mas em todos esses, nunca o detetive chinês Charlie Chan foi interpretado por um chinês de verdade — nem mesmo por um asiático.

Ainda mais intrigante é que mesmo as cópias na esteira do sucesso de Chan, como Mr. Wu, Mr. Wong e outros, também nunca foram interpretados por chineses ou asiáticos — com uma ou outra raríssima exceção. Atores brancos da época como Lon Chaney, Boris Karloff e Bela Lugosi eram maquiados com feições asiáticas para tomarem o lugar dos protagonistas. O Charlie Chan mais famoso foi Warner Oland, nascido na Suécia!

Mr Wong, interpretado por Boris Karloff

Mr Wong, detetive criado na esteira de Charlie Chan, tinha o inglês Boris Karloff como protagonista – imagem: Youtube

Técnicas de whitewashing e o preconceito aos chineses pelos ocidentais mantinham os asiáticos longe das telas. Esse período, desde as Guerras do Ópio, que foram dois conflitos durante o século 19 entre chineses e a opressão britânica, que promovia o vício ao ópio como forma de controle da população chinesa, até a fundação do partido comunista de Mao, em 1949, é chamado na China de “O Século da Humilhação”. Uma campanha aberta de difamação do ocidente teve início para fazer com que a pecha de drogados, preguiçosos, burros e nada confiáveis aderisse a todo o povo chinês. Daí surgiu o que foi batizado no ocidente de maneira vergonhosa como “O perigo amarelo”. Eles são muitos! Eles são maus! Eles vão nos derrotar se não os derrotarmos primeiro!

Detetive desvendo crimes no Rio dos anos 40

Mas nas telas o inusitado gentil chinês voava alto, deixando a todos, principalmente seus compatriotas, encantados e ávidos por novas aventuras. No cinema, Chan foi para os quatro cantos do mundo desvendar crimes, veio ao Brasil, foi aos Jogos Olímpicos. Virou pai de quase uma dezena de crianças no desenho animado da Hanna-Barbera, nos anos 1970. E, como era de se esperar, quando apareceu alguém como Charlie Chan para representar sua cultura, bastou que os chineses olhassem para o rol de vilões infames como Fu Manchu para abraçar o cordial detetive. Na China, Charlie Chan foi um sucesso e as reprises de seus filmes hollywoodianos lotavam os cinemas.

No mesmo período, entre 1930 e 1940, na China, filmes inéditos eram produzidos e reprises dos filmes americanos invadiram os cinemas. Charlie Chan era disparado o personagem estrangeiro mais famoso na China — Warner Oland afirmava que, em uma visita ao país, foi tratado como se fosse um nativo chinês, sempre sendo chamado de “Mr. Chan”.

A Marvel lidou com esse problema ao colocar o britânico Ben Kingsley no papel do Mandarim na franquia do Homem de Ferro. E, no filme, Kingsley se revela sendo Trevor Slattery, um ator contratado para se passar pelo vilão chinês.

Charlie Chan demonstrou sua força como personagem e sobreviveu também até à onda racista mais radical do cinema e da literatura, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os personagens de detetives se tornaram homens brancos, rudes e armados — como na literatura hardboiled de Dashiell Hammett e de Raymond Chandler.

Até hoje as histórias do detetive de Honolulu seguem instigantes, ágeis e atuais. Enquanto a literatura de Derr Biggers nunca foi pretensiosa, Chan leva os enredos adiante, mantendo o leitor ao seu lado na investigação; e sua presença cria uma sensação de segurança. Esse é o Chan que existe. Ele pode ser uma aberração cultural, um híbrido sem identidade cheio de clichês, mas também é um personagem consagrado e querido. Ele é um detetive asiático criado por um americano formado em Harvard que se inspirou em uma pessoa real e que se tornou o personagem mais famoso em seu tempo.

 

 

Colonialismo cultural em uma chuva de estereótipos

Ironicamente, em grande parte, esse amor pelo personagem se devia ao fato de ter sido o primeiro chinês a ser retratado de maneira positiva. Um feedback loop criado não apenas por Derr Biggers, mas também pelas ondas racistas ocidentais que transpassam os séculos 19, 20 e 21. A distorção sócio-política originada pela Grã-Bretanha e a tendência popular para adotar personagens inesquecíveis se encontram em Charlie Chan.

O colonialismo cultural e o terrorismo político e econômico continuam a todo vapor até hoje. A China continua metendo medo no ocidente por sua paciência, perseverança e coletividade. É um modo de pensar que não tem 500 anos como os EUA, nem dois mil anos como a Europa. Mas cinco mil anos.

Atualmente a corrente de produções e profissionais com mais variedade étnica e de gênero está em alta. Mas será que Hollywood mudou ou mudou o consumidor? Os sucessos como o Pantera Negra, da Marvel, prêmios da academia para asiáticos e mudanças de paradigmas nas plataformas de streaming como Netflix e Prime parecem despertar a vontade de mudar e de evoluir no pensamento ético. Mas talvez isso seja somente uma resposta consciente e esperta de Hollywood, como a ideia de Biggers para Charlie Chan. Monta-se um cenário, um mosaico com os elementos necessários no momento, aproveita-se a onda e curte-se uma bela surfada em praias paradisíacas. A ética sempre foi um produto do seu tempo. Você pode achar que está assistindo a um chinês ou um negro estrelando um filme, mas será que você vai tomar um susto quando ele for lavar a cara?

 

Ricardo Giassetti

http://www.mojo.org.br

Ricardo Giassetti fundou a Mojo Books em 2006 — hoje Instituto Mojo de Comunicação Intercultural — para promover a aproximação entre as mais diversas culturas por meio da literatura e do livre acesso ao conhecimento. O website mojo.org.br hospeda uma biblioteca livre de obras em formato digital. Consultor de cultura participativa, remix e localização cultural.

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