Taylor Swift

Inferno de Taylor Swift no Brasil revela a naturalização da desumanidade

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Artistas, fãs, organizadores e poder público: está todo mundo vivendo no mundo da lua

Os serviços meteorológicos e a grande imprensa cansaram de avisar. A previsão era de calor extremo e temporais com ventos de até cem quilômetros. Além do inferno climático, no Rio de Janeiro, o governo federal acabara de prorrogar a presença da Força Nacional na cidade para conter uma gravíssima crise se segurança pública, causada pela recente aliança entre milícia e organizações do tráfico.

Mas não importa. O que interessa mesmo é que Taylor Swift faria, na Cidade Maravilhosa, os três primeiros shows de sua esperada turnê no Brasil. Durante a entrada, no primeiro dia (sexta, 17), jovens que pagaram uma fortuna em seus ingressos são obrigados a jogar fora garrafas de água que haviam trazido, também para aplacar a sede causada por horas em filas quilométricas.

Dentro do Estádio Nilton Santos, também conhecido como Engenhão, a explicação para tamanha rigidez: copos de água vendidos a oito reais, para um público de 70 mil pessoas que se espremia na pista, com sensação térmica de 60 graus.

Tragédia

Como resultado, centenas de desmaios e a morte de Ana Clara Benevides, de 23 anos, por parada cardiorrespiratória, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Com prazo de 30 dias para entrega do laudo, segundo a polícia carioca.

No dia seguinte, ainda no calor extremo, a T4F, organizadora do evento, resolveu anunciar o adiamento do show de sábado para segunda-feira — porém, depois que muita gente já estava no estádio, há horas, aguardando por Taylor. Os protestos foram gerais — alguns, chocantes. Como o caso dos que cantaram, no metrô, músicas de Kate Perry, desafeta confessa de Swift.

Ainda assim, não foi o suficiente para interromper a sequência de mortes. Um fã que viajou do Mato Grosso para a capital carioca foi esfaqueado durante um assalto na praia de Copacabana. Gabriel Mongenot Santana Milhomem Santos tinha 25 anos.

O que se viu? Mais indiferença. Inclusive da artista, que não se pronunciou em cima do palco durante show de domingo (19).

Houve, claro, alguma solidariedade. Uma vaquinha online está sendo promovida por fãs, para pagar o traslado do corpo da jovem Ana Clara para sua cidade. Apoio que, convenhamos, poderia ter sido prontamente oferecido pela própria T4F.

Duas mortes causadas por aglomerações gigantescas, em meio ao caos climático e a uma guerra urbana contra o crime organizado.

Falta de noção (e de humanidade)

O Music Non Stop já chamou a atenção para a falta de noção de realidade que os produtores de grandes eventos estão demonstrando, em editorial publicado após o cancelamento da edição de sábado do último Tomorrowland. A locação escolhida, no interior de São Paulo, foi arrasada pelas fortes chuvas, no primeiro dia do evento.

Aparentemente, os envolvidos estão vivendo no mundo do lua, relevando situações seríssimas de risco. E o apego ao dinheiro, seja de quem compra um ingresso, de quem investe milhões ou de quem foi eleito para zelar pela segurança das pessoas, denuncia um desapego à vida sem precedentes.

O governo federal anunciou que eventos não podem proibir a entrada de água pelo público, e devem disponibilizar algo tão básico para a sobrevivência a quem precisar, dentro dos estádios. Depois que Ana Clara morreu. Nos festivais, e até mesmo em clubes europeus, a água gratuita é obrigatória.

O governo estadual de São Paulo proibiu todos os 55 eventos que aconteceriam ao ar livre em São Paulo, devido às previsões das ondas de calor. No sábado, dia dos espetáculos, e depois que Ana Clara morreu.

Fãs, por sua vez, acamparam em filas, com até dois meses de antecedência, muitos autorizados pelos pais, para garantir o melhor lugar em um incinerador natural previamente alertado pelos meteorologistas.

As empresas organizadoras acreditaram que vender água a oito reais seria suficiente para refrescar todo mundo.

E as estrelas da música acreditam que “realizar o sonho” tão esperado de milhares de “fãs” é mais importante do que preservar a vida de um só jovem. Ou, também, respeitar o luto de quem a perdeu.

A sociedade adoeceu.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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