Festival Red Bull Music Academy SP foi um delírio coletivo que varreu a cidade com shows maravilhosos por 10 dias. Queremos mais!

Danilo Cabral
Por Danilo Cabral

A primeira edição brasileira do Red Bull Music Academy foi um sucesso. Durante dez dias, o centro de São Paulo recebeu diversas atrações, shows, conversas, festas e exposições para todos os gostos e gêneros, indo da rapper queer Mykki Blanco até a elegância ímpar do maestro Verocai, de baile funk até o maior grupo de rap do Brasil – os Racionais – passando por experimentalismo eletrônico na telona de cinema. Com uma programação tão extensa e variada, o festival teve casa cheia em todos os eventos, provando que curadoria finíssima (a cargo do Akin Deckard), diversidade, artistas de qualidade e acesso democrático são ingredientes importantes para qualquer festival deste porte. O Music Non Stop foi testemunha ocular de tudo e traz para você os destaques deste que – torcemos! – seja o primeiro de muitos festivais do Red Bull Music Academy por aqui.

Racionais

Os Racionais foram, sem dúvida alguma, o maior destaque desta edição do RBMA. Também pudera, não temos no Brasil outro grupo de rap tão importante e relevante quanto eles, com tanta história para contar durante 30 anos de caminhada. Uma completa exposição foi montada no quartel general da Red Bull, onde foram exibidas fotos do acervo pessoal dos quatro integrantes, memorabilia, posters de shows, discos de ouro e até a MPC velha de guerra do Edi Rock.

Muito à vontade, o mestre KL Jay comandou, junto com seu filho DJ Will, uma aula/workshop dos samples utilizados pelos Racionais ao longo de sua carreira, assim como de outros raps nacionais e gringos. Bastante didática, a dupla riscou vários discos, revelando a fonte das bases sampleadas. Foi emocionante ver KL Jay reproduzir ao vivo como Freddie’s Dead do Curtis Mayfield virou Mano Na Porta do Bar e o DJ Will mostrar, usando somente o mixer e a pick-up, como o Kaytranada entortou a Gal Costa em Lite Spots.

Logo em seguida foi a vez de o grupo todo sentar no sofá para passar a limpo sua história. A entrevista foi capitaneada pelo competente André Caramante, que não teve receio de tocar em pontos nevrálgicos da carreira dos Racionais, como por exemplo o fatídico episódio do show em Bauru, o ponto de virada onde Mano Brown resolveu acabar de vez com a pose e discurso gangsta da fase Sobrevivendo No Inferno, já que não aguentavam mais tanta bad vibe junta. A história de como o grupo foi formado também foi passada a limpo, revelando a culpa que KL Jay levou durante anos por ter tido a sorte de crescer em uma família com condição social um pouco melhor do que dos outros integrantes. A entrevista completa você pode ver aqui.

Para fechar a tampa de tão completa homenagem, os Racionais lotaram o Audio Club para um show histórico, varrendo as três décadas de atividade do grupo. Com Mano Brown especialmente inspirado, todos os versos eram cantados em coro pelo público presente. Nego Drama, Versículo 4, Capítulo 3, Homem na Estrada e principalmente Diário de Um Detento fizeram a estrutura do Audio tremer e, não duvide, pode ter sido a última vez que a banda toca esses hits ao vivo. A Red Bull também disponibilizou o show completo aqui.

Aula de Baile Funk

É impressionante a capacidade do brasileiro de tomar de assalto ritmos originários de outros países e transformar em algo único e com a identidade brasileira claramente estampada. Foi desta forma que o funk carioca nasceu, como foi brilhantemente explicado pelo cara que fez este parto e ajudou a criar o pancadão, o DJ Grandmaster Raphael. Ele fez um relato preciso dessa história de sucesso, indo desde sua criação até o momento que o funk brasileiro vive hoje – com BPMs altos, na casa dos 130-150 – passando pela fase “Proibidão”. O mago do grave pesado começou a discotecar nos bailes do Rio de Janeiro no começo dos anos 80, lançando pedradas nas pistas como Just Like The Wind do Tony Garcia e muito funk melody e Miami Bass. Porém, como esses ritmos chegaram com certo atraso por aqui e já minguavam nos Estados Unidos, a única forma que os DJs acharam para manter as pistas bombando era fazer a sua própria música.

A partir daí, com equipamentos precários e sem técnica alguma, usando só o feeling e raça, nasceram as primeiras produções nacionais, desembocando no tremendo sucesso que faz hoje em dia. Dois pontos importantes nesta história: como 8 Volt Mix virou a cabeça dos produtores e se tornou a base oficial de inúmeros funks (e, por consequência, o uso da atemporal Roland 808) e como os moradores das favelas cariocas começaram a ter participação fundamental na criação das músicas, passando a relatar o seu cotidiano nas letras, o que aumentou mais ainda a identificação com o público. Uma verdadeira dissecação do ritmo que, hoje, podemos dizer que é 100% brasileiro.

Shows

A programação de shows do Red Bull Music Academy Festival também foi bastante variada. O primeiro deles foi o elegante maestro Arthur Verocai tocando em plena Praça da Sé, num belíssimo domingo de sol. Bastante tímido e sem o menor trejeito para lidar com os mais de mil espectadores, essa lenda da música brasileira apresentou seu mais recente disco, o ótimo O Voo do Urubu, regendo uma grande orquestra e tendo a participação luxuosa de Mano Brown em Cigana. Foi arrepiante testemunhar Verocai comandar seus músicos e reviver faixas de seu antológico disco de 72, o cultuado Arthur Verocai. Uma tarde deliciosa no centrão de São Paulo.

