“Parqueer” de diversões recheado de divas pop, anos 80 e montação: este foi o Milkshake Festival 2018

Por Lufe Steffen

por Lufe Steffen

“Fui convidada pruma festa da pesada no Castelo de Cristal… Me enfeitei como a Princesa Adora, cintilante como agora… era um grande baile de super-heróis…”

Tudo bem, não tinha Xuxa, She-Ra ou He-Man, mas o clima era exatamente o mesmo de um dos maiores hits da eterna Rainha dos Baixinhos. Afinal, por toda parte havia a referência aos coloridos e berrantes anos 80 – na decoração, na arquitetura e lay-out dos palcos e dos food trucks; no visual extravagante e vintage das drag queens que reinaram num evento à parte; no look do público, que caprichou nas montações (exageradas ou minimalistas, sensuais ou infantis, glamourosas ou cool, não importa ) regadas a roupas de brechó e make com glitter e purpurina; e finalmente no line-up das principais estrelas convocadas para o evento – os destaques foram, justamente, divas que explodiram nos 80 ou na ressaca da década. Mas se não era no Castelo de Greyskull, então que festa foi essa?

Foi a segunda edição brasileira do Milkshake, festival LGBT criado na Holanda em 2011, e dando já uma guinada estilística em relação à edição de 2017 – marcada pela presença de bandas e artistas bem atuais, associados com “as novas gerações”, com certa “sofisticação” musical e cuja sonoridade se liga à música eletrônica (Hercules and Love Affair, No Porn, Boss in Drama), ainda que às vezes mesclada aos ritmos “tecnobrega” (Jaloo, Banda Uó), ou mesmo ao funk (Linn da Quebrada). Já em 2018, a ordem foi: pop total, na veia. Mesmo que isso signifique escorregar para o trash.

Guinada para o trash: Gretchen foi uma das principais atrações do Milkshake 2018

E, quando se fala em pop, o que existe de mais clássico no gênero? Divas. Fatais, vampirescas, exuberantes, despudoradas, sedutoras, irreverentes e absurdas – sejam essas divas mulheres cis, travestis, trans ou drag queens. Assim, os grandes nomes que abrilhantaram o festival em São Paulo, no último sábado (2), foram as “divonas” – e, como foi dito, praticamente todas pagando tributo aos anos 80. Só faltou mesmo a Xuxa.

Logo de cara, o palco principal, Live Stage, teve como segunda atração, assim que caiu a noite, o revival da Turma do Balão Mágico. Para quem tem menos de 30 anos de idade e ainda não sabe do que se trata, esse conjunto infanto-juvenil marcou a década de 80, lançando 5 discos anuais (entre 1982 e 86) e vendendo mais de 12 milhões de cópias, fato que atraiu até o rei Roberto Carlos – que gravou com os astros mirins a faixa É Tão Lindo, no terceiro LP da banda, em 84. O grupo reinou até nas manhãs da TV Globo, apresentando um programa infantil de mesmo nome (Balão Mágico) entre março de 83 e junho de 86 – quando saiu do ar para dar lugar a… adivinhem! Xuxa, que aterrisava na Globo para dominar o país com o Xou da Xuxa.

A Turma do Balão Mágico se desfez em meados de 87 mas deixou, além de uma bagagem de hits pop infantis inesquecíveis, um legado: a diva (sim!) Simony. Crescendo diante da mídia, a garotinha sorridente e simpática de voz rouca tornou-se uma adolescente que regravou Kylie Minogue (a faixa I Should Be So Lucky, da diva australiana, virou Acho que Sou Louca, com Simony em 89), ao atingir a maioridade posou nua para a Playboy (em 94) e nunca saiu da mídia – embora, muitas vezes, tenha sido mais notícia por assuntos pessoais, como casamentos e filhos. Mas, como toda boa diva pop, ela não morre. E eis que Simony retorna triunfante, desta vez capitaneando o retorno do Balão Mágico.

