Napster Imagem: Paramount+/Divulgação

Produzido por Eminem e LeBron James, documentário conta a história do Napster

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Lançado nessa terça-feira (11), How Music Got Free investiga a revolução provocada pelo software que abalou toda a indústria da música

No Brasil, temos o costume popular dizer que esta ou aquela lei “não pegou”. Trata-se do comportamento coletivo que temos de, ao achar que uma lei não é muito justa, fácil de obedecer, ou até mesmo incômoda, resolvemos que não vamos respeitá-la. Como não dá para prender todo mundo, as autoridades acabam desistindo de fiscalizá-la. Na virada do milênio, quando o software Napster apareceu nos Estados Unidos, permitindo que usuários trocassem entre si suas bibliotecas digitais de música (sem pagar um centavo em direitos autorais para seus autores), o mundo todo viveu a experiência de ser brasileiro por uns tempos.

Tanta gente, mas tanta gente aderiu à nova moda, que o Napster foi um dos principais responsáveis por quebrar uma indústria musical que vendia quase sete milhões de CDs de música por ano em lojas presentes em cada cidadezinha do planeta. Nem é preciso mencionar o tamanho da revolução que isso causou. Foi como a que de um meteoro. O gigantesco mercado paralisou e, de uma hora para a outra, todos os envolvidos, de artistas e gravadoras a lojistas, tiveram que se reinventar, ou simplesmente desaparecer.

Finalmente, alguém resolveu produzir um documentário para contar a história deste momento. No caso, o rapper Eminem e o esportista LeBron James, produtores de How Music Got Free, filme que foi ao ar pela plataforma Paramount+ nesta terça-feira (11) (ainda não disponível no Brasil).

Talvez, fosse mesmo preciso um distanciamento temporal para não cometer injustiças. Nos anos 2000, quando o Napster se popularizou, vimos muitas, desde o governo enquadrando usuários como criminosos, até bandas gigantes, como o Metallica, processando o garoto que criou o software, Sean Parker.

Ainda no papo sobre justiça, o Napster não foi a causa do movimento que nocauteou a indústria da música. A causa, mesmo, foi a criação do MP3, arquivinho de computador que, minúsculo, era capaz de armazenar uma música com qualidade aceitável e que podia ser enviada e recebida entre computadores, mesmo antes da internet de banda larga.

A tecnologia foi criada na Alemanha, em 1993, dentro do Instituto Fraunhofer. Logo que foi descoberta pelos primeiros nerds, popularizou-se o hábito de “ripar” CDs. Você botava o álbum para tocar no seu computador, convertia todas as músicas para arquivos MP3 e saía distribuindo, do quarto de sua casa, para amigos, conhecidos, desconhecidos, inimigos… Todo mundo! E sem ganhar um centavo por isso. Afinal, a internet, naquela época, tinha a aura de grande biblioteca universal do universo, onde tudo estaria disponível de graça. A pirataria (termo usado pelas gravadoras) ficou tão grande, que foi impossível reprimi-la.

As gravadoras já estavam sofrendo de urticárias quando os CDs regraváveis, os CD-Rom, foram lançados. Com a nova tecnologia, qualquer um com um computador poderia fazer uma cópia de um álbum. Nós, brasileiros, nos acostumamos com as banquinhas vendendo cópias baratíssimas de discos e filmes em pontos de ônibus e feiras livres. Grandes escritórios de advocacia tentavam, de todas as formas, identificar e processar todo mundo que encontravam, com a colaboração da polícia. Mas não teve jeito: se as grandes corporações cambaleavam na época dos CDs piratas, o MP3 foi o hadouken mortal que as levou ao chão.

Napster

Imagem: Paramount+/Divulgação

No ar desde 1999, o Napster jamais copiou ou disponibilizou um só arquivo de MP3. Era na verdade uma plataforma que criava uma comunidade anônima. Os usuários designavam uma pastinha do computador para ficar pública a quem procurasse, em qualquer lugar do mundo, desde que conectado à internet. Foi o argumento que usaram para se defender (por algum tempo) das acusações de pirataria. O site não fazia, mas deixava fazer. Mais do que isso, facilitava demais a ação.

How Music Got Free, o documentário, revive o momento da revolução do povo consumidor de música contra a monarquia capitalista das grandes empresas, que dominava o mercado. Os roteiristas conversaram com todas as classes envolvidas. Os artistas, os donos de loja, as gravadoras e, claro, os usuários.

Foi uma época muito doida. Artistas começaram a publicar seus novos lançamentos na internet pedindo uma contribuição simbólica para os usuários, apelando para sua consciência de que ele precisava pagar o aluguel. Corporações começaram a montar suas lojas online de MP3, também esperando que consumidores preferissem pagar um pouquinho a usar “da pirataria” para descolar música de graça. As opiniões foram muito divididas. Teve gente que aceitou como um novo normal, outros que ficaram fulos da vida e muitos que enviaram para o front seus batalhões de advogados.

O ambiente dos downloads de MP3 seguiu como um padrão até que o mercado finalmente encontrou uma solução, por volta de 2010: o streaming. Em plataformas como o Spotify, você toca a música, mas não a possui. Paga pelo direito de ouvi-la. Uma tentativa de reconstrução de um ambiente onde consumo de música e dinheiro são indissociáveis.

20 anos depois, já com o MP3 devidamente domado, um documentário como How Music Got Free se torna viável, tratando o caso como momento histórico. De conhecimento essencial, tanto para quem viveu antes e depois daquela época, quanto para quem nunca teve, no porta luva de carros, um case de CDs, lotado de pérolas de sua coleção musical.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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