Tawanne Villarin em jardim

Programa de rádio do nordeste divulga artistas da região para o mundo e a gente pergunta: por que é que no Brasil as cenas de cada região não se comunicam?

Por Jota Wagner

Artistas e comunicadores das diferentes regiões brasileiras raramente se comunicam. O Nordeste sempre esteve à frente de todos quando o assunto é chamar para a conversa e o programa ouVisse, da Rádio Veneno, é mais uma iniciativa neste sentido.

O Nordeste sempre propôs o diálogo e o intercâmbio entre os movimentos culturais do país. Falta a gente responder suas mensagens.

“Brasília tem uma cena bem intensa. A gente só não se preocupa em contar pra vocês de São Paulo”. Ouvi, sentado em uma espécie de sorveteria – ou uma mesa de bar à beira de um lago? –  em uma tarde bucólica e ensolarada, do DJ brasiliense Drezinou teria sido o DJ Oblongui? – após uma absolutamente insana e lotada festa em que havia tocado na noite anterior, chamada Mistura Fina (ou teria sido o lotado e insano bar underground 402?).

Lapsos eternos de uma mente com poucas lembranças à parte, a frase era um resposta à minha surpresa em me deparar, no planalto central, com uma cena sólida, tórrida e independente de música dançante. Eu olhei para dentro ao ouvir isso.  Me lembrei de uma placa viária que havia visto algumas semanas antes, na saída de Belém para Ananindeua, no Pará, dizendo – “Brasília, 1.966km”.

“Como esta p$*#a de país é grande” – pensei.

A origem da Síndrome de Umbigueler

Nós, paulistas e cariocas nascemos com a síndrome de Umbigueler, que enverga a vértebra de tal forma que o par de olhos estacionam a poucos centímetros da própria barriga.  Séculos e ciclos provocaram esta mutação. Os portos, o café, a semana de 22, o Tropicalismo, a Jovem Guarda, o Leblon…. o Hell´s Club.

Surfando na auto onda, deixamos de perceber o que rolava por aí. Quando, generosos, um movimento ou outro se preocupava em bater à nossa porta, recebíamos deslumbrados a grande novidade. O Clube da Esquina, o rock gaúcho e de Brasília, o Manguebeat…  mas é pergunta que fica é:

Quão maiores seríamos se as religiões realmente colaborassem entre si?

O Nordeste chama. Vamos conversar?

Se tem um região manda nas iniciativas que promovem este diálogo, sem dúvida é o Nordeste. Coletivos como o Pragatecno derrubam muros desde a década de 90. Artistas da MPB e rock do Norte e Nordeste ditam tendências há anos. De Far from Alaska a Reiner, a turma “lá de cima” nos mostra que o futuro é decentralizado.

A agitadora Tawanne Villarin, que já colaborou aqui com o Music Non Stop, é a criadora de mais uma iniciativa que busca soltar no ar as ondas sonoras produzidas na região Nordeste com o novo radio show ouVisse.

Tawanne Villarin, apresentadora e DJ

Tawanne Villarin – foto: Gabriela Paraíso

“O papel dos comunicadores ou de quem produz conteúdo é informar, mas, informar trazendo a diversidade e pluralidade de regiões, gêneros, classes sociais e mais, sabe? Nós, como sociedade, nos transformamos,
em parte, nisso.” – analisa Tawane, que encontrou na difusão da cultura eletrônica nordestina sua missão – “dar visibilidade para os artistas Nordestinos que são impossibilitados de mostrarem seu trabalho, muitas vezes pela mídia local, falta de oportunidade e/ou ferramentas. Foi quando no primeiro semestre de 2019, idealizei um portal com mais duas pessoas com o objetivo de dar espaço aos artistas nordestinos (Portal Bitz, hoje desativado)”.