A volta do grupo traz como cantores o trio da formação original: Simony, Mike e Tob – os dois ex-meninos, hoje homens feitos, praticamente “tiozinhos”, mas ainda exalando a doçura dos tempos do Balão. Para trazer o grupo de volta, Simony montou uma big band que inclui 8 músicos, dando um verniz musical indiscutível para o show. E foi com essa formação de 11 pessoas que o grupo ressurgiu, numa impactante apresentação, na Virada Cultural em São Paulo, no dia 20 de maio, com um show catártico de mais de uma hora de duração, diante de uma plateia lotada no Vale do Anhangabaú, que pulava e cantava todas as letras.

A volta do Balão Mágico, grupo que foi ícone das crianças nos anos 80, deu o tom do Milkshake

A apresentação do grupo no Milkshake não foi tão apoteótica quanto a da Virada, talvez porque o festival programou o Balão para apenas meia-hora de show, obrigando o conjunto a fazer um “resumo” de seu espetáculo – que sai em turnê por algumas cidades brasileiras ao longo do ano. Mas isso não impediu Simony de brilhar num modelito ousado que lembrava as montações memoráveis de divas como Beyoncé e Cher. E a própria Simony se identificou ainda mais com essas referências ao declarar durante o show: “Eu sempre fui meio travesti”. Para finalizar, subiu ao palco a drag queen Striperella, que arrasou com um bate-cabelo de primeira, nas duas últimas faixas do show, as bombásticas Lindo Balão Azul e Superfantástico – esta última, o maior hit do Balão.

E, falando em drags, elas foram destaque especial no Milkshake. No meio do espaço do Anhembi, havia uma tenda onde tudo girava em torno delas: uma exposição completa com fotos e textos mostrando a linha do tempo da cultura drag no Brasil e no mundo, desde os primórdios, além de mini-biografias das principais drags brasileiras.

E algumas delas estavam lá, ao vivo e em cores: ao lado da exposição, acontecia a DragCon, concurso de drags apresentado por Aretuza Lovi e Silvetty Montilla, e que tinha como juradas drags célebres como Salete Campari, Penelope Jean e Nanny People – esta última chegou a ir para o Live Stage entreter o público enquanto Wanessa Camargo não entrava no palco, e roubou a cena com seu talento e irreverência inconfundíveis. DragCon ainda marcou mais um ponto ao homenagear Miss Biá (o ator transformista Eduardo Albarella, nascido em 1940), considerada a drag que está há mais tempo em atividade no mundo – começou a se montar em 1961. Embora Miss Biá tenha surgido num tempo em que nem se usava o termo drag por aqui (era “transformista” mesmo), ultimamente ela vem sendo redescoberta como a pioneira do gênero do Brasil – em parte por ter estrelado com sucesso o filme São Paulo em Hi-Fi, dirigido por este que vos escreve!

E, continuando o desfile de divas, outro grande trunfo foi o show de Gretchen. Aos 59 anos recém-completados, a eterna Rainha do Bumbum e agora Rainha da Internet não fez por menos: com um look ousado e provocante, dançou suas coreografias clássicas executadas desde o fim dos anos 70 nos hits Conga Conga Conga, Melô do Piripiri e Freak Le Boom Boom, acompanhada de um hilariante grupo de bailarinos, e tendo como DJ (Gretchen dublou todas as músicas ) seu filho Thammy Miranda. Considerando que o Milkshake é um festival LGBT, e diante de toda a transformação pública de Thammy nos últimos anos, automaticamente Gretchen torna-se uma figura emblemática do festival, e ela vestiu essa camisa ao fazer um discurso promovendo a tolerância e o respeito às diversidades de gênero – afinal, também nesse ponto Gretchen é um pouco a nossa Cher (olha a Cher de novo! ), pois ambas são mães de filhos transgêneros.