No dia seguinte foi a vez da música experimental brasileira ser homenageada. Com base na coletânea Outro Tempo, compilada pelo DJ inglês John Gómez, o show trouxe para o palco do Teatro Oficina gente do quilate de Maria Rita Stumpf (sua voz continua idêntica!) e Os Mulheres Negras, que apresentaram ao vivo músicas incluídas na coletânea, cada um tocando duas músicas e se juntando para uma grande jam no final. Marco Bosco, um dos artistas presentes na coletânea, apresentou uma de suas músicas ao vivo pela primeira vez desde que foi gravada, lá no começo dos anos 80. Arrepiante, para dizer o mínimo.

O suntuoso Cine Marabá foi palco de uma das apresentações mais marcantes de todo festival. A dupla Oneohtrix Point Never e Nate Boyce estreou mundialmente em terras paulistanas o projeto Kaoss Etudes, onde a música eletrônica experimental e de vanguarda se funde com projeções na telona. Com som perfeito (queremos mais shows no Marabá!), as múltiplas camadas sonoras quebradas e potencialmente dissonantes se fundiam com as imagens, por vezes idílicas paisagens como a tela de fundo do Windows, passando por modelagens 3D e pontilhadas por glitch e notas musicais. Nenhum dos espectadores saiu ileso dessa apresentação mágica.

Fechando as apresentações ao vivo, o Centro Cultural São Paulo recebeu uma penca de bandas barulhentas. Dividida em dois ambientes, foi a real e oficial celebração do ruído em forma de música, indo do doom metal à bossa nova pervertida e torturada. O ponto alto da noite foi o encontro inédito das Mercenárias com as meninas do Rakta, uma das melhores bandas brasileiras da atualidade. A parada foi tão intensa e energética que o público invadiu o palco no final, acentuando ainda mais a vibe caótica do show. Destaque também para o descontrolado Brechó de Hostilidades Sonoras e suas insanas colagens e para o veterano projeto Objeto Amarelo, que tocou só para os fortes, já no final da madrugada. Estamos com o ouvido doendo até agora.

Festas

É claro que ia ter festas também, e teve muitas! Logo de cara tivemos o grave forte batendo no peito na pista dedicada ao batidão, no palco pequeno do Audio Club. Grandmaster Raphael voltou à cena, mas desta vez contando na prática a história do baile funk, acompanhado na sequência pelo grande (em todos os sentidos) Egyptian Lover, que usou, abusou e perverteu clássicos do freestyle, dos primórdios do electro e das primeiras produções do rap, como Planet Rock do Afrika Bambaataa. No final apoteótico, o DJ ainda carregou seu 808 no colo e solou nele como se fosse uma sanfona eletrônica e grave, muito grave. Aliás, já leu nossa entrevista com o cara?

Já a festa Zonas Limiares teve a Casa das Caldeiras como cenário e com as várias pistas fervendo o tempo todo. Foi tanta gente boa tocando junta que ficou difícil escolher nosso preferido. Porém não podemos deixar de citar o incrível set da Acaptcha, o bass music do Cesrv, a “house Hans Donner” do Repetentes 2008 e a Honey Dijon, que deixou todo mundo com as pernas moles de tanto dançar. A grande atração da noite foi Theo Parrish, que dividiu opiniões. Nosso querido Camilo Rocha resumiu o sentimento perfeitamente em um post no Facebook, que reproduzimos aqui:

“É preciso muita confiança para pegar uma pista animada à base de house e techno e zerar tudo, dando o restart com um reggae e ir subindo tudo de novo muito lentamente. É claro que muitos se decepcionaram. Mas uma coisa que aprendi nesses anos todos é que as pessoas esperam coisas muito diferentes de um set de DJ. E todas podem ter razão. Se o negócio era continuar bombando, o caminho a tomar era o do set de alta octanagem da Honey Dijon. Agora se a vontade era de se deixar levar por um exercício de estilos, épocas e texturas diferentes, Theo Parrish foi o maestro perfeito.
É sintomático que muitos dos elogios ao set dele continham citações a discos incríveis de outros tempos. Quando um DJ toca Steve Reich o bloco da Discogs pira muito (sou desses). Mas confesso que oscilei entre as duas vontades: se jogar na discotecagem “papo reto” da rainha Dijon ou apreciar a biblioteca de sons do mestre de Detroit. No fim, até porque já estava bem cansado, fiquei com Theo Parrish. Lembro que alguém reclamou dele tocar músicas antigas em uma festa de “vanguarda” e “zonas limiares”. Não é justo: artistas como Theo Parrish são necessários e testam fronteiras porque desafiam as noções seguras do papel de um DJ, do que pode ou não pode ter em um set.” 

Celebrando a diversidade de gêneros, a festa Queeridxs lotou o decadance avec elegance Cine Paissandu. Tendo a incrível Linn da Quebrada como estrela, o cinemão entrou em ebulição logo cedo e ferveu até altas horas, sem dar descanso aos presentes. A rapper Mykki Blanco deitou e rolou, se sentindo extremamente à vontade e os DJs não deixaram a peteca cair. Gay pride do fervo até as últimas consequências!

O último evento do festival rolou na cobertura do Red Bull Music Academy, em outro domingo com solzão e friozinho típico do outono paulistano. A good vibe era palpável, todo mundo com sorriso no rosto, copo na mão e dança nos pés, graças à trilha sonora dos sempre incríveis Selvagem. Foi um encerramento digno para um festival tão legal, completo, democrático e que sirva de exemplo para os próximos. Vida longa ao Red Bull Music Academy Festival, foi foda!

Créditos das fotos: Red Bull/Divulgação
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