O convite partiu da rádio Veneno

O Ouvisse faz parte da grade de programação da webradio Veneno e pode ser sintonizado ao vivo ou acessado a qualquer momento (e de qualquer lugar do mundo, claro) em seus arquivos. Partindo de Recife, o programa recebe artistas de toda a região. Ao produzir cada episódio dedicado a um artista, acaba por se tornar uma senhora vitrine para quem participa.  O programa tem uma deliciosa vibe dos programas de rádio das antigas, como por exemplo as entrevistas conduzidas com naturalidade e alegria. Vale conferir.

DJ Karmeleoa

Karmaleoa, primeira convidada do programa – foto: reprodução Instagram

Tawanne não economizou a responder minha pergunta sobre a situação atual da criação nordestina em comparação à tempos anteriores. A resposta é boa demais para ser editada. Senta que lá vem história.

Bem, essa é uma resposta que necessita de uma breve contextualização histórica. Antes de tudo, falar do Nordeste – como um todo – pode ser complicado; cada estado carrega uma cultura musical enorme e com uma realidade distinta.

Mas, no aspecto geral, após o período dos anos 90/2000 com o início do movimento Manguebeat, que colocou Recife e todo o Nordeste no circuito do entretenimento musical para além do eixo sul e sudeste, a região se
deparou com um hiato de artistas que exportassem músicas, o que agravou a situação também foi a falta da valorização local.

Diante disso, muitos cantores, DJs, produtores resolveram focar na carreira internacional, como foi o caso do DJ Dolores e outras bandas da região. Até mesmo o forró, estilo que está presente em todo território nordestino, fez questão de fazer este “intercâmbio” musical indo para outras regiões do país em busca de
uma aceitação maior, tendo assim, uma participação direta e bastante ativa na valorização cultural do Nordeste.

Porém, o que contribuiu para a cena musical nordestina aquecer foi a massificação da internet e, claro, as redes sociais. A partir desse movimento, muitos jovens viram uma oportunidade de mostrar seu trabalho e/ou seu talento. Já que a mídia local não tinha interesse e os sites, blogs, jornais do sul e sudeste dificilmente pautavam algo sobre o Nordeste.

Fomos nós – artistas e comunicadores – que destruímos essa barreira geográfica, ocupando espaços e locais que há um bom tempo foram negados e, infelizmente, ainda são. Por isso é super importante fazermos o nosso para os nossos, mas também ocupar espaços distintos, como por exemplo, o próprio programa ouVisse na Veneno, um programa para artistas nordestinos que tem “sede” em uma rádio em São Paulo.

Importante ressaltar que o mercado independente do Nordeste – a qual estou inserida – atualmente, está em uma crescente interessante de se observar e até mesmo de estudar (sou dessas, haha). Tem muitos artistas que ao entrar no mundo da música, estão se profissionalizando antes, buscando informações, coisa que antes não era possível de se acontecer; projetos já existentes fornecendo cursos profissionalizantes, enfim… estamos
em uma ascensão, mas o que ainda sinto falta e o que vai fazer a roda girar – economicamente falando – são as marcas olharem pra cá!

Pela crise política que estamos vivendo nos dias de hoje, está muito difícil de se conseguir apoio do governo e patrocínios de marcas. Mas mesmo assim, vejo as mesmas marcas patrocinando os mesmo projetos e nada de arriscarem a fazerem isso no Nordeste, sabe? Espero que isso mude!

Dito tudo isto, na minha opinião, a cena musical do Nordeste está com um senso crítico mais apurado, ou seja, buscando valorização local em primeiro lugar para depois ocupar outros espaços fora da região. E agir dessa forma, é uma boa, até mesmo estrategicamente falando, sabe?

Bem, como falei, tem muita coisa boa surgindo e em ascensão – mesmo em meio à pandemia – não tem mais desculpas, a informação tá chegando às pessoas, elas só precisam fazer esse exercício de ir atrás!

Vai que tua, Tawanne. Nossos ouvidos estão abertos.

O ouVisse rola todo último domingo do mês, às 16h, na rádio Veneno.

programa Ouvisse

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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