Os anos 80 deram o tom do festival holandês este ano: dos shows à estética dos palcos

Gretchen, que reinou no final dos anos 70 e durante os 80, nunca saiu da mídia, e apesar de alguns altos e baixos (assim como Simony, virou notícia pelas turbulências pessoais e afetivas), recentemente voltou ao posto de superstar brasileira, graças ao clipe de Swish Swish, de outra diva – a americana Katy Perry. E o público de seu show no Milkshake não deixou dúvidas quanto a esse estrelato: idolatrou a musa, provando que Gretchen é sim uma das maiores divas pop que o Brasil já engendrou.

Requisitada, Gretchen foi parar até no Live Stage (seu show foi no palco We Love Your Soul), onde fez participação especial no show de mais uma diva pop que é a cara do Brasil: Preta Gil. Preta, por sua vez, iniciou seu show fazendo dupla com Wanessa Camargo – outra diva bem brasileira! –, que causou ao se recusar a descer do palco quando a produção do Milkshake desligou luzes e microfones da cantora.

Wanessa Camargo atrasou 40 minutos para subir ao palco. Enquanto ela não entrava, como dissemos, Nanny People ficou entretendo o público. Quando finalmente Wanessa surgiu, fez um show superpop, com tudo o que tinha direito, com figurino exuberante que (assim como Simony) evocava Beyoncé e Cher. O público de fiéis fãs da cantora vibrou e cantou todas as letras, mas, de repente, a luz e o som sumiram. A produção do festival alegou que o desligamento foi porque a cantora atrasou para começar; ela, por sua vez, afirma que atrasou porque a própria produção a obrigou a dar uma entrevista coletiva antes do show. Revoltada, Wanessa sentou e até deitou na beira do palco, e só saiu de lá resgatada por Preta Gil, que dividiu seu show com a colega. Mostrando assim que nem sempre as divas do mundo são rivais! E, afinal, onde já se viu evento pop sem barraco e confusão? That’s show business, life is a cabaret!

Enquanto isso, no palco We Love Your Soul, antes do show de Gretchen, outro popstar brilhou: o rapper Rico Dalasam fez um show pulsante, vestindo um memorável look queer, lembrando um pouco as montações de Prince. O público acompanhou fiel e, num de seus discursos, Rico criticou a “idiotização” da TV, afirmando que alguns artistas perdem sua identidade ao migrarem para a televisão, sendo idiotizados pelo veículo, que os descaracteriza.

Será esse o destino de Pabllo Vittar, a grande estrela da noite? Na TV, Pabllo já é figurinha carimbada, até nas novelas globais das 21h ela já deu pinta. O tempo dirá para onde a trajetória da superstar vai desembocar. Por enquanto, o que vimos foi um show eletrizante da estrela no Milkshake, show que, como não poderia deixar de ser, contou com público lotado berrando as letras dos hits da cantora-drag queen.

Falando em cantoras drags, na sequência de Pabllo vieram as drags Gloria Groove e Lia Clark, encerrando os shows do Live Stage. Em matéria de artistas que borram as fronteiras de gênero tivemos ainda, além da profusão de drags, as cantoras trans do grupo As Bahias e a Cozinha MineiraRaquel Vírginia e Assucena Assucena –, que se apresentou no Live Stage depois de Preta e antes de Daniela Mercury – a eterna Rainha do Axé, que revelou seu casamento com outra mulher nos últimos anos, não poderia faltar num evento de tamanha dimensão pop e ligado ao universo LGBT.

Ou seja, resumo da festa: rainhas do bumbum, da internet, do axé, dos baixinhos (ainda que em pensamento!), divas, musas, popstars e superstars pra ninguém botar defeito. Foi um verdadeiro “parqueer” de diversões. Espero que no ano que vem tenhamos Cher e Xuxa! E já que o assunto voltou a esta última…

“Já era quase meia-noite quando dei por mim sozinha a dançar… lembrei que tudo era um conto de fadas, e eu ali apaixonada, pra sempre certa de que tudo é real…”

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